Distribuição
A Sennheiser caiu na Multilaser?
Artigo de Daniel Neves analisa a reação dos lojistas à Sennheiser no Grupo Multi e por que a antiga imagem da Multilaser já não explica a empresa que assumiu a distribuição da marca no Brasil.
Eu também pensei isso. E foi exatamente por isso que fui até lá.
Vou ser honesto: quando li que a Sennheiser tinha colocado a operação brasileira de áudio profissional nas mãos da Multilaser, minha primeira reação foi a mesma que rolou no WhatsApp de meio mercado.
Sennheiser? Com a Multilaser? Sério?
A pergunta veio acompanhada daquela imagem que todo lojista de áudio e instrumento musical carrega há vinte anos: gôndola de supermercado, mouse de R$ 19,90, fone de ouvido que dura três meses, caixa de som genérica empilhada em loja de departamento. Microfone sem fio Sennheiser dividindo catálogo com carregador veicular não fechava na minha cabeça. E aposto que não fechou na sua.
Esse texto é sobre o que aconteceu depois que eu fui visitar o Grupo Multilaser com esse preconceito embaixo do braço.
Spoiler: saí de lá incomodado. Mas não com a empresa.
A reação do canal faz todo sentido
Antes de qualquer coisa, é preciso falar a verdade: a desconfiança do lojista, do integrador, do técnico de áudio, do gerente de PA, do operador de igreja, do dono de produtora — toda ela é legítima.
A Sennheiser não é uma marca qualquer no nosso setor. Microfone sem fio para palco, sistema de monitoração in-ear, lapela broadcast, headset corporativo, cápsula de estúdio. Em todos esses lugares, a marca virou referência porque entregou, década após década, uma combinação que poucos conseguem: engenharia alemã, suporte técnico que atende, estoque que existe e canal que sabe vender o que está vendendo.
Ninguém compra Sennheiser por preço. Compra porque a transmissão da TV não pode falhar, porque o culto começa às 19h e o pastor precisa do microfone funcionando, porque a banda sobe no palco e a base vocal depende daquele sistema sem fio sem dropout.
Quando uma marca dessas troca de distribuidor no Brasil, o canal tem o direito — e o dever — de perguntar:
Vai ter estoque? Vai ter assistência? Vai ter treinamento? Vai ter respeito pelo revendedor especializado, ou vão jogar o produto em marketplace e deixar o integrador competindo com o preço da própria distribuidora? A equipe técnica vai ter voz, ou vai virar mais uma linha dentro de uma planilha de giro?
Essas perguntas continuam de pé. Não estou aqui para apagá-las. Estou aqui para dizer que a primeira reação do mercado partiu de uma fotografia que ficou desatualizada.
A Multilaser que está na sua cabeça não é mais a empresa que assumiu a Sennheiser
E esse é o ponto difícil de engolir.
Porque o preconceito do canal — e eu carregava o meu — não foi inventado. Ele veio de algum lugar. Veio da época em que entrar na Multilaser era sinônimo de produto de entrada, embalagem chamativa, prateleira de hipermercado, atacarejo de informática. Veio de uma lembrança real.
Só que enquanto o nosso mercado ficou olhando para a embalagem do mouse, o Grupo Multilaser cresceu para fora desse retrato.
Hoje a companhia opera com mais de 7.500 SKUs, 20 marcas próprias, 24 marcas parceiras, presença em mais de 44 mil pontos de venda, 14 unidades de negócio, complexo industrial em Extrema, duas fábricas em Manaus, laboratório de engenharia na China e mais de 4.500 funcionários. Em 2025 fechou receita líquida de R$ 3,92 bilhões com lucro líquido ajustado de R$ 136,7 milhões depois de um processo de reestruturação.
Isso não transforma a Multilaser em especialista em áudio profissional. Não estou dizendo isso. Mas tira do debate a hipótese mais preguiçosa: a de que estamos falando de uma empresa pequena, popular ou amadora demais para uma marca premium.
Não estamos.
E tem mais.
A DJI no Brasil é Grupo Multilaser. E isso muda a conversa
Pegue o seu controle de drone. Tire o último que você viu voando em casamento, evento, transmissão esportiva ou abertura de show. Provavelmente é DJI. Possivelmente foi comprado, homologado, entregue, garantido e assistido por uma operação que pertence ao Grupo Multilaser.
A Loja Oficial DJI Brasil é representação oficial do fabricante chinês no país e faz parte do Grupo Multilaser S.A. Procedência de fábrica, assistência técnica nacional, garantia, homologação Anatel.
Pergunta honesta: você já ouviu o mesmo tipo de ruído no mercado profissional de vídeo, fotografia ou produção por causa da representação local da DJI? Ou já viu cinegrafista jogar fora drone de R$ 30 mil porque a operação local não é considerada premium o suficiente?
Esse descompasso entre a percepção e a realidade é exatamente o que está em jogo agora com a Sennheiser.
Eu cheguei lá esperando uma coisa. Saí pensando outra.
Vou contar com franqueza porque a primeira pessoa importa aqui.
Entrei na visita ao Grupo Multilaser imaginando estrutura grande, capital, esteira de logística, talvez algum departamento dedicado a áudio profissional formado às pressas para a chegada da Sennheiser. Imaginava um esforço de marketing para convencer o mercado da nova fase.
Encontrei uma operação muito maior do que esperava, muito mais industrial do que esperava, muito mais B2B do que esperava, e — esse foi o desconforto — muito mais sofisticada do que o discurso público dela própria deixa transparecer.
Saí de lá pensando que a Multilaser tem um problema de marca que o nosso setor ajudou a construir e que ela mesma não corrigiu a tempo. A empresa cresceu e mudou de patamar antes da reputação dela acompanhar. Quando alguém de fora do varejo de massa olha para o nome “Multilaser”, ainda enxerga 2008. A empresa de 2026 é outra coisa.
E a parceria com a Sennheiser é, em alguma medida, a fatura desse descompasso chegando para a Multilaser pagar.
Porque agora ela vai precisar provar — não para mim, não para a imprensa, mas para o lojista de instrumento musical, para o integrador de AV, para o engenheiro de som, para o consultor de igreja, para o dono de produtora — que tem condição de operar uma marca técnica no padrão que essa marca técnica exige.
E aí o jogo deixa de ser sobre tamanho.

Fausto Scifoni e Daniel Reis, da Sennheiser: Grupo Multilaser amplia o crescimento da marca.
Estrutura, ela tem. E parte da equipe técnica, ela trouxe.
Áudio profissional não se vende como categoria de giro. Quem trabalha com Sennheiser sabe disso. Quem comprou Sennheiser sabe disso. Quem instalou Sennheiser em igreja, teatro, rádio, TV, corporação, estúdio ou palco sabe disso.
Sennheiser exige vendedor que entende RF. Exige conversa sobre compatibilidade, banda, antena, cápsula, monitoração, latência, ambiente acústico, reposição de bateria, peça de desgaste, capa de proteção. Exige treinamento contínuo. Exige estoque previsível, porque substituição de equipamento em operação ao vivo não pode esperar três semanas de importação. Exige assistência que atende antes do evento, não depois.
Distribuição premium não é colocar caixa de produto no Brasil. É proteger a confiança que faz alguém pagar três, quatro, dez vezes mais caro por uma marca em vez de comprar o similar genérico que existe ao lado.
E aqui é onde o argumento mais usado contra a parceria começa a perder força.
A primeira pergunta que todo lojista fez foi: “Vão jogar fora o time que entendia da marca e botar vendedor de mouse para falar de sistema sem fio?”
A resposta, pelo desenho anunciado da transição, é não. O Grupo Multi não absorveu a Sennheiser pela porta dos fundos do organograma. Criou uma unidade de negócio dedicada a áudio profissional para receber a operação. E mais importante: parte da equipe que já vinha operando a marca no Brasil foi incorporada ao novo arranjo. As pessoas que conheciam o produto, conheciam o canal, conheciam os clientes corporativos, conheciam os integradores, conheciam o instalador de igreja e o coordenador de broadcast — esse conhecimento não desapareceu na troca de distribuidor.
Isso muda a conversa.
Porque o medo legítimo do canal não era exatamente sobre tamanho. Era sobre cultura. Era sobre a possibilidade de uma marca técnica cair em uma operação que não entende a venda técnica. Esse risco diminui quando o conhecimento acumulado da marca permanece dentro da transição.
O que mudou para o profissional que falava com a Sennheiser Brasil foi o que está atrás da pessoa que atende o telefone: caixa maior, logística nacional, capacidade de estoque, importação consolidada, infraestrutura de assistência. Quem ligava continua precisando falar com quem entende. A diferença é que agora há um conglomerado de R$ 3,9 bilhões de receita sustentando o backend.
Esse é exatamente o tipo de movimento que o nosso setor pedia há vinte anos sem nunca conseguir: juntar o conhecimento técnico de uma operação especializada com o músculo financeiro e logístico de uma operação industrial grande.
A pergunta agora não é mais se a Multi vai entender a marca. A pergunta é se o Grupo Multi vai dar a essa equipe a autonomia, o orçamento, a previsibilidade e o respeito que ela precisa para operar Sennheiser do jeito que Sennheiser precisa ser operada no Brasil.
Se der, vira referência. Se transformar essa unidade em refém de meta trimestral de volume, frustra. Mas o risco mudou de natureza. Não é mais um risco simples de competência. É um risco de governança interna. E governança se observa no dia a dia, não na manchete da parceria.
A ironia que ninguém quer admitir
Tem uma coisa engraçada nessa história toda. Talvez incômoda.
Durante vinte anos o mercado de instrumentos musicais e áudio profissional brasileiro reclamou de distribuidor sem capital, sem estoque, sem estrutura, sem capacidade de importação consistente, sem assistência decente, sem previsibilidade de preço, sem fôlego para segurar marca em momento ruim de câmbio.
Reclamou com razão. Vi muita marca importante sumir do Brasil porque o distribuidor local não aguentou.
Agora chega uma empresa com capital, com fábrica, com logística nacional, com importação rodando, com B2B estruturado, com operação corporativa, com caixa para segurar estoque e com escala para dar capilaridade — que ainda por cima preservou parte do conhecimento técnico da operação anterior — e parte do setor continua torcendo o nariz porque essa empresa veio do varejo de massa.
Pode ser uma reação compreensível. Mas é, também, uma reação preguiçosa.
O fato de uma companhia ter construído escala vendendo produto popular não a impede de operar produto técnico — ainda mais quando ela não tentou reinventar a roda e sim manter conhecimento de quem já sabia rodá-la. O fato de uma marca ter sido lembrada por mouse não apaga a fábrica, a logística e os R$ 3,9 bilhões de receita. O fato de o Grupo Multi não ter nascido dentro do nosso mercado não significa que ele não possa aprender a respeitar as regras dele — especialmente quando trouxe para perto pessoas que conhecem essas regras de cor.
O teste começa agora. E quem vai aplicar a prova é o canal.
Esse texto não é defesa do Grupo Multi. Não preciso defender empresa de R$ 3,9 bilhões de receita. Ela se defende sozinha.
É um chamado para o canal olhar a empresa que está no jogo hoje, não a empresa que estava no jogo em 2010. E olhar a operação como ela foi montada — com unidade dedicada e preservação de conhecimento técnico da marca — não como o medo inicial imaginou que seria.
A Sennheiser não precisa de torcida. Tem 80 anos de marca, tecnologia e respeito profissional construído em palco, estúdio, broadcast e corporação no mundo inteiro. A escolha dela por um distribuidor master no Brasil passou pela leitura de quem tem capacidade real de operar a marca aqui dentro. Eles olharam o mercado, olharam as alternativas e tomaram a decisão deles.
O nosso papel não é validar essa decisão. É observá-la.
Cobrar estoque. Cobrar assistência. Cobrar treinamento. Cobrar política comercial. Cobrar respeito ao revendedor especializado. Cobrar a autonomia da unidade dedicada que recebeu a marca. Cobrar a continuidade do conhecimento técnico que migrou. Cobrar resposta antes do evento, não depois. Cobrar tudo o que se cobra de qualquer operação que se proponha a representar uma marca técnica no Brasil.
E cobrar a partir do presente. Não a partir da fotografia antiga.
Porque talvez a pergunta certa nem seja se a Sennheiser caiu na Multilaser.
Talvez a pergunta seja se o nosso mercado vai ter maturidade para olhar para a Multi como ela é hoje — uma operação que montou unidade própria e absorveu parte do time que entendia da marca — e julgá-la pelo que ela vai entregar, não pelo que ela já foi.
Eu cheguei lá com o mesmo preconceito que rolou no seu WhatsApp. Vou continuar acompanhando com a desconfiança técnica que qualquer distribuidor merece nesse setor. A diferença é que agora conheço o tamanho da empresa que vai precisar provar — e sei que ela manteve parte de quem já sabia o caminho.
E você, lojista, técnico, integrador, consultor de áudio que está lendo isso: o teste vai chegar no seu balcão. No seu projeto. No seu orçamento. No seu cliente.
A gente se fala daqui a seis meses.
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