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Score Rings: educador brasileiro leva pauta musical de chão à Music China
Aros modulares coloridos permitem escrever ritmo e melodia no piso e foram desenvolvidos com uma fabricante de Shenzhen.
Numa manhã de fevereiro de 2005, um aluno cruzou comigo no corredor da escola. Nossos olhos se encontraram por um instante. Ele desviou o olhar e seguiu em frente, como se eu fosse parte do mobiliário. Nenhum aceno, nenhum sorriso, nenhum sinal de que tínhamos passado um ano juntos.
Aquela indiferença doeu mais do que qualquer crítica. Também foi o retorno mais honesto que a docência já me deu.
Por três anos, acreditei que dava boas aulas. Na prática, eu não ensinava Educação Musical: ensinava flauta doce e teoria, como muitos colegas ainda fazem. Aquele aluno tinha passado do 5º para o 6º ano, segmento em que a música não existia mais na grade. O vínculo que eu julgava sólido evaporou junto com a disciplina.
Naquele dia fiz um pacto comigo mesmo: se eu não evoluísse, o mais ético seria mudar de profissão.
O que a Educação Física sabia
Comecei a observar a escola como quem procura pistas. Eu sentia inveja das aulas de Educação Física. Os alunos vibravam com o sinal da troca de aula, não porque a minha terminava, mas porque a deles começava. Enquanto bambolês, cordas e bolas coloridas tomavam o pátio, eu me perguntava o que aquele professor tinha que eu não tinha.
Fora da escola, mergulhei em congressos, workshops e formações. Num curso de educação musical inclusiva, ouvi que um ambiente mais concreto e o uso de materiais alternativos são ótimas estratégias de ensino. Liguei os pontos na hora. Se funciona para alunos com deficiência, por que não para todos? Se o corpo e os objetos ensinam tanto na Educação Física, por que não na música?
Passei a arriscar com bolas de frescobol, bambolês inteiriços de loja de R$ 1,99, aros e cordas. Os alunos estranharam no começo. Eu também. Mas algo mudava.
Entre 2006 e 2012, fui aluno de Kodály, Dalcroze, Willems, Orff (em São Paulo e Madri), Barbatuques e O Passo, de Lucas Ciavatta. Em 2009 veio uma constatação que reorganizou meu trabalho: caminhar é fazer o pulso com os pés. Somos bípedes e andamos em métrica regular. A pulsação não precisa de lápis batendo na mesa; ela já está no corpo, só precisa ser despertada.
As 40 horas semanais em duas escolas viraram laboratório. Dali saiu meu TCC na Licenciatura em Educação Musical da UFSCar, em 2013, “A Educação Musical Ativa como Perspectiva na Escola Regular do Ensino Fundamental”. Em 2010, enquanto supervisionava teoria musical no Projeto Guri Santa Marcelina, comecei a dar oficinas para professores nos fins de semana. Os convites de outras cidades vieram aos poucos, e em 2013 abri a Música e Movimento – Núcleo de Pesquisa e Formação em Educação Musical Ativa.
Cem bambolês não cabem num avião
No curso “Objetos da Infância”, a bola e o bambolê eram protagonistas. Com a bola, trabalhávamos pulsação, voz e jogos coletivos. Com o bambolê, criávamos percursos no chão que funcionavam como botões para sons, grupos e ritmos.
Em maio de 2012, a educadora Carmen Mettig Rocha, fundadora da APEMBA, me convidou para dar esse curso em Salvador, no mesmo evento em que eu tinha sido aluno em 2008. A logística quase derrubou o convite. A organização não encontrava bambolês para 80 a 100 participantes e pediu que eu levasse os meus. Como embarcar cem bambolês inteiriços num avião?
A resposta estava numa busca: bambolês modulares já existiam. O fabricante só vendia em lote mínimo, e eu investi as economias. Em setembro de 2012 desembarquei em Salvador com 600 segmentos, seis por aro.
Na sala, com o relógio correndo, comecei a montar os aros. Por pura pressa, parei de fechá-los e encaixei tudo numa única espiral gigante. Virou instalação. Em vez de receber aros prontos, cada participante tirava da espiral os próprios pedaços.
Aquela espiral me perseguiu por semanas. E se os aros não precisassem ser fechados? E se ficassem abertos, conectados como peças de montar, formando percursos, desenhos e montanhas-russas de notas no chão? O lote que me parecia exagero se esgotou em dois cursos. Com os alunos, passei a testar espirais para grave e agudo, correntes para performances e percursos rítmicos com três a oito segmentos por aro. Entre 2014 e 2015, para as crianças menores, fixei quatro segmentos por aro, em vermelho, amarelo, verde e azul, cada cor associada a uma figura rítmica.
Quando as cores viraram notas
Faltava uma peça. Ela apareceu em setembro de 2017, num curso em Volta Redonda (RJ): as cores não precisavam representar figuras rítmicas. Podiam representar as notas. E, com os segmentos soltos, o ritmo podia ser escrito diretamente no chão.
A partir de 2018, pedi ao fabricante as sete cores da escala, no mesmo padrão cromático dos tubos sonoros Boomwhackers, com os quais trabalho há anos: vermelho (Dó), laranja (Ré), amarelo (Mi), verde-claro (Fá), verde-escuro (Sol), roxo (Lá) e rosa (Si). Em 2019 acrescentei o branco para a pausa. Aros e tubos passaram a falar a mesma língua, e ritmo e melodia ganharam uma pauta que as crianças podem pisar, montar e desmontar.
O material ainda tinha limites. Os aros deslizavam, eram altos demais pelo formato cilíndrico, soltavam farpas de plástico e a curvatura só fechava bem com seis módulos, não com quatro. Desenhei um novo protótipo com base reta, encaixe tipo quebra-cabeça, pequenos pads antiderrapantes e acabamento mais limpo.
Da recusa europeia à fábrica em Shenzhen
Levei a ideia a fábricas no Brasil, em Portugal, na Espanha e na Itália. Todas disseram que era inviável. Quase desisti.
A virada veio por uma amiga chinesa, educadora, que me convidou para dar aulas no país. Mostrei o protótipo, e a Shenzhen BestSound Culture Communication Co. Ltd. topou desenvolver o molde e a produção em parceria. Em abril de 2025 o projeto virou plástico injetado, com o nome Score Rings.
Em outubro, volto à China para lançar os aros na Music China, em Xangai, a maior feira de instrumentos musicais da Ásia. Levo comigo a mesma pergunta que me fiz em 2005 no corredor da escola: o que faz um aluno lembrar de uma aula? Minha resposta, depois de vinte anos, é que ele lembra do que viveu com o corpo. Por isso a pauta foi parar no chão.
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Uirá Kuhlmann é educador musical, especialista em Orff-Schulwerk e diretor da Música e Movimento. É endorsee da Boomwhackers no Brasil e desenvolveu os Score Rings em parceria com a Shenzhen BestSound Culture Communication, tendo interesse comercial no produto. As opiniões são do autor.
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