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Trends.Music transforma 11 anos de debates em uma agenda para o futuro da indústria musical
Principal congresso brasileiro de music business lança relatório de 163 páginas com diagnósticos sobre inteligência artificial, direitos autorais, shows e internacionalização. Documento aponta a falta de coordenação como um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do setor.
O mercado brasileiro da música cresceu, ganhou relevância internacional e multiplicou suas possibilidades de distribuição. Mas, entre os profissionais que operam essa indústria, uma avaliação incômoda começa a ganhar força: o setor avançou mais rapidamente em audiência e tecnologia do que em organização econômica.
Essa é uma das conclusões que atravessam o Relatório de Inteligência e Tendências do Mercado da Música 2026, produzido pela Trends.Music a partir dos debates realizados em sua 11ª edição, em São Paulo.
O documento representa também uma nova etapa na trajetória de um dos mais importantes encontros profissionais da indústria musical brasileira. Criada em 2016 por Luciana Pegorer, a Trends.Music tornou-se uma referência nacional para a discussão do music business, aproximando gravadoras, editoras, distribuidoras, gestores de direitos, produtores, artistas, empresas de tecnologia e representantes institucionais.
Agora, o congresso dá um passo adicional: transformar o conhecimento produzido durante os encontros em um registro permanente, com diagnósticos, análises e propostas capazes de orientar decisões para além dos dias de programação.
A mudança é significativa. Em uma indústria habituada a discutir tendências, o desafio passa a ser documentá-las, avaliar suas consequências e acompanhar o que efetivamente muda.
O que revelam os debates de 2026
O relatório reúne 14 sessões realizadas durante o congresso, sendo dez painéis abertos e quatro mesas executivas fechadas. O conteúdo foi sistematizado a partir de transcrições, análises temáticas e pesquisas complementares.
As mesas executivas seguiram a regra de Chatham House, preservando a possibilidade de utilização das informações sem identificação individual dos responsáveis pelas declarações.
O resultado é uma análise predominantemente qualitativa da indústria musical brasileira, organizada em torno de cinco questões fundamentais: a capacidade de gerar valor econômico, as mudanças tecnológicas, o comportamento das novas gerações, a sustentabilidade da música ao vivo e a internacionalização.
Há uma conclusão recorrente: o Brasil não enfrenta propriamente um problema de produção musical ou de falta de público. Suas maiores dificuldades aparecem na capacidade de organizar, financiar, proteger e comercializar os ativos produzidos por essa atividade.
1. O Brasil produz música, mas ainda precisa capturar melhor seu valor econômico
Uma das discussões mais importantes parte da diferença entre relevância cultural e resultado econômico.
O Brasil possui um grande mercado consumidor, uma produção musical diversificada e artistas com alcance internacional. Entretanto, transformar essa presença em receitas de exportação, propriedade intelectual, empregos qualificados e negócios de longo prazo ainda representa um desafio.
O relatório argumenta que a música precisa ser compreendida como cadeia produtiva, e não exclusivamente como atividade artística.
Isso envolve compositores, músicos, selos, editoras, distribuidores, estúdios, plataformas digitais, casas de espetáculo, fabricantes, fornecedores técnicos, gestores de direitos e uma ampla rede de serviços relacionados.
Entre as propostas está a construção de indicadores econômicos próprios para o setor, capazes de medir com maior precisão seu faturamento, empregos, exportações e contribuição à economia.
A ausência de informações consolidadas dificulta tanto o planejamento empresarial quanto a elaboração de políticas públicas.
Em outras palavras, conhecer efetivamente o tamanho e o funcionamento da indústria musical é uma condição para desenvolver seu potencial.
2. Inteligência artificial: produzir música ficou mais fácil; conquistar atenção, não
O crescimento da inteligência artificial generativa ocupa parte importante do relatório.
Um dos indicadores apresentados, com referência a informações divulgadas pela Deezer em abril de 2026, mostra que a plataforma recebia quase 75 mil faixas inteiramente geradas por IA diariamente, o equivalente a aproximadamente 44% dos novos envios naquele período.
O dado dimensiona uma mudança estrutural: a capacidade de produzir conteúdo musical está aumentando em velocidade muito superior à capacidade de consumo humano.
Nesse ambiente, a disputa econômica deixa de se concentrar apenas na produção e distribuição de músicas. A descoberta, a curadoria, a reputação e o relacionamento com o público adquirem importância crescente.
Os debates também mostram que não existe consenso sobre todas as respostas.
A identificação de conteúdo gerado por IA, por exemplo, divide opiniões entre profissionais que defendem maior transparência e aqueles que alertam para os riscos de discriminar criações que utilizam ferramentas tecnológicas legitimamente.
Há, entretanto, preocupações convergentes quanto à proteção da propriedade intelectual, ao uso de repertórios no treinamento de modelos e à necessidade de regras claras para licenciamento e remuneração.
Para artistas e empresas, a mensagem é relevante: aumentar a capacidade de produção não significa necessariamente aumentar a capacidade de gerar valor.
3. O mercado de shows tem um problema maior do que os cachês
O relatório dedica atenção especial à sustentabilidade da música ao vivo.
As discussões apontam uma combinação preocupante de aumento de custos, dificuldades logísticas, dependência de patrocínios e fragilidade dos circuitos de pequeno e médio porte.
O problema não está simplesmente na existência de cachês elevados. Está na capacidade de uma apresentação gerar receitas suficientes para sustentar sua operação.
Quando os custos deixam de guardar relação com a bilheteria e com o potencial real de cada mercado, cresce o risco econômico dos produtores.
Essa pressão pode afetar principalmente artistas em desenvolvimento e casas de espetáculo menores.
O documento chama a atenção para o enfraquecimento do chamado midstream, a camada intermediária da indústria que permite a artistas evoluir de pequenos espaços para circuitos profissionais mais amplos.
Sem essa infraestrutura, o mercado corre o risco de concentrar oportunidades em grandes nomes e eventos, reduzindo o espaço para a formação de novas carreiras.
Entre os caminhos discutidos estão mecanismos de apoio à circulação nacional, melhor organização de rotas, compartilhamento de infraestrutura e instrumentos de reinvestimento na cadeia.
A questão é particularmente relevante para um país de dimensões continentais, no qual transportar artistas, equipes e equipamentos pode determinar a viabilidade de uma turnê.
4. Streaming, comunidade e uma nova forma de medir o sucesso
Outra discussão atravessa diferentes capítulos do documento: a distância entre popularidade digital e sustentabilidade econômica.
Milhões de reproduções não garantem, isoladamente, capacidade de vender ingressos, construir uma comunidade ou sustentar uma carreira.
A análise aponta para a importância de desenvolver relacionamentos que não dependam exclusivamente dos algoritmos das plataformas.
Comunidades próprias, canais de comunicação direta, experiências presenciais, merchandising, assinaturas, sincronização audiovisual e licenciamento aparecem como componentes de estratégias de monetização mais diversificadas.
O conceito de superfã ganha destaque nesse contexto.
Mais do que ampliar indiscriminadamente o número de seguidores, artistas e empresas precisam compreender a profundidade do vínculo com seu público e sua capacidade de gerar relacionamentos duradouros.
É uma mudança de perspectiva que interessa não apenas à indústria fonográfica, mas também ao mercado de shows, serviços, tecnologia e produtos musicais.
5. A música brasileira precisa transformar influência cultural em exportação
A internacionalização aparece como uma das oportunidades de maior alcance econômico.
O documento discute a diferença entre possuir influência cultural internacional — o chamado soft power — e construir uma operação comercial capaz de capturar receitas em outros mercados.
A circulação espontânea de gêneros brasileiros, como o funk, demonstra que existe demanda internacional. Mas a expansão sustentável depende de contratos, gestão de direitos, parceiros locais, marketing, distribuição e planejamento.
Entre as possibilidades analisadas está a construção de uma ponte comercial entre Brasil e México, conectando empresas, artistas, agentes, editoras e plataformas.
O relatório também aborda experiências internacionais, especialmente de países que desenvolveram estruturas permanentes de apoio à exportação musical.
A proposta não é simplesmente financiar apresentações fora do país, mas criar condições para que a música brasileira desenvolva mercados internacionais de forma contínua.
De um encontro de executivos a uma plataforma de inteligência
A trajetória da Trends.Music ajuda a compreender a origem dessas discussões.
Quando Luciana Pegorer criou a Music Trends Brasil, em 2016, a indústria fonográfica atravessava uma transformação profunda. O streaming reorganizava modelos de negócio, o mercado independente buscava novas ferramentas e os profissionais precisavam compreender as consequências da digitalização.
Ex-executiva da Warner Music, Luciana havia construído uma carreira ligada à indústria fonográfica e à representação do setor independente, incluindo sua atuação na Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), na Merlin Network e em organizações internacionais.
Sua experiência em conferências internacionais evidenciou uma lacuna no Brasil: a ausência de um ambiente permanente no qual profissionais pudessem discutir problemas específicos da indústria com seus pares.
A iniciativa nasceu no Rio de Janeiro e ampliou sua presença ao longo dos anos, passando também por São Paulo e Campinas.
Em 2024, a edição carioca reuniu 1.250 participantes e 156 palestrantes, segundo números divulgados à época. Em 2025, a conferência chegou a Campinas com uma programação voltada à integração entre tecnologia, negócios e diferentes segmentos da música.
A relevância desse percurso não está apenas no crescimento do evento, mas na continuidade de uma proposta editorial.
Enquanto o mercado musical passou por sucessivas mudanças de tecnologia, distribuição, consumo e legislação, a Trends manteve um espaço de discussão profissional voltado às consequências dessas transformações.
A curadoria de Luciana Pegorer, acompanhada pelo trabalho de Marcelo Pera na direção de operações, contribuiu para reunir interlocutores com experiências e interesses distintos, mas envolvidos em questões comuns ao desenvolvimento da indústria.
A edição de 2026 aprofunda esse posicionamento ao assumir o formato de congresso e incorporar a produção anual de relatórios de inteligência.
Com isso, a conferência passa a oferecer não apenas encontros e atualização profissional, mas também um registro organizado das discussões que ajudam a interpretar o momento do mercado.
Cinco prioridades para 2027
A parte final do relatório propõe uma agenda de desenvolvimento estruturada em cinco frentes.
Segurança jurídica: ampliar a previsibilidade regulatória em temas como direitos autorais, tributação, inteligência artificial e investimentos.
Inteligência de mercado: construir indicadores confiáveis sobre atividade econômica, circulação, consumo, direitos e exportações.
Infraestrutura: fortalecer os mecanismos físicos, digitais e financeiros necessários ao funcionamento da cadeia produtiva.
Internacionalização: transformar a presença cultural brasileira em receitas, contratos, propriedade intelectual e empresas com atuação global.
Coordenação: reduzir a fragmentação institucional e estabelecer agendas comuns entre empresas, entidades representativas e poder público.
As propostas são ambiciosas e não representam políticas já aprovadas. Sua concretização dependerá de estudos, recursos, articulação e decisões dos agentes envolvidos.
Esse também será um teste importante para a iniciativa: transformar um conjunto de recomendações em referências que possam ser acompanhadas e avaliadas nas próximas edições.
Uma contribuição que ultrapassa os dias de congresso
O lançamento do relatório representa um avanço na forma como a Trends.Music organiza e compartilha o conhecimento produzido em seus encontros.
Seu valor não está em apresentar respostas definitivas para os problemas da indústria. Está em documentar discussões que normalmente permanecem dispersas entre empresas, eventos e grupos profissionais.
Para um setor economicamente relevante, mas ainda carente de informações integradas, essa sistematização pode ajudar a qualificar decisões empresariais e debates institucionais.
A próxima edição da Trends.Music está marcada para 22 e 23 de junho de 2027, no Novotel São Paulo Center Norte.
Até lá, o relatório de 2026 oferece uma fotografia das principais preocupações e oportunidades identificadas por profissionais que participam diretamente da indústria musical brasileira.
Depois de 11 anos promovendo encontros, a conferência amplia sua atuação para uma tarefa igualmente importante: registrar o que o mercado discute, organizar o conhecimento produzido e contribuir para que as próximas decisões sejam tomadas com mais informação.
O desafio, daqui para frente, será medir quanto dessa inteligência efetivamente se transforma em desenvolvimento para a música brasileira.
Acesse o Relatório de Inteligência e Tendências do Mercado da Música 2026: www.trendsbrasilconference.com.br/inteligencia
Site oficial da Trends.Music: www.trendsbrasilconference.com.br
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