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Diário de um músico – Parte 1: O começo

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Diário de um músico – Parte 1: O começo

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Quer conhecer como é a vida de um músico? Desde o começo até hoje, passando pelas dificuldades e dúvidas que todos os músicos passamos, vou contar aqui minha experiência.

Eu comecei minha jornada na música pelo amor à música, sem pretensão de celebridade, mas vontade de um dia ser ouvido, fazendo a música que tinha em meu coração.

Ao contrário dessa nova geração, a minha vivência sempre foi a de imersão no aprendizado do que me alimenta a emoção, enfim, que satisfaz a alma mesmo.

Creio que o maior conflito que temos, nós que somos nascidos antes da era da Internet, e os que nasceram depois, é a exorbitância da banalização das coisas, que vem do esforço na obtenção do conhecimento.

Sou da época do vinil e da fita K7, do inicio do VHS “caseiro”, dos programas Som Pop e Fábrica do Som na TV Cultura, do Super Special na TV Bandeirantes, do Realce na TV Gazeta, e muitas outras coisas que só vivenciando para entender, porque curiosamente, se o “underground” musical em geral não tinha espaço na mídia, “ele dava um jeito”, como se a música tivesse consciência, principalmente o Rock e o Jazz, sedutores pela transgressão de ambos, mesmo que opostos.

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Sou de uma época em que íamos semanalmente em lojas de discos para saber o que estava rolando de novidade.

Havia um interesse real em saber o que havia de novo na música, e a mídia tradicional, como sempre, só mostrava os “eleitos” da “panelinha”, então qualquer um que quisesse saber sobre, ouvir e adquirir música de qualidade, tinha que ir a uma loja de discos, especializada no estilo que admirasse, e lá comprava aquele vinil, com “cheiro de novo”, e ouvia a exaustão, digerindo aquele trabalho parte por parte, da capa, ficha técnica, aos créditos e agradecimentos.

O rádio e TV tinham forte influência em vendagem massiva, mas até a fita k7 demo de bandas iniciantes podiam ser achadas a quem acompanhava trabalhos alternativos, indo nos shows.

E como haviam shows! Um turbilhão cultural, em locais como Rainbow Bar, Woodstock (ambas a loja de discos e a danceteria, totalmente opostas, de donos diferentes, mas de importância pontual inenarrável), Aeroanta, Dama Xoc, Madame Satã, “Sanja”, Black Jack, e o número de locais e seus nomes, hoje de grande memória afetiva, são incontáveis.

Mas como fui inserido nisso tudo?

Como ouvinte de música, eu tinha o interesse pessoal imenso, mas houve sim um “marco zero” para querer ser músico.

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Há aquele costume das igrejas de bairro terem suas quermesses, e era comum todos darem uma passadinha por elas, comer um churrasco, tomar quentão e vinho quente, e conversar com as pessoas da vizinhança, e lá, na “paróquia da Vila Rosa” conheci um amigo que teve grande influência e impacto em minha iniciação musical, chamado Fernando Gramani Hipólide.

Nas quermesses era comum para arrecadar fundos para essas igrejas católicas, ter várias ações pagas, e uma delas era pedido de músicas, e conheci o Fernando porque ambos descobrimos que tinha um disco do Black Sabbath lá, e quando pedimos para tocar, descobrimos que só “tinham autorização” de tocar a faixa “Changes”, e OBVIAMENTE que isso gerou controversia, e acabamos descobrindo que tínhamos muito em comum, e ali nasceu uma amizade.

Ele me convidou para ir a sua casa no dia seguinte, pois tinha ensaio de sua banda, literalmente na garagem, como tantas outras, e lá tive a primeira experiência de ouvir em proximidade uma banda de rock.

Essa geração que se “inicia” pela Internet, não sabe o que é isso, esse contato com as coisas acontecendo ao seu redor, e depois dessa experiência, eu sabia que precisava aprender música como um todo, e guitarra em específico.

Já havia em meu íntimo uma vontade imensa de aprender, e muito antes, quando o Kiss veio ao Brasil, eu e meus amigos da rua “dublávamos” com guitarras de madeira cortada e bateria de latas de achocolatado o álbum “Creatures of the Night” do Kiss, mas entre ouvir e ouvir presenciando, há evidentes diferenças, por isso o ir a esse ensaio e muitos outros, do meu amigo, foi o que faltava para o estímulo de entrada nesse “universo”.

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Além disso, nessa época era comum se reunir com amigos para ouvir um álbum, ou vários, degustando várias vezes cada faixa, e momento de música, e eu tinha vários amigos com quem tinha esse hábito, o Rogério, o Fábio,  e obviamente o Fernando, com quem ouvi muita música, e assisti muitos filmes em VHS, e era uma época mágica.

O Fernando foi quem me apresentou aos bares de música ao vivo e casas de show da noite paulista que citei.

Foi também ele que me ensinou os primeiros acordes, e que levou eu e meu pai à fabrica de guitarras Fynch, no centro de São Paulo, onde meu pai encomendou para me presentear no aniversário de 13 anos uma guitarra modelo Explorer,  e que me lembro ainda hoje de receber no estojo, com cheiro de nova, e quando fui buscar, junto estava meu amigo Fernando, que testou ela, para ver se estava ok.

Eram tempos em que, no Brasil, para se adquirir palhetas era difícil, para se comprar cordas era difícil, tudo era mais caro em relação ao valor do dinheiro no Brasil, naquele momento histórico, que importações eram incomuns, e se alguém tinha uma Fender ou Gibson, a casa do cara virava uma espécie de “Meca” com pessoas indo ver a guitarra de perto, do tipo tocando a campainha e falando “É você que tem uma Fender de verdade?”

Curiosamente eu vivi exatamente o período da mudança, da transformação gradual e abertura de mercado, e a expansão do mesmo, mas estas são outras histórias…

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