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Harmonia Combinatorial – Julio Herrlein fala sobre seu tratado de harmonia

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Harmonia Combinatorial – Julio Herrlein fala sobre seu tratado de harmonia
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Segunda edição do Harmonia Combinatorial

Uma das obras a serem mais destacadas nos próximos artigos de nossa seção Música Invisível, é com certeza o Harmonia Combinatorial, de Júlio Herrlein. Ele concedeu entrevista à Música & Mercado, falando um pouco sobre a concepção do livro, seus objetivos – dentre os quais simplificar o entendimento para os iniciantes – que é também o da seção. Alerta para o não gerenciamento da farta informação disponível na Internet, e detalhes. Breve abordaremos alguns aspectos da obra, com exemplos e aplicações práticas.

M&M: Como teve a ideia, a concepção, para a criação do Harmonia Combinatorial? A partir de algum momento, ou foi uma criação que se desenvolveu aos poucos?

Julio: O projeto do livro harmonia combinatorial começou de forma muito modesta, pois eu tinha o desejo de fazer uma apostila para os meus alunos, algo muito simples para deixar no xerox. No início o projeto era um livro de Chord Melody para guitarra. Posteriormente, vi que já havia muitos livros nesse estilo e decidi fazer uma espécie de livro de referência, um livro que pudesse ser consultado, como um dicionário, e que de alguma forma fosse completo. Buscando essa ideia de completude, me baseei na teoria de conjuntos para que o livro contivesse todos os acordes possíveis, com exceção dos acordes que contém três semitons consecutivos então, basicamente, o livro contém todas as estruturas utilizadas na harmonia tonal e funcional.

Julio associa visualmente o velho círculo das quartas e quintas a formas geométricas

M&M: Quanto aos exemplos, fazem parte de suas composições, foram desenvolvidas para o livro, ou foi uma mistura disso e outras estratégias?

Julio: O livro contém composições, mas elas não estão diretamente relacionadas ao conteúdo do livro. Elas são resultado de uma fase composicional onde essas questões do livro estavam na minha cabeça. Por exemplo, a música  “Ainda Não”, contém elementos da técnica serial dodecafônica usada de forma bastante livre. Há também uma sonata para guitarra elétrica que homenageia o guitarrista Ben Monder, que é um grande entusiasta deste livro. O material da publicação é disposto de uma forma muito geral, abrangente, que pode ser usado de diferentes formas, tanto no estudo do instrumento, quanto na composição e improvisação.

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M&M: Como guitarrista, obviamente o livro seguiu uma trajetória de execução dos exemplos no instrumento. Mas tu pensaste paralelamente no seu uso para outros instrumentos harmônicos, ou adaptou algumas ideias para isso?

Julio: O layout e diagramação do livro privilegia o aspecto mecânico da guitarra e do violão na sua afinação standard, todavia os conceitos de drops, aberturas, a teoria funcional, as aplicações sobre os acordes, os hexatônicos e todo o material pode ser empregado no estudo de arranjo ou adaptado para outros instrumentos ou ensembles.

M&M: Como foi, e a partir de que momento na sua vida, a sua experiência o levou a escrever o Harmonia Combinatorial?

Julio: O contato com a Universidade enquanto aluno na graduação abriu minha cabeça para muitos repertórios diferentes e para a prática de diferentes estilos de composição, bem como diferentes teorias da Harmonia que pude estudar com o grande professor Fernando Mattos. A mais recente edição do livro do livro é dedicada in memoriam ao Fernando e aos ensinamentos que eles nos deixou, tanto na música como nas relações humanas.

M&M: Indo um pouco para tua experiência como instrumentista, como foi a sua formação desde o início, o que foi importante no teu aprendizado? Uma pessoa, várias, e também quais obras escritas?

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Autor e obra se autocomplementam nos exemplos cuidadosamente escolhidos

Julio: Minha experiência como instrumentista sempre foi muito prática mas desde cedo tive interesse na música contemporânea, no jazz e na música popular brasileira. Desde cedo eu já acompanhava o trabalho de pensadores como Koellreutter, por exemplo. Tive alguns professores que me ensinaram a estudar de forma autodidata, talvez a coisa mais importante que devemos aprender como músicos.

M&M: O que acha da Internet como fonte de materiais didáticos? Sabemos que nas redes sociais há de tudo, do bem e do mal… Na sua avaliação, as redes e a Web como um todo, ajuda ou atrapalha?

Julio: A internet é uma fonte inesgotável de materiais. Todo dia, muitas horas de video-aulas, tutoriais e todo tipo de material pedagógico é despejado nessa corrente infinita. Um dos maiores problemas atualmente é a economia da atenção, isto é o gerenciamento da nossa capacidade de estar focado em um assunto por um determinado tempo. Há tantos estímulos que é muito fácil se distrair com assuntos diferentes. Em uma visão mais generalista isso pode ser muito interessante, mas na música às vezes é necessário focar em habilidades específicas. É importante incentivar os estudantes a encontrar algo que os interessa e que ao mesmo tempo traga algum desafio, alguma expansão. Não é fácil gerenciar nossa capacidade de foco. Isso serve para todo mundo, nos dias de hoje. Apesar desse problema, é muito bom que existam tantos materiais, é melhor do que o obscurantismo. Todavia, o não gerenciamento dessas informações traz muita confusão.

M&M: Planos para o futuro: a primeira edição teve um pouco mais de 300 pgs, e a segunda chega a 350. Ampliações, ou planeja algum novo trabalho didático escrito ou em algum formato multimídia, juntos ou separados?

Julio: Acho que os planos futuros para o material presente no Harmonia Combinatorial passa pelo desafio de tornar esse conteúdo mais acessível e explicada de forma mais progressiva para o público. Na última versão, me esforcei bastante em explicar de forma mais detalhada a parte de harmonia funcional e também sugerindo mais formas de usar o livro. Mas ainda é preciso trabalhar mais com exemplos aplicados alguns repertórios e formas mais sistemáticas de usar o livro. Creio que vídeos ajudarão muito nisso. Tenho mantido um canal no YouTube, apesar da enorme concorrência, e lá expresso as minhas ideias. Durante a pandemia esse canal cresceu consideravelmente, mas ainda é um canal bem pequeno. O YouTube é um processo lento que é necessário investir tempo na criação de vídeos realmente interessantes e sintéticos.

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Saulo Wanderley
Autor: Saulo Wanderley

Membro fundador do Núcleo Música Nova em 1973, Composição na UNICAMP na turma de 1980, microempresa Pauta Arte & Comunicação aberta em 1989, Comissão Especial de Propriedade Intelectual OAB/RS em 2001, V Prêmio Sérgio Motta de Arte & Tecnologia 2005 com o grupo oTaoDoMinf, Troféu Clave 2009 pela OMB-SP. Foi redator, revisor técnico, tradutor, colaborador e editor das revistas Soundcheck, Música&Tecnologia, ON&OFF, SoundOnSound BR e Música & Mercado. Autor de dezenas de métodos de instrumentos pela Imprima Comunicação Editorial, atualmente Apple Developer, professor e instrutor de Logic Pro, Studio One e Sibelius. Faz parte do staff do estúdio Audio Porto como colaborador do Educacional e estratégias de parcerias.

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