Entrevista com o luthier Vagner Benevenutti da Venutti Guitars

Entrevista com o luthier Vagner Benevenutti da Venutti Guitars

por 15/09/2021

Localizada em Camboriú, Santa Catarina, a Venutti Guitars vem se destacando no mercado brasileiro de violões custom shop, apresentando instrumentos com acabamento impecável, sonoridade única e tocabilidade confortável. Tudo é feito de maneira artesanal pelo luthier Vagner Benevenutti. 

Os violões fabricados pela empresa conquistaram os ouvidos atentos de músicos como Vitor Kley, Fábio Lima, Victor Pradella, dentre outros.

Conversamos com o luthier Benevenutti para conhecer melhor o trabalho desenvolvido por ele. No decorrer da entrevista ele contou sobre o surgimento de sua paixão pela luthieria, os caminhos que percorreu para se profissionalizar, madeiras, dificuldades presentes no cotidiano profissional e muito mais.

Quando surgiu sua paixão pela luthieria?

Por volta de 2010, quando eu tentei executar meu primeiro corpo de guitarra. Eu tinha uma guitarra com o acesso ruim nas casas mais agudas, então decidi fazer um corpo novo para solucionar esse problema. Ele foi feito em marupá. Ficou bom, mas fiz com ferramentas mais rudimentares (furadeira, serra tico-tico e um formão antigo que era do meu avô). Em razão disso, gastei quase duas semanas de trabalho. Tenho esse corpo guardado até hoje e me orgulho do trabalho que fiz.

Mais tarde fui conhecendo outras ferramentas, principalmente a tupia, que facilita muito na abertura das cavidades. 

Ainda não era luthier nessa época, trabalhava como professor de guitarra e violão. Com o tempo, decidi trabalhar apenas com a luthieria. É uma satisfação muito grande.

Você chegou a fazer algum curso específico para se aperfeiçoar ou aprendeu o ofício sozinho?

Aprendi sozinho a construir guitarras e violões. A ideia para fazer um violão surgiu porque queria fazer algumas experimentações, pois para sentir o som, não é preciso tantos acessórios, bastam as cordas puramente. Minha ideia era construir uma caixa, encaixar um braço, posicionar o cavalete, conseguir a afinação e pronto! Foi só um desafio que criei para mim, para você ter ideia, não tinha nem molde. Para falar a verdade, foi uma loucura!

Entretanto, no decorrer do tempo, comecei a analisar imagens que encontrava através de bastante pesquisa na internet. Obviamente, hoje é tudo muito mais fácil. Fazer as coisas intuitivamente estava sendo empolgante, até que comecei a achar projetos que ofereciam mais precisão em razão de aplicarem medidas utilizadas em instrumentos consagrados. 

Com o tempo, foram surgindo muitas dúvidas que eu não encontrava respostas facilmente. Foi quando em 2016 surgiu a oportunidade de participar do SP Guitar Show, evento em que tive a oportunidade de conhecer grandes mestres como o Robert O’Brien. Ele respondeu tudo e mais um pouco. Nessa época já tinha construído pelo menos uns dez violões, alguns ainda tenho oportunidade de vê-los, e como soam bem! Fico feliz.

Quais foram suas influências na profissão? Você admira algum luthier ou alguma marca específica? 

O primeiro trabalho de luthier que vi foi do luthier Castellis, que trabalha em Curitiba. À época, nem imaginava que seria um luthier, falando dele, tive o prazer de conhecê-lo ano passado. Poucos anos depois, quando já estava desenvolvendo algum projetos de guitarras para mim e cursando o conservatório da cidade de Itajaí, ainda sem nenhuma  pretensão de ser luthier (apenas hobby mesmo), pude conferir o trabalho sensacional do Lineu Bravo, que também tive o prazer de conhecer pessoalmente em 2019. Eles foram referências visuais importantes que sempre me fizeram, desde o início, levar muito a sério a luthieria.

Além de fabricar violões, você também fabrica instrumentos de corpo sólido?

Desde 2015 optei por fazer somente violões.

Em linhas gerais, quais são as principais características de um bom violão?

Precisa ser bem construído. Tudo começa pelo inteiror, falo de encaixes perfeitos, shape do braço, filetes bem encaixados, emendas, verniz bem aplicado (de preferência extrafino)… Afinação é um aspecto importantíssimo. São muitos detalhes, pois além da estética, o violão precisa soar bem, leve, com projeção e equilíbrio, um violão que respeite a sensibilidade do artista em suas interpretações. Além disso, uma boa regulagem também é fundamental, pois o instrumento precisa ser confortável para o artista desenvolver suas técnicas. Um instrumento impecável visualmente, mas com tocabilidade ruim, não causa uma boa impressão.

Falando sobre madeiras, quais são as que você mais gosta de utilizar em seus projetos?

Basicamente utilizo as mais conhecidas, como os jacarandás, o mogno, a imbuia, as sitkas, os abetos e o ébano. No início, cheguei a usar outras espécies, como a muiracatiara (conhecida também como guaribu-preto), o roxinho e o pinho- araucária. Tenho alguns kits guardados ainda, porém como no Brasil não se tem uma cultura forte de extrair madeira pensando na confecção de instrumentos, que esteja com o corte radial, por exemplo, fica difícil de repor os estoques.

Em se tratando de instrumentos acústicos, a maioria das madeiras que são utilizadas na confecção do tampo são de origem europeia ou da América do Norte (Canadá e EUA). Existem madeiras brasileiras que também podem ser utilizadas para esse fim sem comprometer a qualidade do instrumento?

Olha, não sou preconceituoso com madeiras. Por exemplo, já usei pinheiro araucária no tampo. Cedro-rosa também. Todos os meus clientes estão satisfeitos tanto pela originalidade quanto pela identidade sonora brasileira no tampo. O mogno é uma madeira mais densa e é bem comum, porém se você for comparar a qualidade sonora, cada uma tem sua identidade. Além disso, cada cliente busca um perfil no instrumento. Não acredito que comprometa a qualidade, mas é óbvio que as coníferas têm características especiais por serem leves e também em virtude da resistência mecânica que apresentam, possibilitando maior desempenho na projeção, mas muitos confundem que, por exemplo, apenas usando essas espécies você terá um bom violão. Existe todo um contexto na execução de um tampo para se ter resultados positivos, não é apenas a madeira.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelo luthier no Brasil?

Acho que existe um processo de amadurecimento e um tempo certo para tudo. As dificuldades estão presentes em todos os lugares, então nunca gastei minhas energias pensando nelas. É preciso ser decidido, caso contrário você não vai para frente. No meu caso, por exemplo, não tive dificuldades em adquirir ferramentas. Já os profissionais que estão no mercado há 20 ou 30 anos, eles tiveram um caminho mais difícil, tiveram que improvisar para resolver muitos problemas. Felizmente, hoje temos fabricantes nacionais de ferramentas específicas para luthieria. Entretanto, espero que surjam mais fornecedores de madeiras, tarraxas etc. Tenho certeza que isso um dia irá acontecer.

Alguma novidade no horizonte da Venutti Guitars para esta segunda metade de 2021?

Finalizar as encomendas. Se Deus quiser, torço para que o mercado continue bom para mim e para os meus colegas de trabalho. Gosto muito do que faço e sou muito feliz.

Maiores informações no site, Instagram e Facebook da Venutti Guitars.

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