Music Business
Além dos números: o que faz a Som Livre apostar em um artista
Nino Vilassa e Alan Rey explicam como equilibram dados, percepção artística e relações de confiança para descobrir talentos e construir carreiras de longo prazo.
8 min de leitura
O que faz uma gravadora enxergar potencial em um artista antes que os números confirmem esse interesse? Para Nino Vilassa e Alan Rey, da Som Livre, a resposta passa pela música, pela identidade do projeto e pela relação com o público — e exige olhar além dos indicadores digitais.
Nesta entrevista a Martín Ramicone, os profissionais falam sobre o trabalho de A&R, área de artistas e repertório, e os desafios de desenvolver carreiras. A conversa aborda o papel dos dados, a frequência de lançamentos, as parcerias com marcas, a expansão internacional e a inteligência artificial.
Descoberta de talentos: dados, escuta e percepção artística
Música & Mercado — 1. Nino e Alan, queria começar pela trajetória de vocês. O que levou cada um a trabalhar com A&R e quais experiências foram mais importantes para formar o olhar profissional que vocês têm hoje?
Alan: Minha aproximação com o A&R vem de experiências ao longo da minha trajetória profissional com produção e promoção de shows, festivais, curadoria musical e produção artística. Nos sete anos de Som Livre, ampliei esse olhar em Novos Negócios e relação com marcas, conectando artistas, música e parceiros. Essa combinação me trouxe aos projetos especiais e ao A&R, sempre aprendendo com os artistas, equipes e, principalmente, com os colegas de área.
Nino: Minha experiência no mercado musical e de entretenimento passa por esses 10 anos de atuação na Som Livre (5 como A&R), 7 anos de experiência em rádio (marketing, promoção e eventos) e trajetória na produção de shows. Ao longo da carreira, desenvolvi amplo conhecimento da indústria da música, relacionamento com artistas e profissionais do setor, além de experiência em planejamento, produção e execução de projetos, conectando música, comunicação e entretenimento.
Música & Mercado — 2. O mercado musical brasileiro passou por transformações profundas nos últimos anos. Quais mudanças mais alteraram a maneira como vocês trabalham e tomam decisões dentro do A&R?
Nino: Destacaria a diversidade dos caminhos pelos quais o público descobre a música e a velocidade com que esses movimentos acontecem. Isso exige acompanhar cada projeto de perto, entender seu contexto e combinar informação com percepção artística. O desafio é reconhecer oportunidades sem perder a perspectiva de construção de carreira.
Música & Mercado — 3. Hoje os profissionais têm acesso a uma quantidade enorme de dados sobre artistas e público. Na prática, como vocês equilibram esses números com a percepção artística na hora de avaliar um novo projeto?
Nino: Os dados ajudam a entender o que está acontecendo e a fazer perguntas melhores. A escuta, o palco, as relações e a conversa com o artista ajudam a enxergar possibilidades. Os dados captam apenas números; o olho no olho ainda continua sendo o diferencial. Procuro juntar essas perspectivas, experiências e, muitas vezes, a intuição na tomada de decisão.
“O olho no olho ainda continua sendo o diferencial.”
Nino Vilassa
Música & Mercado — 4. O chamado “faro” do A&R ainda tem espaço em um mercado cada vez mais orientado por dados? O que é possível perceber em um artista antes que os números confirmem esse potencial?
Nino: Acredito que sim. Às vezes, uma interpretação, uma composição ou a reação de um público pequeno chama atenção antes de ganhar escala. Esse primeiro interesse é um convite para acompanhar e conhecer melhor o artista, com curiosidade e sem antecipar certezas.
Música & Mercado — 5. Quando vocês conhecem um artista pela primeira vez, quais aspectos costumam observar além da música: identidade, repertório, narrativa, performance, relação com o público ou outros elementos?
Alan: Observo a identidade, a presença e a relação com o público. Também gosto de entender o que o artista quer expressar e como pensa o próprio caminho. Não precisa estar tudo pronto, mas é importante perceber personalidade e disposição para desenvolver o trabalho.
Da descoberta à construção de uma carreira
Música & Mercado — 6. Existe uma diferença importante entre descobrir um artista e desenvolver uma carreira. Quais são, hoje, os principais fatores necessários para transformar um projeto com potencial em uma carreira de longo prazo?
Nino: Repertório, identidade e uma equipe alinhada fazem muita diferença. Também é preciso transformar os aprendizados de cada lançamento em próximos passos. Uma carreira envolve continuidade, planejamento e capacidade de evoluir, inclusive nos momentos em que a resposta demora mais.
Música & Mercado — 7. Muitos artistas chegam às gravadoras depois de construir uma audiência de forma independente. O que vocês procuram nesses projetos e quais são os erros ou lacunas que aparecem com mais frequência nesse estágio?
Nino: Procuramos entender o que já funciona e onde podemos contribuir, respeitando o conhecimento que o artista construiu sobre seu público. Às vezes, o crescimento acontece mais rápido do que a estrutura consegue acompanhar. A parceria pode ajudar a organizar esse próximo momento e dar sustentação ao desenvolvimento da carreira.
Música & Mercado — 8. A relação entre artistas independentes e gravadoras também mudou, com diferentes modelos de distribuição, serviços, parcerias e contratos. Como a Som Livre vem se posicionando diante dessa transformação do mercado?
Nino: A proximidade com o artista e a compreensão de cada projeto são fundamentais. As necessidades variam conforme o momento da carreira, e os modelos de parceria precisam acompanhar essa realidade. Buscamos construir relações com objetivos claros, entendendo onde a Som Livre pode contribuir para o desenvolvimento de cada artista.
Música & Mercado — 9. As redes sociais passaram a ter um papel importante na construção de uma carreira. Até que ponto a capacidade de criar conteúdo e se comunicar diretamente com o público influencia a avaliação de um artista?
Alan: A comunicação influencia porque aproxima o público do universo do artista. Mas cada um tem sua maneira de se expressar. Procuro observar se existe uma conexão verdadeira com a música e uma linguagem que o artista consiga sustentar com naturalidade.
“Procuro observar se existe uma conexão verdadeira com a música e uma linguagem que o artista consiga sustentar com naturalidade.”
Alan Rey
Música & Mercado — 10. Ao mesmo tempo em que o mercado exige cada vez mais frequência de lançamentos, uma carreira artística precisa de identidade e consistência. Como encontrar esse equilíbrio?
Nino: A frequência precisa fazer sentido para o repertório e para o momento do artista. Também vale dar espaço para uma música encontrar seu público e explorar melhor suas possibilidades. O calendário funciona melhor quando ajuda a construir uma história reconhecível e considera os objetivos de longo prazo.
Novos negócios, expansão internacional e o futuro do A&R
Música & Mercado — 11. A carreira de um artista hoje pode envolver streaming, shows, festivais, marcas, sincronização e outros negócios. Como o A&R participa dessa construção mais ampla da carreira?
Alan: O A&R ajuda a conectar a visão artística às diferentes oportunidades da carreira. Minha experiência em Novos Negócios contribui bastante nesse sentido. Procuro aproximar pessoas e áreas que possam ampliar uma ideia, mantendo a coerência com o projeto.
Música & Mercado — 12. As marcas também passaram a buscar artistas para projetos que vão além da publicidade tradicional. O que vocês consideram importante para que uma parceria entre artista e marca seja relevante sem comprometer a identidade do projeto artístico?
Alan: A afinidade é o ponto de partida: a parceria precisa fazer sentido para o artista e para seu público. Depois, vem uma construção cuidadosa, com escuta e expectativas alinhadas. Quando o artista participa da ideia, a entrega tende a ganhar mais verdade.
Música & Mercado — 13. A música brasileira possui um mercado interno muito forte e diferentes artistas vêm buscando ampliar sua atuação em outros territórios. Quais são hoje as principais oportunidades e dificuldades para quem pretende construir uma carreira internacional?
Nino: O primeiro passo é entender onde já existe uma conexão com a música daquele artista. A partir daí, é preciso conhecer o território, encontrar parceiros e trabalhar com continuidade. Cada mercado tem suas particularidades, e transformar um interesse inicial em uma presença consistente exige planejamento e investimento.
Música & Mercado — 14. Pensando nos próximos anos, quais mudanças vocês acreditam que podem transformar novamente a descoberta, o desenvolvimento e a relação entre artistas e indústria?
Nino: A inteligência artificial e as ferramentas de criação e análise vão continuar mudando processos. Ao mesmo tempo, a curadoria e as relações de confiança ganham importância. Vai ser essencial usar essas possibilidades com critério, respeito à identidade dos artistas e atenção aos direitos envolvidos.
Música & Mercado — 15. Para fechar, uma questão mais pessoal: depois da experiência que vocês acumularam na indústria, o que vocês passaram a valorizar em um artista ou projeto musical que talvez não tivesse o mesmo peso no início da carreira?
Alan: Hoje valorizo ainda mais a clareza de intenção e a qualidade das relações. A maneira como artista e equipe conversam e atravessam dificuldades faz diferença. Também aprendi a respeitar o tempo de amadurecimento dos projetos e a ouvir melhor antes de concluir.
Nino: A música. No final, é sempre a música.
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