Music Business
Ética no uso de vozes clonadas ou “deepfakes” na música
Direitos dos artistas, inovação tecnológica e o desafio da autenticidade no setor musical.
A tecnologia de clonagem de vozes e de geração de vocais por inteligência artificial está cada vez mais presente no universo musical. Softwares permitem imitar timbres, inflexões e estilos vocais de cantores, ou criar vozes totalmente novas a partir de poucos minutos de áudio.
Esse avanço abre possibilidades criativas, mas também levanta questões éticas e jurídicas significativas — especialmente quando a voz de um artista é utilizada sem consentimento ou quando o uso gera confusão sobre autoria. Neste artigo, analisamos o tema sob três perspectivas cruciais: o consentimento e os direitos do intérprete; a autenticidade e valor artístico; e os desdobramentos legais e regulatórios no Brasil e internacionalmente.
- Consentimento e direitos dos artistas
Um dos pilares éticos do uso de vozes clonadas na música é o consentimento informado. A voz humana é uma característica profundamente individual — um traço identitário que conecta o artista ao público. Portanto, quando uma voz é clonada ou alterada sem a autorização do titular, emergem riscos éticos e legais. Por exemplo:
- O direito de publicidade (“right of publicity”) protege a utilização comercial da voz, imagem ou nome de uma pessoa reconhecida.
- A tecnologia de clonagem vocal já foi utilizada em cenários fraudulentos: foi documentado que vozes falsas criadas por IA enganaram sistemas de segurança bancária.
- Há registro de que as leis de direitos autorais nem sempre acompanham o avanço da IA — por exemplo, o relatório da United States Copyright Office aponta lacunas quanto à proteção de vozes clonadas no setor musical.
Caso real
O single “Heart on My Sleeve” (2023) utilizou vozes produzidas por IA no estilo dos artistas Drake e The Weeknd. O uso culminou em ação pela gravadora Universal Music Group por suposta violação de direitos autorais.
Para respeitar os artistas e evitar exploração indevida, é fundamental que haja contratos específicos quando se utiliza voz clonada ou gerada por IA — com cláusulas que estabeleçam quem autoriza, em que contexto, e de que forma os ganhos e responsabilidades serão divididos.
- Autenticidade, valor artístico e impacto no público
Além dos direitos legais, há um debate ético maior: qual o valor da voz humana quando ela pode ser “clonada”? Será que o público percebe ou aceita essa substituição? E o que isso significa para o vínculo emocional entre cantor e ouvinte? Algumas considerações importantes:
- A autenticidade vocal influencia a percepção de “artista real” e “performance genuína”. Ferramentas de IA tendem a replicar estilos, mas podem falhar em capturar nuances emocionais ou contextuais que o intérprete humano traz.
- Há risco de diluição do valor artístico se vozes imitadas se tornarem comuns: obras produzidas em massa com vozes clonadas podem reduzir a distinção de “quem canta” e “quem foi ouvido”.
- Por outro lado, a tecnologia oferece oportunidades para experimentação — por exemplo, revive-se timbres de cantores falecidos (com autorização), ou criam-se colaborações “póstumas”. O problema ético aparece quando não há transparência sobre o uso de IA.
Caso real
O debate sobre “song covers” com vozes geradas por IA inclui a reflexão de comunidades online: “Não há como fazer cumprir qualquer lei que exija que o consentimento da pessoa imitada seja obtido antes que uma representação digital dela seja criada por inteligência artificial.”
Do ponto de vista jornalístico e de mercado, é importante que metais de credibilidade (por exemplo, selos, plataformas de streaming) indiquem quando uma voz foi gerada ou clonada por IA. A transparência preserva a relação de confiança com o ouvinte e evita erosão da arte vocal como diferencial competitivo.
- Panorama jurídico e regulatório
No âmbito do direito, o uso de vozes clonadas ou deepfakes na música atravessa múltiplas frentes: direitos autorais, direito de imagem/voz, contratos, licenciamento de IA. Alguns marcos relevantes:
- Um estudo apontou que o uso de tecnologias de clonagem vocal pode violar os direitos autorais tanto na fase de treinamento de IA (input) quanto na de produção de conteúdo (output).
- A lei americana do estado do Tennessee, chamada ELVIS Act (Ensuring Likeness, Image and Voice Security), é um dos primeiros marcos para proteger vozes clonadas sem autorização.
- Plataformas da música apontam que é necessário negociar licenças específicas para uso de vozes geradas por IA ou clonadas — sob pena de remoção ou sanções.
Panorama no Brasil e América Latina
Embora existam princípios gerais de direito autoral, direito de imagem e voz, a regulação específica sobre clonagem de voz por IA em música ainda está em formação. Revistas especializadas sugerem que o setor deve antecipar cláusulas contratuais que tratem de: autorização para IA, licenciamento da voz, divisão de receita, direito moral do artista, e indicação clara ao público.
Para o mercado latino-americano, inclusive o brasileiro, há urgência em:
- Adaptar contratos de gravação e edição para contemplar voz gerada por IA.
- Educar artistas, produtores e selos sobre riscos e obrigações.
- Acompanhar o desenvolvimento regulatório em outros países para aplicar boas práticas.
- Diretrizes para o uso ético na música
Com base nas análises acima, segue um conjunto de diretrizes práticas — úteis para profissionais da música, selos, produtores e jornalistas — para navegar de forma ética o uso de vozes clonadas ou deepfakes:
Obter consentimento claro e por escrito do titular da voz, especificando os usos permitidos (álbum, streaming, comercialização) e se será usada IA para modificá-la/cloná-la.
Transparência para o público: indicar nos créditos ou metadados quando a voz foi criada ou clonada por IA.
Negociar participação nos royalties, caso a voz clonada tenha caráter comercial.
Verificar licenciamento da tecnologia de IA: direito de uso, exclusividade, responsabilidades.
Preservar o valor artístico: evitar que substituições de intérpretes humanos por vozes clonadas erosionem a identidade do artista.
Atualizar contratos e políticas internas dos selos para considerar o cenário IA — inclusive cláusulas de “uso futuro” da voz.
Monitorar a jurisprudência e regulação: entender como leis locais e internacionais estão evoluindo.
Educar o público e a imprensa sobre o que é “voz clonada” — para evitar confusões e manter a confiança na produção musical.
O avanço das vozes clonadas e dos deepfakes abre uma nova fronteira na produção musical: por um lado, uma promessa de inovação; por outro, um conjunto de desafios éticos, artísticos e legais. Como aponta o site Kits.AI: “Uma das questões éticas mais fundamentais… é o consentimento. A voz é um dos atributos mais verdadeiramente únicos de um indivíduo.”
Para o setor musical — e para publicações especializadas como a Música & Mercado — torna-se fundamental não apenas acompanhar as inovações técnicas, mas também liderar o debate sobre como mantê-las alinhadas aos direitos dos artistas, à autenticidade da arte e à confiança do público. Em última instância, o sucesso dessas tecnologias dependerá da combinação entre criatividade, ética e clareza jurídica.
Music Business
Be Music lança plataforma e amplia atuação no mercado fonográfico
Empresa afirma ter gerado 3 bilhões de streams em quatro anos e passa a operar como hub de desenvolvimento de carreira, com foco em dados, tecnologia e mentorias gratuitas.
A Be Music anunciou o lançamento de sua própria plataforma e abriu uma nova fase de atuação no mercado fonográfico. Com mais de 800 artistas ativos e 3 bilhões de streams gerados em quatro anos, a empresa deixa de operar apenas como selo e passa a se posicionar como um hub de desenvolvimento de carreira artística.
Segundo a Be Music, a mudança busca enfrentar um problema recorrente do setor: artistas em fases diferentes da trajetória profissional ainda recebem soluções parecidas, sem considerar contexto, maturidade e objetivos de cada projeto. A proposta da nova plataforma é usar dados reais para orientar diagnósticos, análises preditivas e decisões estratégicas de carreira.
“A indústria da música ainda trabalha muito com modelos genéricos. A nossa proposta é olhar para cada artista de forma estratégica, considerando dados reais, momento de carreira e objetivos. Não faz sentido tratar projetos tão diferentes da mesma maneira”, afirmou Jéssica Pires, head de marketing da Be Music.
A plataforma também passa a organizar a gestão do catálogo fonográfico dos artistas, com a proposta de dar tratamento mais profissional aos lançamentos. A ideia, segundo a empresa, é transformar o repertório em ativo estratégico, e não apenas em entregas isoladas.
Outro ponto destacado pela Be Music é o modelo de negócio. A empresa afirma que optou por não cobrar taxa de entrada, prática comum no setor. De acordo com Caio Bertoni, CEO do Grupo Be, a estratégia busca reduzir barreiras para projetos em desenvolvimento e fortalecer uma relação de parceria de longo prazo com os artistas.
“Acreditamos que taxas de entrada muitas vezes criam barreiras artificiais e acabam afastando projetos promissores. Preferimos crescer junto com o artista, em um modelo baseado em parceria e desenvolvimento real de carreira”, disse Bertoni.
Segundo a empresa, a estrutura da plataforma acompanha o artista em diferentes estágios. Nas fases iniciais, o foco estará na organização de base, estruturação de catálogo e primeiras validações de mercado. Em etapas mais avançadas, o sistema passa a incorporar novas frentes de suporte estratégico.
Em casos específicos, alguns artistas poderão acessar modelos de co-gestão de carreira por meio da Be Talent, braço do grupo voltado a projetos com investimento e planejamento mais avançado. A empresa informa que esse acesso não será automático e dependerá de análise interna sobre potencial e alinhamento de objetivos.
Inserida no ecossistema do Grupo Be, a Be Music também amplia sua atuação para além da distribuição e da estratégia fonográfica. A empresa passa a incluir construção de narrativa, posicionamento e imagem artística como parte do desenvolvimento de carreira.
A nova plataforma ainda incorpora uma frente educacional por meio da Be Academy, iniciativa que oferecerá mentorias gratuitas, conteúdos formativos e acompanhamento estratégico dentro do próprio ambiente digital.
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Deezer reformula plataforma de parcerias e amplia atuação com Deezer for Business
Iniciativa conecta marcas a novas oportunidades com foco em tecnologia, catálogo e experiência musical.
A Deezer anunciou a reformulação de sua plataforma de parcerias, agora consolidada como Deezer for Business, uma solução voltada à criação de experiências musicais para marcas, com base em catálogo licenciado, tecnologia de streaming e serviços especializados.
A proposta busca ampliar a atuação da empresa no segmento B2B, oferecendo ferramentas para engajamento, fidelização e monetização por meio da música.
“Há mais de 15 anos, a Deezer ajuda marcas a se diferenciarem e a construírem relacionamentos significativos com os consumidores por meio do poder da música. Com o lançamento da Deezer for Business, damos o próximo passo nessa jornada, prontos para atender a qualquer necessidade e gerar impacto mensurável para nossos parceiros”, afirma Julien Delbourg, Chief Commercial Officer da Deezer.
Segundo a empresa, a nova estrutura foi desenvolvida para acelerar o crescimento e apoiar negócios a partir de cinco pilares estratégicos, que abrangem desde integração de serviços até soluções de publicidade e experiências físicas.
Entre as frentes estão a oferta de música como serviço, permitindo que empresas criem plataformas próprias de streaming, além de soluções para anunciantes e ambientes comerciais, com playlists editoriais e tecnologia personalizada.
“O Brasil é um dos mercados mais apaixonados por música do mundo. Isso cria uma oportunidade única para as marcas — não apenas de estarem presentes, mas de construírem conexões reais com as pessoas”, afirma Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina.
A plataforma também incorpora soluções de publicidade em áudio e integração com ecossistemas parceiros, além de ferramentas voltadas a profissionais que buscam ambientação sonora em espaços físicos.
Outro destaque é a tecnologia de detecção de músicas geradas por inteligência artificial, que permite identificar esse tipo de conteúdo e evitar sua inclusão em recomendações, além de oferecer suporte a organizações do setor para monitoramento e controle.
Com a iniciativa, a Deezer amplia sua estratégia de atuação junto a empresas, posicionando a música como ferramenta de diferenciação e relacionamento com consumidores.
Music Business
Laboratório de Música da Periferia lança álbum com jovens artistas de Belo Horizonte
Projeto reúne oito participantes e apresenta disco colaborativo com nove faixas.
O Laboratório de Música da Periferia lançou o álbum “Laboratório de Música da Periferia – Vol. 1”, resultado de um processo formativo e colaborativo realizado com jovens artistas de Belo Horizonte. O projeto foi viabilizado por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Alctel, e o disco está disponível nas plataformas digitais via ONErpm desde 27 de março.
A iniciativa selecionou oito artistas de diferentes regionais da cidade — Akin Zahin, DaVisão, Elaisa de Souza, Imane Rane, Lamartine, Lótus, Miuk e Nanda Cardoso — para participar de uma residência criativa ao longo do segundo semestre de 2025. O processo incluiu etapas de composição, produção musical, gravação, edição, mixagem e masterização, com acompanhamento de profissionais do mercado.
Segundo Hênrique Cardoso, produtor e idealizador do projeto, a proposta foi criar um ambiente de formação e experimentação voltado ao desenvolvimento artístico. “O projeto se destaca pelo caráter inovador de revelar, fortalecer e difundir a produção musical jovem e periférica, promovendo trocas, colaboração e qualificação artística em um modelo de residência criativa”, afirma.

O processo seletivo foi realizado por meio de inscrição online, com análise de perfil e trajetória dos candidatos, priorizando diversidade de gênero, raça e território. A participação foi gratuita e incluiu formação técnica, acompanhamento artístico e apoio financeiro para despesas de transporte.
Para Iasmine Amazonas, Head Global de Marketing Institucional da ONErpm, o projeto amplia o acesso à produção musical. “Com essa iniciativa, ampliamos o acesso e valorizamos vozes das periferias de Belo Horizonte”, afirma.
A coordenadora do projeto na ONErpm, Vitória Toledo, destaca o caráter coletivo da iniciativa. “O projeto envolve os participantes em todas as etapas de produção de um álbum, com resultado consolidado em um disco completo e apresentação ao vivo”, diz.
O lançamento foi acompanhado por um show realizado em 26 de março, com os participantes executando as faixas ao vivo, ao lado de uma banda base e artistas convidados.
O projeto integra ações voltadas à formação musical e circulação de novos talentos, com foco na produção independente e no fortalecimento da cena local.
Foto de: Iago Viana
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