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Music Business

Radar Latino: ticketing, IA e música mexicana movimentam os negócios

Ilustração da Redação Música & Mercado

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Radar Latino: negócios, tecnologia e novos movimentos na indústria da música
9 min de leitura

Ticketplus prepara novas aquisições na América Latina, editoras propõem regras para licenciamento de IA, Warner reforça operação mexicana e música latina amplia receitas nos Estados Unidos.

A passagem de setembro para outubro trouxe novos movimentos na estrutura do negócio da música. Na América Latina, o ticketing volta ao centro das atenções com a estratégia de expansão da Ticketplus, enquanto o México ganha mais peso na organização da Warner Music. No mercado global, editoras independentes tentam estabelecer parâmetros econômicos para o uso de composições por inteligência artificial, ao mesmo tempo em que a Suno começa a revelar como pretende transformar seus acordos com titulares de direitos em novos produtos.

Os movimentos têm uma característica em comum: não tratam apenas de crescimento de audiência. Envolvem controle de dados, expansão territorial, direitos, desenvolvimento de repertório e novas formas de monetização.

Ticketplus prepara novas aquisições na América Latina

Depois de adquirir a Autoentrada na Argentina, a Ticketplus começa a deixar mais clara a próxima etapa de sua expansão regional.

A companhia anunciou em 30 de setembro a contratação de Fernando Massú Taré como Lead Strategic Advisor para estratégia e governança na América Latina. Entre suas atribuições estão definição de prioridades para entrada em novos mercados, avaliação de aquisições e alianças estratégicas e orientação sobre alocação de capital.

O movimento ganha importância quando colocado em sequência. Em agosto, a Ticketplus realizou sua abertura de capital. Em setembro, comprou a argentina Autoentrada, sua primeira aquisição depois do IPO. Agora, estrutura uma estratégia que inclui novas operações de M&A.

A Ticketplus está presente em 11 países. Chile e Argentina são operações diretas, enquanto os outros nove mercados são atendidos principalmente por parceiros white-label. A tese apresentada pela companhia inclui transformar parte dessas relações em operações próprias e avançar também sobre negócios adjacentes ao ticketing, como pagamentos, business intelligence, precificação dinâmica e serviços financeiros.

O dado ajuda a dimensionar a operação: a plataforma processa mais de 10,2 milhões de ingressos por ano em 11 mercados.

Para o setor de entretenimento ao vivo latino-americano, a questão passa a ser onde ocorrerá o próximo movimento. A compra da Autoentrada mostrou que parceiros tecnológicos podem se transformar em ativos de aquisição.

Warner reforça estrutura para levar artistas mexicanos a outros mercados

A Warner Music Mexico promoveu Yusim Aladro ao cargo de General Manager. Ela havia ingressado na empresa no início de 2026 como diretora de marketing.

A mudança é mais relevante pelo mandato atribuído à executiva do que pela promoção em si. Aladro passa a comandar a estratégia e o desenvolvimento do repertório doméstico da Warner no México, aproximando A&R, marketing criativo e construção de marcas de artistas. A empresa afirma que um dos objetivos é acelerar a entrada de artistas mexicanos em mercados internacionais e ampliar o relacionamento com artistas, empresários e selos independentes.

A promoção acontece depois de uma sequência de reorganizações da Warner em torno da música mexicana. A Warner Chappell também reestruturou recentemente sua operação do gênero entre México e Estados Unidos, enquanto Alejandro Duque, que comandava a Warner Music Latin America, foi elevado a President, Warner Music International, mantendo a América Latina sob sua responsabilidade e acrescentando APAC e EMEA.

O contexto econômico ajuda a explicar essa movimentação. O México tornou-se em 2025 o décimo maior mercado mundial de música gravada, após crescimento anual de 13,3%. A América Latina, por sua vez, foi a região de maior crescimento no mundo, com avanço de 17,1%.

A Warner, portanto, não está apenas reorganizando cargos. Está construindo uma estrutura para transformar repertório mexicano em produto internacional.

Editoras querem definir quanto uma música deve valer nos acordos com IA

Enquanto gravadoras e empresas de inteligência artificial discutem treinamento e copyright nos tribunais, as editoras independentes estão tentando responder outra pergunta: quando houver licenciamento, quanto deve receber a composição?

IMPEL e IMPF apresentaram em 30 de setembro um conjunto de sete princípios para orientar o licenciamento de obras musicais por empresas de inteligência artificial generativa.

O principal ponto é econômico. As entidades defendem que, salvo fatores específicos que justifiquem outra divisão, a composição deve receber pelo menos o mesmo valor atribuído à gravação nos acordos envolvendo IA.

A proposta também busca separar as diferentes utilizações economicamente. Entre elas estão o uso anterior de repertório, treinamento dos modelos, geração de novos conteúdos e exploração futura dos resultados.

O IMPF representa mais de 300 editoras independentes internacionalmente. A intenção é que os princípios possam servir de referência para editoras, sociedades de gestão coletiva e outros licenciadores.

A discussão muda o foco do debate. Até agora, grande parte da disputa sobre IA musical concentrou-se em saber se empresas podem utilizar repertório protegido para treinamento. O novo problema é como distribuir a receita quando gravadoras, editoras e empresas de tecnologia começam a assinar acordos.

Para compositores e publishers latino-americanos, essa definição pode ser particularmente importante. Se a IA se transformar em uma nova fonte de licenciamento, composição e master disputarão participação econômica dentro de um mercado que ainda está sendo estruturado.

Suno quer transformar músicas licenciadas em matéria-prima para criação dos usuários

A Suno começou a explicar como pretende utilizar comercialmente os acordos assinados com titulares de direitos.

Em entrevista durante a conferência Bloomberg Screentime, o CEO Mikey Shulman afirmou que a empresa está “muito além” dos últimos números divulgados publicamente: 2 milhões de assinantes pagos e US$ 300 milhões em receita anual recorrente. Ele, porém, não apresentou novos números, portanto os valores anteriores continuam sendo a última referência quantitativa disponível.

A informação mais importante está no produto.

Ao explicar a lógica dos acordos da Suno com empresas como Warner Music Group e BMG, Shulman descreveu um sistema no qual consumidores poderão trabalhar sobre músicas de artistas licenciados para produzir remixes, covers, mashups e outras transformações.

A proposta é transformar a experiência de consumo musical de algo predominantemente passivo em uma relação de criação e interação com o repertório.

Isso pode criar uma nova categoria comercial entre streaming e criação musical. Em vez de apenas ouvir uma gravação ou gerar uma música completamente nova a partir de um prompt, o usuário passa a manipular legalmente repertório existente dentro de condições negociadas com seus titulares.

A Suno também ampliou nesta semana sua atuação para além da geração musical. A empresa colocou em beta o recurso Speech, que gera voz falada e trilha musical simultaneamente a partir de prompts ou roteiros. A ferramenta está disponível na web e em dispositivos móveis.

Isoladamente, Speech seria apenas mais um lançamento de software. Dentro da estratégia da companhia, entretanto, mostra uma expansão do produto: a Suno começa a disputar também aplicações de produção de áudio, locução e conteúdo, e não somente a geração de músicas.

Música latina cresce mais que o mercado fonográfico dos Estados Unidos

Os novos dados econômicos ajudam a explicar por que gravadoras e publishers estão reorganizando suas operações latino-americanas.

A receita da música latina gravada nos Estados Unidos atingiu US$ 542,2 milhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 8,6% em relação ao mesmo período anterior, segundo dados da RIAA divulgados no fim de setembro.

No mesmo período, o mercado norte-americano de música gravada como um todo avançou 6,9%. A participação da música latina subiu de 8,8% para 9,1% da receita total. Foi o 13º primeiro semestre consecutivo de crescimento para o segmento.

O streaming continua dominante, respondendo por 96% da receita, mas os números mais incomuns estão fora dele.

As assinaturas pagas cresceram 12,4%, para US$ 308,4 milhões. Já a receita de formatos físicos mais que triplicou, alcançando US$ 14 milhões. O vinil respondeu por US$ 13,7 milhões, avanço de 245,8% em relação ao ano anterior.

A sincronização também avançou: a receita proveniente de usos em cinema, televisão, publicidade, games e outras produções audiovisuais cresceu 104,2%, para US$ 3,3 milhões.

O ponto relevante não é apenas que a música latina continua crescendo nos Estados Unidos. A composição da receita começa a mostrar novas fontes de monetização além do streaming.

O movimento da semana: quem controla a próxima camada do negócio?

As notícias desta edição parecem pertencer a segmentos diferentes, mas apontam para uma mesma disputa.

A Ticketplus quer controlar uma parcela maior da relação entre evento, consumidor, pagamento e dados. A Warner aproxima A&R, marketing, desenvolvimento de artistas e expansão internacional. Editoras tentam estabelecer agora as regras econômicas para a IA antes que esse mercado alcance maior escala. E a Suno quer transformar músicas licenciadas em plataformas de interação e criação.

Em todos esses casos, a questão deixa de ser apenas quem vende mais música ou ingressos.

Passa a ser quem controla a infraestrutura, os direitos, os dados e a relação com o consumidor.

Para a América Latina, essa transformação acontece ao mesmo tempo em que os indicadores econômicos ampliam o interesse internacional pela região. Em 2025, a América Latina foi o mercado de música gravada de crescimento mais rápido do mundo, com alta de 17,1%, completando 16 anos consecutivos de expansão. Brasil e México já ocupam, respectivamente, a oitava e a décima posições entre os maiores mercados fonográficos globais.

Os próximos movimentos de aquisição, distribuição, licenciamento e investimento mostrarão quanto desse crescimento permanecerá sob controle de empresas regionais e quanto será incorporado às estruturas globais.

Redação M&M
Autor: Redação M&M

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