Expomusic 2016: análise completa da feira da música no Brasil

Expomusic 2016: análise completa da feira da música no Brasil

por 28/09/2016

Expomusic trouxe as mudanças que deveriam existir desde sempre

Se, sob o ponto de vista econômico, este ano trouxe um imenso desafio para as empresas do setor, imagine para a Expomusic, feira que vinha demonstrando fadiga e inabilidade para lidar com a crescente demanda do mercado. E não era para pouco. Os baixos investimentos em marketing e na produção de ações que, apesar da boa intenção, na prática não faziam grande diferença para quem expunha ou visitava a feira, trouxeram uma péssima reputação para a gestão da feira.

Confesso que não tenho compromisso com a ineficiência, com a falta de transparência e até com o desvio de recursos. Dessa forma, me sinto livre para comentar em artigo assinado, aqui na Música & Mercado, os pontos que considero importantes para o setor. Sugiro também que leiam a crítica que fizemos sobre as duas últimas Musikmesse, feira global realizada na Alemanha anualmente. A Musikmesse, tal qual a Expomusic, foi prejudicada por suas próprias ações. A diferença é que na Alemanha eles encaram as críticas de forma profissional e admitem seus erros. Já no Brasil, fulanizam a crítica e culpam o crítico.

Primeiras impressões

Fazia anos que não tinha esta sensação: ao chegar à entrada da feira, vibrei com a quantidade de gente e felicidade estampada na face das pessoas que estavam lá. Já nas redes sociais, boa parte do público era nova, experimentando o evento pela primeira vez.

Yamaha:

Yamaha: um sucesso de público e produtos

O forte investimento em marketing, impressos e mídia social da Expomusic 2016 teve melhor resultado — trouxe, segundo a organização da feira, 42 mil visitantes.

Eventos internos da Expomusic também chamaram a atenção. Acertadamente a convocação de profissionais como Marcelo Rossi, do Mrossi Show, da rádio 89 FM e a gerente de marketing da Habro Music, Renata Gomes, trouxe o fôlego que faltava neste momento.

O Expomusic Talks contou com ótimos participantes, que se alternaram em palestras ou painéis de curta duração. Na parte de fora do Anhembi, uma tenda ao estilo do Tagima Dream Team (TDT) trazia bandas dos mais variados estilos. O Barkley Smooth Jazz Festival, Zildjian Day, food trucks, tatuagem, autógrafos com artistas, Rockshow Experience, moda e outros componentes do life style dos músicos, além do espaço Minha Primeira Expo, compunham o evento.

A experimentação também pode ser colocada como um ponto forte. Pela primeira vez, o estande da Pride Music, responsável pela Fender no Brasil, abriu as portas para que o público pudesse pegar, experimentar, tirar fotos com os equipamentos. O resultado foi ótimo.

Não posso me esquecer de escrever sobre a mudança do Expo Center Norte para o Pavilhão do Anhembi. Este ponto, que era uma incógnita para muitos, inclusive para mim, se mostrou acertado. Mesmo o pavilhão de exposição sendo antigo, a área externa contou muito para os eventos dirigidos ao público final.

Expomusic e os números estranhos

Muita coisa foi acertada nesta Expomusic, mas boa parte dos números apresentados soou irreal. Inicia-se pela propaganda da Expomusic para atrair expositores, que pecou ao dizer que 40% do faturamento das empresas é feito na Expomusic. De onde vem esse número? Provavelmente do mesmo lugar em que os demais números mágicos aparecem. Vamos ver os outros.

A chamada da feira — ‘A quarta feira no mundo’. A Expomusic não é a quarta feira de música no mundo há pelo menos uma década. Digo isso com muito conhecimento das feiras globais, para as quais viajo anualmente — ao menos cinco delas. A classificação seria por volta da 11º no mundo, atrás de feiras como a do México e outras tantas na Ásia e na Índia.

Pouco críveis também foram os números de compradores apresentados ao mercado. A Expomusic informou que 5.280 compradores atenderam ao evento. Um expositor comentou comigo: “Onde eles estavam? Se atendesse somente 5% disso já estaria ótimo”, ironizou. Pelos cálculos que a Música & Mercado fez, a frequência de lojas no período da Expomusic não passou de 560.

Uma sucessão de números adicionados óbviamente faz duvidar também do número final de presentes. Mas antes de publicar este análise, falei com o presidente da Abemúsica, Synésio Batista da Costa. Ele me explicou que o número dos compradores não era baseado nas lojas, mas em um apanhado geral que incluía igrejas, entre outros.

Pride Music: Fender à disposição para experimentação

Pride Music: Fender à disposição para experimentação

Expomusic e a guerra do volume

Logo nos primeiros dias de evento, fechado para lojistas, já se viam músicos em diversos estandes. A equipe da Música & Mercado teve a oportunidade de conversar com Anderson Martins, um operador de caixa da rede de supermercado Pão de Açúcar, que estava no primeiro dia da feira com sua familia. Ele ganhou ingresso. Nas feiras internacionais, como NAMM, por exemplo, a entrada de músicos e outros nos dias fechados ao comércio é praticamente impossível.

O que ocorreu, entretanto, além da distribuição de ingressos para os primeiros dias de feira, foi o envio de credenciais a todos os músicos com OMB já cadastrados na feira em anos anteriores – se não foi isto, pareceu. Compreensivelmente, músicos querem tocar e testar os equipamentos expostos. Por outro lado, lojistas querem comprar sem a necessidade de aumentar o tom de sua voz.

Deu-se a guerra do volume. Expositores que abriram para os músicos tocarem criaram a contrapartida de outros estandes. Cada qual com o máximo de volume possível. A Maria Amélia, gerente de vendas da Francal, não tinha condições de parar uma situação dessa.

Resultado: empresas que mantiveram o compromisso com a organização e não fizeram barulho foram prejudicadas.

Marcas chinesas na Expomusic: conflito de interesses.

Marcas chinesas na Expomusic: conflito de interesses.

Chineses

Nas sombras, estandes chineses que foram tão criticados pelos expositores no ano passado continuavam presentes. Um dos maiores fornecedores de microfones OEM da Ásia, a Baomic estava no evento conversando com os lojistas e trazendo novidades para a venda direta. O maior problema disso é a informação confusa. Alguns lojistas, ao analisar a lista de preços de um fornecedor chinês, não se atenta às contas necessárias e começa a barganhar com o distribuidor brasileiro em face da grande diferença de valores. Uma desnecessária confusão nesta época difícil em que vivemos.

Negócios

Este ano a Expomusic trouxe a Rodada de Negócios, uma alusão a outro evento, o Encontro de Negócios, que ocorre há oito anos em paralelo à Expomusic. O nome Rodada de Negócios acabou pegando mal para a Expomusic, que tem criatividade para fazer uma marca nova, mas preferiu aproximar o nome de um outro evento, que é sucesso. De acordo com a Abemúsica, a Rodada rendeu em torno de R$ 3 milhões e atendeu 30 lojistas.

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Conversando com expositores aqui e ali, a feira, de modo geral, trouxe bons resultados. Antes de tudo, pela reconquista da confiança do púbico e pela realização do desejo de todos no setor para que tivéssemos um evento que voltasse a dignificar o mercado.

Considerando o mérito que a organização teve para realizar todos os projetos, há de se contar o movimento natural do mercado após a estagnação econômica que assolou o primeiro semestre. Lojistas desabastecidos precisavam comprar e voltar a sentir o mercado novamente, com o apanhado de ações promovidas pela Expomusic. Sim, foi muito bom ver o mercado reagir.

Anteriores e paralelos

Uma pausa para pensar. Nos anos anteriores, a baixa frequência das lojas e do público na feira foi real. Antes de ocorrer, a feira em 2016 ainda era uma incógnita. Muito dessa situação se deu pela inabilidade e falta de ações da feira nos últimos anos, além do momento econômico. O movimento de recuperação foi tardio, tornou a imagem da feira antiquada e pesada. Feiras paralelas ganharam espaço e credibilidade.

Já há anos o Tagima Dream Team foi e ainda é um motor propulsor para esta época do ano. Os demais eventos ainda reforçavam a vinda das lojas para São Paulo.

Vejo agora alguns colegas falando como se soubessem do resultado do evento, antes de a feira ocorrer. Imagine. Estavam morrendo de medo do fracasso, como qualquer humano tem.

A Expomusic foi um sucesso, o TDT, o Encontro de Negócios, o evento da Harman, o da Oneal, o da Sound Box foram sucesso também! A somatória das empresas trouxe o interesse das lojas em vir para São Paulo.

Fazendo certo, a Expomusic tem tudo para não ser engolida pelos eventos circulares (e não será). Basta que haja diálogo e humildade. Que venha a Expomusic 2017!


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