Audio Profissional
Da era digital à inteligência artificial: o que ainda define a música feita por pessoas?
Após décadas trabalhando em estúdios e acompanhando sucessivas mudanças tecnológicas, Mario Breuer analisa o impacto da IA, a busca pela perfeição técnica, a transformação da escuta e o que continua essencial na produção musical.
A indústria da música já atravessou mudanças de formato, a chegada da internet, a pirataria digital, a popularização dos home studios, o streaming e uma transformação profunda na maneira de produzir e consumir música. Agora, a inteligência artificial adiciona uma nova camada a essa trajetória.
Para o argentino Mario Breuer, que acompanha o universo da gravação e da produção musical há quase cinco décadas, algumas dessas mudanças foram estruturais. Outras alteraram principalmente as ferramentas. E, apesar da evolução tecnológica, certos princípios continuam praticamente intactos.
Nesta entrevista, ele fala sobre o impacto da era digital, a perda de determinadas práticas musicais, os limites da perfeição técnica, a mudança nos hábitos de escuta e o papel do produtor em um momento no qual algoritmos já conseguem participar de diversas etapas da criação.
Qual foi a transformação tecnológica que mais mudou a música até agora?
Eu colocaria dois grandes pontos nessa linha do tempo. O primeiro é a chegada da era digital, principalmente a partir da virada para os anos 2000, quando internet, downloads e pirataria provocaram uma transformação muito forte no negócio fonográfico.
Ao mesmo tempo, surgiu a possibilidade de ter um estúdio dentro de uma computadora por um custo muito menor. O home studio se popularizou e mudou completamente a maneira de produzir.
Depois houve uma evolução enorme. Aprendemos a trabalhar melhor nesse ambiente, os plugins melhoraram muito e o áudio digital passou a oferecer possibilidades extraordinárias.
Agora aparece a inteligência artificial. Ainda é difícil dizer até onde ela vai chegar. Já existem músicas geradas por IA que funcionam perfeitamente como música ambiente sem que muita gente perceba sua origem.
Não acredito, porém, que isso vá simplesmente substituir a música tocada. As pessoas continuarão indo a shows e criando vínculos com artistas. Ainda precisamos descobrir como as audiências vão reagir a tudo isso.
Com tanta tecnologia disponível, o que os músicos e produtores perderam pelo caminho?
A tecnologia tornou muito fácil compor, gravar, corrigir afinação e colocar tudo exatamente no tempo. E, justamente por ser tão fácil, em alguns casos deixamos de prestar atenção em coisas que antes eram fundamentais.
Perdeu-se um pouco da reunião entre músicos, do prazer de tocar juntos e de construir uma música com uma guitarra, uma melodia ou uma ideia antes de abrir o computador.
Também vejo uma perda de savoir-faire, de certa fineza musical. Mas isso não significa que a música atual seja ruim. Existe muita música excelente sendo produzida hoje.
Depois de um período que considero mais pobre musicalmente, começaram a aparecer músicos jovens que estudam muito, tocam muito bem e misturam linguagens como jazz, neo soul, música eletrônica e outras referências de maneira muito interessante.

A busca pela perfeição técnica pode retirar personalidade da música?
Pode. Existem discos que você escuta e tecnicamente soam incríveis. Tudo está perfeito. Mas, quando alguém pergunta se eu gostei, a resposta pode ser não.
A perfeição absoluta funciona muito bem na engenharia ou na arquitetura. Na arte, as pequenas imperfeições fazem parte da personalidade.
Quando tudo está perfeitamente alinhado, afinado e corrigido, existe o risco de a música perder identidade. Para mim, a perfeição excessiva pode ser até oposta ao bom gosto musical.
Também mudou a forma como ouvimos música?
Completamente. Durante muitos anos existia quase um ritual de ouvir um disco. Você reunia amigos, colocava o álbum, passava a capa de mão em mão e escutava uma, duas, três vezes. A atenção estava inteiramente na música.
Hoje predominam playlists e músicas individuais. Muitas pessoas escutam pelo telefone, pelos alto-falantes do computador ou até com apenas um lado do fone.
A forma de consumir música mudou radicalmente. A grande massa, de maneira geral, já não escuta com a mesma atenção ou nas mesmas condições em que escutávamos anteriormente.
O que significa ser produtor quando tantas decisões já podem ser automatizadas?
Eu tento trabalhar de uma maneira muito parecida com a forma como trabalhava nos anos 1980 e 1990.
Claro que utilizo tecnologia. Se alguém desafina um pouco, podemos usar uma ferramenta para corrigir. Mas continuo preferindo gravar a banda tocando junta sempre que possível.
Também me mantenho relativamente afastado da inteligência artificial dentro do meu trabalho. Eu testo, conheço as ferramentas e procuro me atualizar, mas não tenho interesse em entregar a elas a parte que justamente gosto de fazer.
Se eu quero criar alguma coisa, quero participar desse processo. Não quero simplesmente descrever algo e receber o resultado pronto.
Qual é a diferença entre uma IA acumular milhões de referências e um profissional desenvolver critério?
Experiência é a base do critério. Você acumula informação, vivências, sucessos e fracassos e, aos poucos, desenvolve uma forma de decidir.
De certa maneira, a inteligência artificial também trabalha acumulando referências. A diferença é que ela pode assumir múltiplos critérios, dependendo do que você pede.
Talvez o que estejamos subestimando não seja exatamente a inteligência artificial, mas as audiências.
A IA pode ser uma ferramenta maravilhosa se for utilizada como ferramenta. Mas, se o público decidir que prefere música gerada por IA à música criada e tocada por pessoas, será uma decisão das próprias audiências.
Por isso acredito que precisamos continuar evidenciando aquilo que torna a música humana diferente: músicos tocando juntos, performances ao vivo, dinâmica, interpretação e decisões que não precisam estar permanentemente corrigidas.
Depois de tantas revoluções tecnológicas, o que continua igual?
Uma coisa nunca mudou: o que soa bem não é simplesmente um microfone caro, uma grande console, um engenheiro famoso ou um estúdio sofisticado.
O que soa bem é uma boa música, muito bem arranjada e muito bem tocada.
Toda vez que termino um disco e penso que fizemos um grande trabalho, normalmente ele tem exatamente isso: boas músicas, bons arranjos e músicos tocando muito bem.
É isso que continua igual.
E espero que, no futuro, o trabalho feito por pessoas continue tendo valor. Que seja possível reconhecer que por trás daquela gravação houve gente de carne e osso tomando decisões, tocando, errando, acertando e construindo aquela música.
Agradecemos Mario Breuer e Martín Ramicone por enviar este material.
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