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A pergunta incômoda: As lojas de instrumentos ainda precisam ter tantos produtos em exposição?

Ilustração da Redação Música & Mercado

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A pergunta incômoda: As lojas de instrumentos ainda precisam ter tantos produtos em exposição?
5 min de leitura

O ecommerce permite mostrar milhares de referências sem mantê-las em estoque, mas instrumentos e áudio ainda têm algo difícil de digitalizar: a experiência de testar.

Durante décadas, uma boa loja de instrumentos era reconhecida quase imediatamente.

Paredes cheias de guitarras.

Teclados em várias alturas.

Amplificadores alinhados.

Pedais dentro de vitrines.

Baterias ocupando boa parte do salão.

A abundância de produtos comunicava uma ideia simples: aqui existe escolha.

Mas manter essa imagem custa dinheiro.

Cada guitarra pendurada representa capital. Cada teclado em exposição ocupa metros quadrados. Cada produto de demonstração sofre desgaste e pode acabar exigindo desconto.

Enquanto isso, o ecommerce permite exibir milhares de referências sem ter fisicamente nenhuma delas na loja.

Então surge uma pergunta incômoda: ainda é necessário ter tanto produto em exposição?

O argumento financeiro diz que não

Do ponto de vista do caixa, a resposta parece relativamente simples.

Menos estoque significa menos capital imobilizado.

Também significa menos espaço, menor risco de obsolescência e menor necessidade de liquidar produtos antigos.

Uma loja poderia mostrar alguns modelos-chave e vender o restante por catálogo, utilizando o estoque do distribuidor ou pedidos programados.

Para determinadas categorias, isso faz bastante sentido.

Poucos clientes precisam testar pessoalmente um cabo específico, um suporte, um acessório básico ou certas peças de reposição.

Mas quando chegamos a instrumentos, áudio e tecnologia criativa, a questão muda.

Existem produtos que o cliente quer experimentar

Duas guitarras do mesmo modelo podem parecer diferentes nas mãos.

Um pianista pode querer comparar ações.

Um produtor pode preferir ouvir dois pares de monitores.

Um guitarrista pode precisar sentir como um pedal responde à sua forma de tocar.

Uma foto, um vídeo e uma ficha técnica podem ajudar muito.

Mas não necessariamente substituem essa experiência.

Isso transforma o espaço físico em algo que o ecommerce ainda tem dificuldade para reproduzir: um lugar onde a incerteza diminui antes da compra.

Então mais exposição é sempre melhor?

Também não.

Uma parede com 80 guitarras pode impressionar.

Mas se 50 quase nunca vendem, talvez essa exposição esteja sendo financiada com capital demais.

A questão não deveria ser quantos produtos cabem na loja.

Deveria ser quais produtos merecem estar ali.

Alguns precisam de demonstração porque a experiência física muda a decisão de compra.

Outros precisam de exposição porque geram tráfego.

Outros funcionam como referência para vender diferentes faixas de preço.

E alguns simplesmente estão ali porque sempre estiveram.

Esse último grupo merece revisão.

A loja pode se tornar showroom de categorias, não do catálogo inteiro

Um modelo interessante é pensar a exposição por função.

Em vez de tentar mostrar tudo, a loja seleciona produtos que representam experiências diferentes.

Três perfis de guitarra.

Quatro tipos de monitores.

Diferentes categorias de interface.

Uma seleção de pedais capaz de representar conceitos distintos.

O catálogo digital completa o que não está fisicamente disponível.

Nesse modelo, a loja não tenta competir com a internet em quantidade.

Compete por curadoria e experiência.

Isso exige vendedores melhores

Aqui surge uma consequência importante.

Quanto menor a quantidade de produto em exposição, mais importante se torna a qualidade do vendedor.

Se existem 50 opções na parede, o cliente consegue percorrê-las sozinho.

Se existem oito cuidadosamente selecionadas, alguém precisa explicar por que essas oito representam alternativas diferentes e que outras possibilidades existem.

O vendedor deixa de ser apenas a pessoa que entrega o produto.

Passa a ser alguém capaz de traduzir necessidade em solução.

Isso pode aumentar a produtividade por metro quadrado.

Mas exige treinamento.

Menos produto também pode prejudicar a loja

Existe um limite.

Uma loja excessivamente vazia pode transmitir fragilidade.

O cliente pode interpretar pouca exposição como falta de estoque, ausência de variedade ou até dificuldades financeiras.

Além disso, a descoberta espontânea continua sendo parte importante do varejo musical.

Muitas compras acontecem porque alguém viu um pedal que não conhecia, tocou uma guitarra que não procurava ou ouviu um monitor enquanto esperava outra coisa.

Reduzir demais a exposição pode eliminar justamente esse comportamento.

O que deveria permanecer fisicamente na loja?

Uma boa pergunta para cada produto seria: o que ele acrescenta por estar aqui?

Se precisa de demonstração, comparação ou contato físico, provavelmente faz sentido.

Se gera tráfego, pode justificar o espaço.

Se ajuda a vender produtos complementares, também.

Se representa uma categoria estratégica, pode ser importante mesmo com giro mais baixo.

Mas se não vende, não demonstra nada, não atrai clientes e não ajuda outras vendas, talvez esteja ocupando espaço por razões históricas e não comerciais.

O futuro provavelmente será híbrido

A loja física não precisa reproduzir o catálogo inteiro.

Também não deveria se transformar apenas em um ponto de retirada de pedidos online.

O modelo mais interessante talvez esteja no meio.

Menos estoque irrelevante.

Mais produtos escolhidos para experimentar.

Informação digital dentro da loja.

Acesso rápido ao catálogo ampliado.

Integração com o estoque do distribuidor.

Vendedores capazes de orientar.

Espaços para demonstrações, conteúdo, clínicas ou pequenos eventos.

Nesse cenário, a loja deixa de medir sua força pela quantidade de produtos que consegue pendurar na parede.

Passa a medir pelo valor que consegue produzir com cada metro quadrado.

Por isso, a pergunta não é realmente se uma loja deveria ter menos produtos.

É: quais produtos justificam ocupar um dos espaços mais caros da empresa: a área de vendas?

Redação M&M
Autor: Redação M&M

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