Music Business
Brasil: potência musical em busca de liderança estrutural
O mercado da música nacional vive um momento histórico.
Pela primeira vez, somos o oitavo maior mercado musical do mundo, o que nos torna um dos principais polos da indústria fonográfica global. E os números comprovam essa força: enquanto o mercado mundial de música gravada movimentou US$ 31,7 bilhões em 2025, (crescimento de 6,4% vs ano anterior), o Brasil cresce 14,1% no mesmo período, alcançando R$ 3,958 bilhões em receitas. Trata-se de um desempenho que reflete não apenas a vitalidade econômica do setor, mas também a potência cultural de um país cuja diversidade musical sempre foi uma de suas maiores riquezas.
Esse protagonismo acontece em um momento de valorização crescente da identidade brasileira no cenário internacional. O chamado “Brasil Core” ganhou espaço na moda, na cultura, na publicidade e no entretenimento, impulsionando o interesse global por elementos genuinamente brasileiros. Na música, esse movimento se traduz na crescente exportação de ritmos, artistas e narrativas que refletem a pluralidade cultural do país.
Essa reflexão esteve presente nos debates do SXSW London, realizado entre os dias 1º e 6 de junho, que reuniu empreendedores, investidores, artistas e lideranças da economia criativa mundial. Um dos destaques da programação acompanhada pela delegação brasileira foi a participação do economista e pesquisador Will Page, referência internacional em economia da música e ex-chefe de pesquisas do Spotify.
Ao classificar o Brasil como um dos protagonistas da indústria fonográfica global, Page destacou características que tornam o mercado nacional singular: sua dimensão continental, a força do mercado interno e a diversidade regional que impulsiona o surgimento constante de novos gêneros e tendências. Ver o nosso país tão belamente representado em um evento desse porte, de forma estratégica enquanto mercado, é inspirador.
No entanto, apesar de toda essa relevância, o Brasil ainda enfrenta um paradoxo: Somos uma potência criativa e um dos maiores mercados consumidores de música do planeta, mas seguimos operando de forma fragmentada em muitos aspectos. Enquanto nossos artistas, ritmos e narrativas conquistam o mundo, ainda avançamos lentamente na construção de uma indústria capaz de produzir inteligência de mercado, articular interesses comuns e ocupar posições estratégicas nos debates que definirão o futuro do setor. O desafio brasileiro já não é provar sua relevância cultural. Os números e o mundo já reconhecem essa força. O desafio agora é transformar protagonismo criativo em liderança estrutural.
O impacto dessa falta de coordenação vai além da eficiência do setor. Em um momento em que temas como inteligência artificial, monetização digital, governança de dados, direitos autorais e novas formas de relacionamento com os fãs estão redefinindo a indústria global, a ausência de uma agenda mais articulada reduz a capacidade do mercado brasileiro de influenciar discussões estratégicas que afetarão diretamente seu futuro. Em outras palavras, participamos cada vez mais da economia global da música, mas ainda ocupamos menos espaço do que poderíamos nos fóruns onde suas regras estão sendo definidas.
Talvez o maior desafio da música brasileira não seja criativo, mas organizacional. Enquanto exportamos cultura, ainda encontramos dificuldades para produzir conhecimento sobre o próprio mercado, conectar os diferentes agentes da cadeia e construir agendas comuns de desenvolvimento. Falta inteligência de mercado, falta uso mais estruturado de dados e tecnologia e faltam incentivos consistentes para o surgimento de soluções que simplifiquem a vida dos artistas, ampliem a eficiência dos negócios e fortaleçam a relação com os fãs. Em muitos aspectos, seguimos crescendo apesar da falta de coordenação, e não graças a ela.
A boa notícia é que os primeiros movimentos nessa direção já começaram a acontecer. Nos últimos anos, vimos o fortalecimento de iniciativas voltadas à economia criativa, o aumento dos investimentos públicos em programas de internacionalização e desenvolvimento econômico e uma presença cada vez mais ativa da música em ambientes de inovação e empreendedorismo. No setor musical, o surgimento da MusicTech Brasil (primeira associação brasileira voltada às startups da música) é um dos sinais desse processo de amadurecimento. Mais do que o aparecimento de novas organizações, o que se observa é a formação gradual de um ecossistema disposto a construir soluções, produzir conhecimento e pensar o futuro da indústria de forma mais estratégica.
Mas criar novas soluções é apenas parte da equação. Para que elas gerem impacto real, é preciso que o mercado esteja disposto a incorporá-las às suas discussões estratégicas. Isso significa abrir espaço para novos agentes, valorizar a produção de conhecimento, estimular conexões entre diferentes setores e reconhecer que o futuro da indústria será construído não apenas por quem já ocupa posições consolidadas, mas também por quem está desenvolvendo as ferramentas, tecnologias e modelos de negócio que definirão sua próxima fase de crescimento. Dar espaço a esses atores não é apenas uma questão de renovação; é uma condição necessária para que o Brasil participe de forma mais ativa das transformações que estão redesenhando a música global.
Chegamos até aqui graças à força do nosso talento. A próxima etapa dependerá da nossa capacidade de transformar essa potência criativa em conhecimento, inovação e articulação estratégica. Se conseguir unir seu imenso patrimônio cultural à capacidade de construir o futuro da própria indústria, o Brasil terá condições não apenas de acompanhar as transformações da música global, mas de ajudar a liderá-las.
* Por Nathália Santos: fundadora da Paralelo.app e diretora de comunicação da MusicTech Brasil.
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