Opinião: O medo diante do caos. Música e pandemia

Opinião: O medo diante do caos. Música e pandemia

por 28/08/2020

“O mundo nunca mais será o mesmo” é uma frase que tem se tornado mantra em todos os meios, já que a pandemia aí está, porém, além da questão de saúde, do impacto econômico e social, existem certos “esqueletos” no armário do mercado musical que já existiam, e apenas ficaram à mostra.

A música ao vivo de pequenas e médias apresentações já estava com falta de lugares para sua ocorrência, e já  havia um decrescendo, que na crise do vírus,  apenas chegou no zero que apontava anteriormente. 

A história de “lives” só funcionou para artistas de renome e destaque, que contam com patrocinadores pagantes de seus eventos, e custeiam a coisa toda, e mesmo assim, já está se esgotando enquanto meio, no que se banaliza…

Os pequenos, médios e alternativos que já estavam sem opções,  fazem as tais “lives” de graça, cuja remuneração em monetização dos sites é percentualmente ridícula.

Carreiras de décadas nada adiantam diante da geração que vive a “urgência dos segundos”, impacientes em ouvir e ávidos em falar.

Todos nos meios virtuais querem opinar fortemente sobre tudo, seja em fóruns e blogs, e nos Feeds das redes sociais, a busca por atenção comanda o nível da opinião.

Como não se tem uma busca pelo saber, o nivelar da mediocridade é há muito tempo, já antes da Pandemia,  fato consumado. 

Estamos vivendo o momento da concretização do Caos da impessoalidade,  impulsionado pela impossibilidade de abraços e apertos de mão,  de beijos no rosto e nas mãos,  de pessoas que já passavam mais tempo com o celular nas mãos,  e que nem mais praticavam isso. 

A doença expõe algumas outras síndromes,  que oscilam do mal do egoísmo ao câncer da inveja e maledicências. 

Quem está com vendas ocorrendo nos meios virtuais,  não percebe que elas ocorrem num primeiro momento , mas a crise financeira que se aproxima como uma Tsunami,  inevitavelmente chegará em todos os setores, já tendo “varrido” alguns de sua possibilidade.

Mais do que ficar se “reinventando”, há a necessidade de se compreender em dificuldade, ou em vias da mesma, e ao olhar para o lado, compreender que um nicho de mercado e seus setores, só sobrevivem em conjunto. 

Precisamos literalmente “salvar a vida” dos profissionais do entretenimento que “fazem a coisa acontecer” ou não sobrarão roadies, técnicos de iluminação ou engenheiros de som, pois nenhum trabalhador  da área se mantem sem sustento.

A parcialidade de raciocinar em torno do próprio umbigo paraliza ações que deveriam ser tomadas como um todo, por todos, e em todas as áreas do negócio da música. 

Ninguém sobreviverá mercadologicamente sozinho

Nem comento sobre a situação dos direitos autorais e dos aplicativos de música,  pois isso era uma arapuca anunciada desde a invenção do Napster, e hoje  propriedade intelectual é desrespeitada à vista de todos. 

Em todos meus textos sobre o assunto, acabo tendo que lembrar que  o que movimenta o mercado musical é a música,  e quem a faz é o músico,  e sem músico,  não há música,  sem música não há vendas de produtos relacionados e apresentações,  e nem estrutura de mercado.

Quem acha que softwares de loopings vão manter algum tipo mercado, não está raciocinando com os pés na realidade.

A vulgarização e banalização do talento,  do esforço e da qualidade, como se fosse um “faça agora de qualquer maneira”, ao invés de “faça direto e no tempo certo”, obviamente trouxeram o caos onde todos se acham capazes de realizar qualquer coisa antes de aprender.

A geração dos “5 segundos”, que não aprecia um álbum inteiro em sequência.

Se isso não mudar, como estimular alguém a estudar algo que exige esforço de décadas, e cujo resultado não se mede em remuneração,  mas em likes e views, muitos deles forjados?

Como vender uma palheta sequer se não houver motivo para usá-la? 

Confesso que eu desanimo mais diante da inércia dos músicos, do que com o descaso do público. 

Poucas são as pessoas leigas que tem consciência real do que é o mercado da música. 

Para a maioria, as notícias musicais abrangem a vida de artistas em tom de fofoca.