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A música volta a ser objeto: o que o mercado pode aprender com a retomada do físico
Vinil cresce, CDs voltam a avançar em alguns mercados e novos formatos combinam produto e conteúdo digital. Por trás dos números, surge uma questão para toda a indústria: depois de conquistar o acesso ilimitado, o consumidor parece disposto a pagar também por pertencimento.
Durante mais de duas décadas, a indústria da música perseguiu um objetivo bastante claro: tornar o acesso à música mais simples.
Conseguiu.
Hoje, uma assinatura mensal coloca milhões de gravações no bolso do consumidor. O streaming tornou-se o principal motor econômico da música gravada e, na América Latina, respondeu por 88,1% das receitas do setor em 2025.
Mas, paralelamente à expansão digital, outro movimento chama a atenção: consumidores continuam comprando objetos relacionados à música.
E não apenas por nostalgia.
Os formatos físicos voltaram a crescer globalmente em 2025. Segundo a IFPI, a receita aumentou 8%, enquanto o vinil avançou 13,7% e completou seu 19º ano consecutivo de crescimento.
Nos Estados Unidos, o vinil superou US$ 1 bilhão em faturamento em 2025. Foram 46,8 milhões de unidades, com alta de 7,9% sobre o ano anterior.
Mas um movimento de 2026 tornou a discussão ainda mais interessante.
O CD voltou a crescer — mas não necessariamente para ser ouvido
Dados da Luminate mostram que 16,3 milhões de CDs foram vendidos nos Estados Unidos durante o primeiro semestre de 2026, crescimento de 16% sobre o mesmo período do ano anterior.
Parte relevante desse desempenho veio do K-pop. Ainda assim, retirando esse segmento da conta, as vendas de CDs teriam crescido 6,7%.
Existe um detalhe ainda mais revelador.
Segundo a Luminate, aproximadamente metade dos consumidores da geração Z e millennials que compram CDs sequer possui um aparelho de CD.
Se o consumidor compra uma mídia que não consegue reproduzir, talvez o produto que ele esteja adquirindo não seja apenas a música.
É o objeto.
Quando acesso deixa de significar posse
O streaming resolveu uma necessidade funcional.
Quer ouvir um álbum?
Ele está disponível imediatamente.
Nesse cenário, comprar uma cópia física para simplesmente acessar as mesmas músicas parece pouco racional.
Mas consumo cultural nem sempre é puramente funcional.
Um disco pode representar memória, identidade, coleção, proximidade com um artista ou pertencimento a uma comunidade.
É justamente aí que a lógica muda.
A mídia física deixa de competir diretamente com o streaming.
Passa a complementar a experiência digital.
O K-pop transformou essa lógica em produto
Parte da indústria do K-pop compreendeu cedo que um álbum físico não precisava ser apenas um suporte para transportar música.
Photocards, photobooks, diferentes capas, versões colecionáveis e outros elementos transformaram lançamentos em produtos destinados aos fãs.
Os números da Luminate ajudam a dimensionar esse comportamento: 20% dos ouvintes de música nos Estados Unidos são classificados como superfãs por interagirem com artistas e música de cinco ou mais maneiras.
Gen Z e millennials representam, juntas, 63% dos superfãs definidos pelo nível de engajamento.
Ou seja, parte importante do público mais envolvido com música está justamente entre as gerações que cresceram no ambiente digital.
O próximo formato pode ser físico e digital ao mesmo tempo
A divisão entre produto físico e digital começa, inclusive, a ficar menos clara.
A Luminate anunciou uma nova categoria chamada Smart Media Albums, que começará a ser contabilizada em 2 de outubro nos Estados Unidos e Canadá.
São produtos físicos que utilizam tecnologias como QR Code ou NFC para liberar acesso a álbuns e experiências digitais por meio de aplicativos ou sites.
As vendas elegíveis também poderão entrar nos rankings oficiais da Billboard.
É um sinal relevante.
Depois do vinil, cassete, CD, download e streaming, talvez o próximo capítulo não seja outro formato de áudio.
Pode ser a combinação entre objeto + conteúdo + acesso + comunidade.
E o Brasil?
O contexto brasileiro merece uma leitura própria.
O mercado de música gravada faturou R$ 3,958 bilhões em 2025, crescimento de 14,1%, levando o país à oitava posição entre os maiores mercados fonográficos do mundo.
O digital respondeu por aproximadamente R$ 3,4 bilhões.
Portanto, não existe dúvida sobre qual é o principal motor do mercado brasileiro.
É o streaming.
Mas existe um pequeno movimento na direção oposta que merece atenção.
Embora ainda representem menos de 1% da receita total, as vendas físicas cresceram 25,6% em 2025, impulsionadas principalmente pelo vinil.
Não significa que o Brasil esteja abandonando o streaming.
Significa que digital e físico podem cumprir funções diferentes para o mesmo consumidor.
O que instrumentos musicais têm a ver com isso?
É aqui que a discussão interessa diretamente ao mercado de instrumentos, áudio e tecnologia musical.
O consumidor já consegue comprar praticamente qualquer equipamento pela internet.
Pode comparar preços.
Assistir a demonstrações.
Ler reviews.
Consultar especificações.
Perguntar para uma inteligência artificial qual interface, guitarra ou microfone atende melhor determinada aplicação.
Se eficiência e informação estão cada vez mais disponíveis digitalmente, qual é o papel do espaço físico?
Talvez a recuperação do objeto musical ofereça uma pista.
Experiência, descoberta, identidade e pertencimento continuam tendo valor.
Uma loja pode ser um lugar onde músicos experimentam equipamentos.
Onde acontecem clínicas.
Onde artistas encontram público.
Onde iniciantes aprendem.
Onde profissionais trocam informações.
Onde uma comunidade musical se encontra.
Isso não significa transformar lojas de instrumentos em lojas de discos.
Significa perceber que talvez exista valor comercial em algo que o e-commerce dificilmente coloca dentro de uma caixa.
Da venda de produtos para a cultura musical
Existe ainda uma oportunidade de ampliar a discussão sobre o mix comercial.
Merchandising, livros, edições especiais, acessórios, colecionáveis, eventos, workshops e produtos exclusivos podem fazer sentido em determinados estabelecimentos.
Não para todos.
Nem em qualquer mercado.
A questão estratégica é outra: uma loja de música precisa necessariamente monetizar apenas equipamentos?
Talvez a valorização do físico esteja mostrando que consumidores continuam dispostos a pagar por manifestações tangíveis de sua relação com a música.
O streaming venceu a batalha pelo acesso.
Agora, parte da indústria procura maneiras de monetizar algo muito mais difícil de digitalizar: o pertencimento.
BOX | Números para acompanhar
- +8% — crescimento global das receitas de formatos físicos em 2025.
- +13,7% — crescimento global do vinil.
- 19 anos — sequência de crescimento do vinil.
- +16% — crescimento das vendas de CDs nos EUA no primeiro semestre de 2026.
- 20% — proporção de ouvintes americanos classificados pela Luminate como superfãs.
- +25,6% — crescimento das vendas físicas no Brasil em 2025.
- R$ 3,958 bilhões — faturamento da música gravada brasileira em 2025.
Para o varejo
A pergunta talvez não seja se CD ou vinil voltarão a dominar o mercado.
Provavelmente não é essa a questão.
A pergunta mais útil é: se o consumidor continua buscando objetos, experiências e comunidades em torno da música, o que sua empresa pode oferecer além da transação?
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