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Music Business

Emilio Sagaz: quem paga a conta dos shows independentes?

Após prejuízos e apostas na bilheteria, produtor maranhense fala sobre patrocínio, remuneração das equipes e o trabalho de formar público para a música local.

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Emilio Sagaz, cantor, compositor e produtor cultural maranhense
8 min de leitura

Quem assume o prejuízo quando um show não atrai o público esperado? Para Emilio Sagaz, a resposta passa por uma divisão de riscos que ainda pesa sobre os produtores culturais. Depois de experiências em que a vontade de realizar falou mais alto que o orçamento, ele diz ter mudado de critério: hoje, só o entusiasmo não basta para colocar um festival de pé.

Produtor cultural, cantor e compositor, Emilio Sagaz nasceu em Pirapemas e cresceu em São Luís, no Maranhão. Criou e dirige o AfroSom, festival itinerante que reúne shows e oficinas em municípios maranhenses. Também é um dos idealizadores do Dente de Ouro, dedicado à obra de Papete.

Na entrevista conduzida por Martín Ramicone para a Música & Mercado, Sagaz explica como avalia a viabilidade de um evento, negocia com patrocinadores e trabalha para aproximar o público da música autoral. Ao relatar uma edição gratuita do Bloco da Filtro, diz que o evento reuniu 2 mil pessoas e contou com aporte financeiro para remunerar equipe e fornecedores.

Emilio Sagaz e o risco de produzir shows

O que o mercado musical do Maranhão já pode oferecer, mas ainda não consegue transformar em negócio? Onde está o principal entrave?

Emilio Sagaz — Temos ótimos artistas e profissionais da cadeia criativa. Porém, como estamos no Nordeste, os holofotes da indústria cultural estão longe daqui, o que dificulta que os olhares do mercado cheguem até nós. Além disso, a dificuldade de embalar de forma correta um “produto” também nos atrapalha na venda dos artistas.

Como você distingue um risco que vale assumir de uma conta que não fecha? Já contrariou os números iniciais de um projeto?

Sagaz — É complicado assumir produções de eventos culturais sem um aporte financeiro de patrocinadores ou apoiadores, pois o risco de prejuízo é grande. Em outros momentos, já me arrisquei, mas o resultado não foi interessante.

Tomei a decisão pela vontade de fazer acontecer. No entanto, hoje não atuo mais somente pela vontade e pela emoção, e sim pela razão e pelas possibilidades de produzir algo com estrutura digna para artistas e profissionais da economia criativa.

Na negociação de shows, quem absorve a maior parte do risco? O que você mudaria na relação entre artistas, produtores e espaços?

Sagaz — Claramente, os donos das casas de eventos absorvem a menor parte do risco, pois os produtores culturais fazem a linha de frente e arcam com possíveis prejuízos. Para mudar isso, é necessária uma cadeia autossustentável, que pode ser gerada por políticas públicas de difusão cultural.

Bilheteria, patrocínio e formação de público

O que sustenta a aposta em um artista que ainda não tem demanda consolidada? Como essa contratação ajuda a construir público?

Sagaz — Essa tomada de decisão cabe quando temos recursos financeiros disponíveis para dar suporte a esse tipo de escolha. Nesse caso, não há uma preocupação com lucro, mas um foco na formação de plateia, voltada para a qualidade, e não para a quantidade de público.

O Bloco da Filtro passou por formatos pagos e gratuitos. Como essa mudança afetou o evento e o planejamento das edições seguintes?

Sagaz — O formato pago foi por livre e espontânea pressão [risos], pois houve uma desistência por parte do possível patrocinador. Em decorrência disso, não sobrou outra escolha a não ser produzir o evento. Porém, tivemos um leve prejuízo, que cobrimos com as edições seguintes. Ainda assim, na edição paga, obtivemos um público interessante. Talvez, se tivéssemos mais tempo para divulgação, teríamos tido lucro.

Já no evento aberto ao público, atingimos a marca de 2 mil pessoas presentes no festival, o que fez toda a diferença. Nessa edição, tivemos aporte financeiro, o que foi interessante para movimentar a economia criativa e remunerar equipe e fornecedores de forma digna e correta. Além disso, conseguimos gerar renda de forma indireta para trabalhadores informais e colaboradores dos contratados diretamente.

As consequências nos trouxeram a confirmação de que é complicado investir do próprio bolso em eventos culturais, devido ao grande risco desse tipo de atividade.

Emilio Sagaz em retrato ao ar livre

O que Emilio Sagaz negocia com os patrocinadores

Onde o interesse das marcas encontra o projeto artístico? Como você negocia essa relação sem comprometer a identidade do evento?

Emilio Sagaz — Isso passa pela forma como você apresenta o projeto e suas contrapartidas. O patrocinador quer sua marca em evidência. É necessário ter um bom planejamento de marketing e uma estratégia interessante de exposição da empresa patrocinadora em relação ao evento, pois esse é o maior interesse de quem investe no projeto.

A negociação ocorre de forma transparente e com os pés no chão. Você promete o básico, mas com o intuito de entregar bem mais do que foi firmado em contrato. Assim, quando isso acontece, as chances de novas parcerias são grandes, com a apresentação de um relatório robusto e satisfatório para quem pagou pelo evento.

Desde o selo Orige, você trabalha para abrir espaço à música autoral. Como fazer o investimento em eventos deixar uma estrutura de trabalho entre as edições?

Sagaz — Resultados fazem um trabalho ficar forte e se consolidar com o tempo. Além disso, uma boa estrutura para o evento também conta muito na experiência do público, dos colaboradores, dos fornecedores e dos artistas envolvidos.

Quando os trabalhadores são bem remunerados, querem participar sempre. Da mesma forma, isso vale para artistas e colaboradores do projeto. A produção fica “bem falada” e, por isso, todo mundo quer trabalhar com você. Bons desempenhos atraem patrocinadores e pessoas interessantes para futuros projetos culturais.

Circulação no interior e lições dos prejuízos

O que a circulação do AfroSom pelo interior ensinou sobre demanda, custos e articulação local? Como construir um circuito que não dependa de ações pontuais?

Sagaz — Cada cidade tem sua peculiaridade em relação à produção cultural, o que influencia nas tomadas de decisão. Por isso, ter os parceiros certos para executar um projeto é ideal. Isso demanda estudo sobre o local e a logística de trabalho.

Para construir um circuito independente, é necessário criar um movimento autossustentável. Para isso acontecer, é importante trabalhar na base, formar plateia de qualidade e difundir a cultura local de cada cidade.

Que resultado de uma produção fez você rever sua leitura do mercado? Houve um projeto que contrariou suas expectativas?

Sagaz — Ao longo desses 17 anos de produção de eventos, o que nos faz rever conceitos e estratégias são os prejuízos financeiros e a não adesão do público à proposta. Isso aconteceu diversas vezes na minha trajetória como produtor cultural. Além disso, a falta de verba atrapalha muito a divulgação e a estrutura do projeto, o que influencia nos resultados.

O Super Pocket foi um projeto que contrariou minhas expectativas. Tínhamos bons nomes na programação, mas acabamos não atingindo um bom público. Por isso, o que mudou na forma de trabalhar foi a decisão de produzir festivais com verba suficiente para ter uma boa estrutura, pois isso se torna atraente ao público.

Investir na cultura para além do evento

Que práticas do mercado da música já deveriam ter sido revistas? O que precisa mudar no investimento, na contratação e na circulação?

Sagaz — É preciso difundir a cultura na sua base, e não somente produzir eventos, pois isso é apenas a parte superficial da cadeia produtiva cultural. Quando você trabalha a cultura na sua essência, os espectadores estão próximos dos artistas e de sua arte. O conhecimento e o envolvimento do público em relação à atração cultural fazem toda a diferença.

Para isso acontecer, é preciso investir em cursos, palestras, rodas de conversa, oficinas e outras formas de difundir a cultura de cada cidade. Só assim o público vai conhecer suas origens com profundidade e, a partir daí, se interessar pelas tradições que o rodeiam.

Na música, creio que saber se vender é um problema para os artistas em geral. Isso se deve muito à escassez de verbas para investir na própria arte. Também há falta de direcionamento e de equipe para tornar os músicos e seus trabalhos atraentes aos espectadores.

Em relação aos investidores e à indústria musical, falta acreditar mais e dar oportunidades a quem está fora do hype. É preciso ter mais coragem para realizar novas contratações, sem focar diretamente em números, mas na arte de cada profissional, como as gravadoras faziam antigamente, quando se buscava qualidade, e não quantidade.

Muitos artistas têm talento de sobra, mas há uma carência de oportunidades para torná-los grandes. Para isso, o mercado musical tem todas as habilidades e ferramentas.

Leia também outros conteúdos sobre Music Business na Música & Mercado.

Martín Ramicone
Autor: Martín Ramicone

Martín Ramicone é produtor musical argentino, radicado no Brasil desde 2013, e fundador da daChance Music, agência dedicada ao desenvolvimento artístico, management, booking e conexões internacionais. Com 26 anos de atuação na indústria da música, reúne experiência em produção de shows, gestão de carreiras e articulação de projetos culturais. Seu trabalho conecta artistas, produtores e instituições da América Latina e da Europa, promovendo intercâmbios, colaborações e oportunidades de circulação. Como curador e entrevistador, também contribui para o debate sobre os caminhos da música independente e as dinâmicas do mercado.

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