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Opinião: A “arapuca inescapável” do streaming

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Opinião: A “arapuca inescapável” do streaming

7 min de leitura

Sempre se ouvem ditados populares que traduzem na simplicidade da fala o peso de duras verdades, muitas vezes expressadas com humor.

“NÃO EXISTE CAFÉ DE GRAÇA” é uma frase muito usada para descrever, no mundo dos negócios, benesses que aparentemente não têm custo, mas estão cobradas no valor do serviço,  ou nas consequências do mesmo.

A palavra-chave no “negócio da música” que é menos assumida como verdade é MONOPÓLIO.

Importadoras, marcas e até países o praticam no campo de instrumentos e acessórios, então, não tenhamos pudores de falar sobre isso, nem sobre cartéis e máfias não assumidas publicamente. E, dentre tantas, a música em si, como produto, bem como o músico, sempre estiveram à mercê do poderio dos “mecenas da vez” (na verdade, muito mais parasitas) e da mídia vigente na época. 

No passado longínquo, reis e toda a nobreza e clero religioso utilizaram-se da arte como um todo, e da música em específico, como ferramentas doutrinárias e de status social na manutenção de aparências e de opulência. 

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Os reis, nobres e pontífices, com o tempo foram substituídos, nessa nossa história aqui narrada, por empresários, gravadoras e mídias eletrônicas modernas em geral, e no quesito pagamento de direitos autorais e conexos, o sistema em si nunca favoreceu o artista, muito menos no caso do mercado da música, o músico. 

A exploração sempre correu à luz do dia, à céu aberto, aos olhos de todos, bem como o tal “jabaculê” ou “jabá”, apelido “carinhoso” da corrupção nos meios de comunicação no Brasil, onde para aparecer para o público, só pagando, e muito…

O mercado musical raramente se autocensurava e apenas pensava no lucro, com a oferta e procura comandando o showbiz, mas como afirmar sobre a realidade de oferta e procura se o processo de divulgação e exposição do artista era corrompido? Assim sendo, havia a indução ao consumo da obra de poucos, em detrimento do trabalho de muitos, por vezes reduzidos ao ostracismo.

Ao contrário das artes plásticas, em que injustiçados enlouquecidos pela dor como Van Gogh são “descobertos” após sua morte, na música popular moderna, na ausência de interesses e do registro facial da obra, tudo se perde antes de vir à tona.

Há os tais movimentos artístico-políticos, que conseguem segregar mais ainda o artista, mas da maneira mais brutal ainda, iniciando no meio, e não ao redor.

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Muitos ainda hoje colocam como início da “derrota” das grandes gravadoras a pirataria das obras, porém muitas delas pirateavam a si mesmas para evitar ter que pagar a parte do artista e os impostos, pelo aparecimento de meios de auditar com mais precisão a realidade das vendas e lucros gerais do mercado fonográfico.

E então, como num passe de mágica, com a popularização dos computadores de uso doméstico e da internet, surge o compartilhamento, em que os fãs simplesmente resolveram se apropriar das obras, disponibilizando-as entre si, primeiro pela “pirataria caseira” entre amigos, depois com o aparecimento de formatos de áudio compactados,”mais leves”, porém com menos qualidade, e plataformas como o Napster, que espalharam o MP3 pelo mundo todo e permitiram o acesso fácil a qualquer um para compartilhar música. Depois, com o compartilhamento de arquivos via Torrent, as “grandes e famigeradas gravadoras” pareciam em fase de extinção, certo? Não responda ainda…

NÃO EXISTE CAFÉ DE GRAÇA…

Mais à frente, serviços de áudio e vídeo on-line começaram, primeiro de forma tímida e depois massivamente, a ocupar o lugar da mídia tradicional, porque a internet foi ficando mais rápida, com acesso cada vez mais facilitado. Então, levantou-se a “bandeira” da liberdade, e de que qualquer um poderia atingir milhões de espectadores e assim “democratizar” a arte e a informação, chegando aos consumidores em potencial gratuitamente, livrando-se do poderio econômico de quem manipulava o mercado. Se você ingenuamente vivenciou isso, e caiu nessa, meus pêsames…

NÃO EXISTE CAFÉ DE GRAÇA…

A realidade de hoje? As gravadoras se adaptaram e criaram os “contratos 360°”, que veem no artista de grande porte o produto, e com isso passaram a ganhar percentuais em tudo, desde merchandising até shows que o artista fizer, já que o foco deixou de ser o lucro dos direitos e vendas da obra em si. Assim, na ausência de mídia física da obra, o autor nada sabe sobre sua abrangência em dados confiáveis, e as gravadoras continuam atuando com o poderio econômico,  por meio do mesmo “jabaculê”, só que modernizado, como exporei adiante.

Como todos se acostumaram com “não pagar” por música, o músico iniciante se vê à margem da profissionalização, já que “viver de música” vai se tornando cada dia mais difícil. E como esse recebimento gratuito de áudio e vídeo ao público em geral ocupa espaço nos dispositivos, a comodidade oferecida a seguir foi o armazenamento externo, de arquivos em serviços on-line, de fotos em redes sociais e de áudio e vídeo em streaming de redes sociais e plataformas. 

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Pronto, a conta do “CAFÉ DE GRAÇA” chegou…

Hoje as pessoas não revelam suas fotos ou guardam filmes gravados por elas, nem armazenam consigo na totalidade, postando em redes sociais ou guardando em nuvem, o que não deixa “material” o registro captado.

As mídias físicas estão quase desaparecendo, e os grandes executivos ganham com o streaming pago, ou de conteúdo gratuito em propagandas.

Plataformas ganham em anúncios milionários, exibidos em conteúdos produzidos gratuitamente por usuários, e no máximo pagam em material monetizado, centavos de dólar a cada quantidade absurda de views ou audições em streaming de música.

Playlists populares fraudam colocações de artistas em rankings, e isso se dá de forma PAGA, como era antigamente, o tal “jabaculê”.

Há também, com o advento do “politicamente  correto”, a censura de ideias, de expressividade, de personagens, de textos, a ponto de filmes e músicas serem retirados dos serviços de streaming se não estiverem de acordo com a agenda vigente.

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Aos poucos fomos abdicando de nossa liberdade em ter algo que queríamos para consumir o que nos for oferecido.

O Google já está dificultando buscas indexadas de “assuntos tidos como polêmicos e politicamente incorretos”, e tudo que estiver fora de uma agenda de interesses de uma classe dominante virou discurso de ódio, homofobia, xenofobia, racismo. Os rótulos são tantos que variam de acordo com a desculpa necessária. 

Jovens doutrinados vociferam como se filmes antigos os ofendessem pelo vocabulário, como se músicas os oprimissem, como se a língua falada tivesse que se adaptar aos desejos que expressam. Mas seguem uma agenda de “cancelar” todos que se opõem ao viés que pregam, sendo estes os reais opressores da verdadeira liberdade.

A virtualidade excessiva desvalorizou a música profissional e tirou a remuneração meritocrática de muitos.

O streaming banalizou a música, e além de criar ferramentas de difícil apuração de ganhos para os artistas, gerou meios de censurar obras e “cancelar” carreiras.

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Ou assumimos a postura de dar atenção ao que está ocorrendo realmente ou, quando for tarde demais, estaremos mergulhados no bovinismo cultural absoluto, se é que não é já um caminho sem volta.

A preguiça do ser humano o consome, e por vezes a comodidade o leva para gaiolas sem grades. Essas são as mais cruéis…

Por escolha, estamos eliminando nossa própria liberdade e, em troca de aplicativos de streaming com milhões de opções impostas, deixamos de lado o prazer zeloso da escolha…

Se você tem menos de 40 anos, talvez nunca tenha experimentado o prazer de adquirir um vinil, K7, VHS ou CD e DVD, apreciar a obra como um todo, sem pressa, e valorizar aquilo como algo de relevância.

Hoje jovens têm acesso a discografias inteiras, as armazenam e nem ouvem, e cada vez mais seguem a “modinha” da vez.

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Ter tudo sem adquirir nada é o resultado dessas tais inovações, que colocaram o homem a serviço das tecnologias, e não o oposto. Porém, as cartas desse jogo continuam sendo dadas por poucos.

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