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Fórum da Music China coloca marcas e distribuição no centro do debate

Brasil e África ganham voz em encontro com seis continentes sobre marcas, tecnologia e os caminhos do mercado musical.

daniel neves, Música & Mercado

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Público e palco do Fórum da Indústria da Music China, em Xangai
11 min de leitura

Fabricar um bom instrumento e colocá-lo à venda já não resolve toda a equação. Com o consumo pressionado e a tecnologia mudando a concorrência, ganhar espaço exige marcas reconhecidas, distribuição eficiente e serviços que aproximem o produto de quem toca. Esse desafio atravessou os debates do Fórum da Indústria da Music China 2026, realizado em 28 de outubro, em Xangai.

Realizado no Shanghai New International Expo Centre, o encontro teve como tema a inovação inteligente e o desenvolvimento integrado. Segundo o relato da organização, foi a primeira edição do fórum a reunir perspectivas de seis continentes: Ásia, Europa, América do Norte, América do Sul, África e Oceania.

Sete representantes de organizações e empresas internacionais discutiram o desempenho do setor, tecnologia, marcas, canais e cooperação. Entre eles, Daniel Neves, presidente da ANAFIMA, levou ao debate a transformação da distribuição brasileira e o desafio de converter capacidade industrial em reconhecimento de marca.

Sun Ruiyong, presidente da China Musical Instrument Association, na abertura do fórum.
Sun Ruiyong, presidente da China Musical Instrument Association, na abertura do fórum. Imagem: CMA.

Na abertura, Sun Ruiyong, presidente da China Musical Instrument Association, destacou que a indústria de instrumentos musicais reúne valores ligados à preservação cultural, à educação artística e à inovação tecnológica. Diante das mudanças na estrutura industrial global, defendeu o fortalecimento do intercâmbio e da cooperação para compartilhar recursos e combinar competências.

Segundo Sun, a associação chinesa pretende aprofundar o diálogo regular com entidades e empresas de outros países, utilizando a Music China como plataforma para estimular a cooperação e o desenvolvimento coordenado do setor.

Liu Yong, vice-presidente da associação chinesa, conduziu os debates.
Liu Yong, vice-presidente da associação chinesa, conduziu os debates. Imagem: CMA.

A moderação do fórum ficou a cargo de Liu Yong, vice-presidente da China Musical Instrument Association.

China: exportar volta a crescer, mas receita e lucro pressionam

Na palestra sobre inteligência digital, inovação e fortalecimento das bases da indústria de instrumentos musicais, Sun Ruiyong analisou os ajustes estruturais e as oportunidades do mercado chinês a partir de dados de 2025 e do período de janeiro a agosto de 2026.

Os dados apresentados no fórum mostram duas direções. Entre janeiro e agosto de 2026, a receita dos fabricantes chineses de instrumentos musicais de maior porte caiu na comparação anual, com redução mais acentuada dos lucros. Já as exportações cresceram ligeiramente, revertendo a trajetória de queda, enquanto a diversificação dos mercados externos apresentou sinais positivos.

A recuperação das vendas externas, portanto, convive com a pressão sobre a rentabilidade. Para Sun, o desafio envolve repensar a estrutura industrial e as fontes de crescimento do setor.

Sun Ruiyong apresentou o panorama e os desafios da indústria chinesa.
Sun Ruiyong apresentou o panorama e os desafios da indústria chinesa. Imagem: CMA.

Sun observou que, embora o setor continue pressionado, a mudança mais profunda está na reorganização da estrutura industrial e dos motores de crescimento. A fabricação tradicional enfrenta dificuldades relacionadas à demanda e aos custos, enquanto a inovação inteligente, a valorização cultural e a diversificação dos destinos de exportação abrem outras possibilidades.

Ao abordar o 15º Plano Quinquenal chinês, apontou quatro pilares para o desenvolvimento: ciência e tecnologia, sustentabilidade, abertura e formação de talentos. A proposta envolve acelerar a transformação digital e inteligente, a produção sustentável, a expansão internacional e a formação de profissionais com competências interdisciplinares. O objetivo é modernizar a cadeia produtiva, criar novas situações de consumo e fortalecer marcas próprias, avançando de uma vantagem baseada em escala para outra sustentada por marca e geração de valor.

Da fabricação de instrumentos à criação de experiências musicais, e da venda de equipamentos à construção de um ecossistema de produto, conteúdo e serviço, essa transformação vai além da produção: alcança o mercado, a educação e a presença da música na vida cotidiana.

Seis continentes, desafios diferentes para vender mais

Os representantes internacionais apresentaram diferentes faces da indústria de instrumentos musicais. Nos mercados maduros, a pressão sobre o consumo, as mudanças demográficas e a inovação tecnológica estão reorganizando a concorrência. Nos emergentes, ganham destaque a adequação dos produtos, a construção de canais e a estruturação dos serviços. Essas diferenças também ampliam as possibilidades de cooperação.

John Mlynczak, presidente e CEO da NAMM, participou por vídeo.
John Mlynczak, presidente e CEO da NAMM, participou por vídeo. Imagem: CMA.

NAMM: educação musical e diálogo entre China e Estados Unidos

Em uma mensagem por vídeo, John Mlynczak, presidente e CEO da NAMM, destacou a importância da China e dos Estados Unidos para a indústria mundial de instrumentos musicais e do aprofundamento do diálogo entre os dois mercados. A entidade também apresentou sua experiência em educação musical e apoio às pequenas e médias empresas, além do interesse em ampliar o intercâmbio setorial e a cooperação entre feiras dos dois países.

Daniel Neves, presidente da ANAFIMA, discutiu distribuição e construção de marcas no Brasil.
Daniel Neves, presidente da ANAFIMA, discutiu distribuição e construção de marcas no Brasil. Imagem: CMA.

Brasil: o caminho da fábrica até uma marca reconhecida

Daniel Neves, presidente da ANAFIMA, apresentou a palestra “Decifrando o Brasil: da fábrica à marca — a distribuição brasileira está mudando; onde está o valor?”. Ele destacou a relevância do país para o consumo de instrumentos musicais na América do Sul e os desafios particulares para marcas internacionais: o idioma português, a complexidade tributária, a dispersão dos canais e o hábito de comprar a prazo.

Neves observou que marcas chinesas vêm conquistando a confiança dos brasileiros em categorias como automóveis e celulares, mas que, nos instrumentos musicais e no áudio profissional, ainda são poucas as que têm forte reconhecimento entre os usuários finais. Para as empresas chinesas, o desafio vai além de exportar ao Brasil: envolve construir parcerias locais de distribuição, investir em marca e manter serviços contínuos para ampliar o valor de “fabricado na China” para “marca chinesa”.

Jake Connolly, da NAMM e da Connolly Music Company, apresentou a perspectiva dos Estados Unidos.
Jake Connolly, da NAMM e da Connolly Music Company, apresentou a perspectiva dos Estados Unidos. Imagem: CMA.

Estados Unidos: estabilização do mercado e mudanças no público

Jake Connolly, secretário da NAMM e CEO da Connolly Music Company, analisou o tamanho do mercado norte-americano, as tendências de consumo, a composição das vendas por produto e as mudanças nos canais de distribuição, com base no relatório global do mercado de instrumentos musicais de 2026.

Segundo Connolly, após um período de oscilações, o mercado dos Estados Unidos vem se estabilizando. A ampliação do acesso à educação musical e o crescimento do número de pessoas que tocam instrumentos continuam entre os principais motores do setor. Ao mesmo tempo, as mudanças demográficas e a inteligência artificial estão redesenhando o ambiente de negócios. Ele reconheceu os esforços da associação chinesa para ampliar a participação na prática musical, incluindo iniciativas como o Dia Internacional da Performance Instrumental, e defendeu o compartilhamento de informações, o alinhamento de padrões e a coordenação de atividades internacionais.

Emmah Opoka, fundadora da ABSL, apresentou as oportunidades e os desafios da Zâmbia.
Emmah Opoka, fundadora da ABSL, apresentou as oportunidades e os desafios da Zâmbia. Imagem: CMA.

Zâmbia: potencial musical exige produtos adequados à realidade local

Emmah Opoka, fundadora da ABSL, da Zâmbia, apresentou as condições dos mercados emergentes africanos e suas oportunidades de cooperação internacional. Segundo ela, o país reúne uma população jovem e espaço para ampliar o acesso digital, mas enfrenta limitações de fornecimento de energia, poder de compra e infraestrutura que afetam o uso de instrumentos musicais e equipamentos de áudio profissional.

Opoka ressaltou que o aumento da receita com música gravada não significa, necessariamente, uma expansão equivalente do mercado de instrumentos. As marcas internacionais precisam compreender as necessidades locais, oferecer produtos confiáveis, práticos e acessíveis e estabelecer relações duradouras com parceiros da região. Experiências de uso, orientação técnica e atendimento pós-venda ajudam a transformar o potencial do mercado em demanda efetiva.

Steven Greenall abordou tecnologia, consumo e concorrência na próxima década.
Steven Greenall abordou tecnologia, consumo e concorrência na próxima década. Imagem: CMA.

Reino Unido: IA pode mudar a escala da concorrência

Steven Greenall, representante da Music Industries Association (MIA), do Reino Unido, e ex-presidente da entidade, concentrou sua análise na próxima década. Para ele, demografia, poder de compra das famílias, comércio global, tecnologia digital, hábitos de compra e ciclos de vida dos produtos estão mudando o comportamento dos consumidores de instrumentos musicais.

Em sua avaliação, a inteligência artificial poderá ampliar a capacidade de inovação de equipes menores e alterar a dinâmica da concorrência. Greenall projetou que, até 2036, o mercado poderá se concentrar ainda mais em poucas empresas. Para manter a competitividade no longo prazo, as companhias precisarão desenvolver produtos e contribuir para a formação da próxima geração de músicos.

Alex Masso, da Australian Music Association, apresentou o cenário australiano.
Alex Masso, da Australian Music Association, apresentou o cenário australiano. Imagem: CMA.

Austrália: confiança do consumidor limita as compras

Alex Masso, diretor-executivo da Australian Music Association, utilizou dados de mercado para ilustrar as pressões sobre as operações em mercados maduros. Segundo sua apresentação, o varejo australiano de produtos musicais movimenta aproximadamente 1,17 bilhão de dólares australianos, com a demanda por importações concentrada principalmente nos estados de Nova Gales do Sul e Victoria.

Uma pesquisa citada por Masso indicou que 59,2% dos entrevistados consideravam a situação financeira de suas famílias pior do que no ano anterior, e 64,9% avaliavam que aquele não era um bom momento para compras de maior valor. Diante da baixa confiança do consumidor e da pressão sobre os custos das empresas, ele apresentou marcas australianas como Cole Clark, Maton e Ormsby para mostrar como a qualidade profissional e a diferenciação de produtos podem sustentar a competição.

A Sumber Jaya Musik apresentou a experiência da distribuição na Indonésia.
A Sumber Jaya Musik apresentou a experiência da distribuição na Indonésia. Imagem: CMA.

Indonésia: distribuição precisa entregar experiência e suporte

A distribuidora indonésia de instrumentos musicais Sumber Jaya Musik apresentou características de seu mercado relacionadas ao tamanho da população, à concorrência entre marcas e aos serviços oferecidos pelos canais. Com mais de 280 milhões de habitantes e uma cultura musical ativa, a Indonésia tem potencial de demanda que depende de uma rede eficiente de distribuição e atendimento para se converter em vendas.

Os diferentes públicos também procuram benefícios distintos: iniciantes valorizam orientação para começar; profissionais priorizam confiabilidade e facilidade de transporte; e criadores musicais se preocupam com sonoridade e compatibilidade entre equipamentos. Embora os canais digitais sejam uma porta de entrada importante para conhecer produtos, demonstrações presenciais, aconselhamento especializado e suporte pós-venda continuam influenciando a compra. A entrada de um produto no mercado, portanto, não garante sua chegada efetiva ao usuário: o papel dos canais locais se amplia para incluir experiências e serviços.

O que conecta esses mercados: marca, acesso e serviço

As contribuições dos sete convidados internacionais evidenciaram diferentes estágios de desenvolvimento e realidades operacionais. Dos ajustes no consumo e da inovação tecnológica nos mercados maduros à construção de marcas e canais e à adaptação de produtos nos emergentes, as experiências mostram que as diferenças entre regiões representam desafios competitivos e oportunidades de cooperação.

Para as empresas chinesas de instrumentos musicais que aceleram sua expansão internacional, capacidade industrial e tecnologia continuam importantes. Mas compreender culturas musicais, hábitos de consumo e necessidades locais é essencial para conectar a competitividade dos produtos à gestão de marca e aos serviços de distribuição.

Participantes do fórum da Music China reunidos em Xangai.
Participantes do fórum da Music China reunidos em Xangai. Imagem: CMA.

Da modernização industrial à expansão das marcas, os relatos do fórum apontam para uma exigência comum: conhecer o mercado de destino tão bem quanto o produto. Para fabricantes, distribuidores e lojistas, isso significa conectar qualidade, acesso à prática musical e atendimento ao longo da relação com o músico.

A cooperação internacional ganha utilidade nesse ponto: permite trocar informações, entender diferenças e construir parcerias que façam o instrumento chegar ao usuário — com orientação, suporte e razões para continuar tocando.

Fonte: China Musical Instrument Association (CMA), a partir do relato do Fórum da Indústria da Music China. Adaptação para o português: Música & Mercado.

Daniel Neves
Autor: Daniel Neves

Daniel Neves é presidente da ANAFIMA - Associação Nacional da Indústria da Música -, entidade que representa o setor de áudio e instrumentos musicais. Responsável pela feira Conecta+ Música e Mercado, ele ama o que faz e ama quem ama música.

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