Este texto é um recorte de uma viagem que já dura mais de cinquenta anos.
Meu objetivo é mapear, de forma direta, os principais modos de uso do órgão Hammond no Brasil e, sobretudo, registrar o papel dos músicos que ajudaram a construir o que chamo de “som do órgão brasileiro”. No centro dessa história está Walter Wanderley.
O Hammond é um instrumento singular. Criado em 1935 por Laurens Hammond como alternativa aos órgãos de tubos, rapidamente encontrou espaço em igrejas e cinemas — práticas que moldaram suas primeiras técnicas e sonoridades. Já em 1937 havia representação comercial da marca no Brasil.
Ao observar sua trajetória na música popular do século 20, identifico pelo menos quatro grandes tradições de uso do Hammond.
A primeira ganhou projeção internacional com Ethel Smith, nos anos 1940, ao misturar a tradição do órgão de teatro (usado em salas de cinema, no tempo do cinema mudo) com repertório latino. Esse período ficou marcado pelo chamado “som antigo”, anterior à popularização da caixa Leslie.
No final dos anos 1940, a introdução da caixa Leslie mudou definitivamente a identidade do instrumento e consolidou o “som moderno”.
A segunda tradição surge nos anos 1950 com Jimmy Smith, que levou o Hammond ao centro do jazz e do blues. Seu estilo virtuoso redefiniu o órgão como instrumento solista e influenciou gerações no mundo inteiro.
No Brasil, nesse mesmo período, o Hammond ocupava o centro das boates e clubes, tocando boleros e sambas com músicos como Djalma Ferreira, Ed Lincoln, Waldir Calmon e outros. Mas logo ficou claro que aquelas sonoridades importadas não dialogavam adequadamente com o samba ou com a bossa nova.
É nesse ponto que surge a transformação mais profunda, a “terceira tradição”.
Walter Wanderley e o nascimento do “órgão brasileiro”
Egresso do acordeão, Walter Wanderley promoveu uma ruptura estética decisiva. Ele criou uma forma inédita de tocar ao transpor para o pedal de expressão a técnica do fole do acordeão.
Sua gravação de “Samba de Verão” (1966) é a mais famosa e representativa do que chamo de “som do órgão brasileiro”. Não foi apenas uma questão do uso de novos timbres. Seus contemporâneos – como Renato Mendes, Juarez Santana e René Faria Terra – adotaram diretamente seus modos de tocar e suas escolhas sonoras.
Foi uma mudança de paradigma: o órgão passou a ser usado a partir de outra linhagem da família dos teclados.
O Hammond no rock brasileiro
A quarta tradição se consolida no rock. Nos EUA e no Reino Unido, o Hammond substituiu o piano como teclado central das bandas a partir dos anos 1960, com nomes como Billy Preston, Jon Lord, Keith Emerson e Rick Wakeman.
No Brasil, o instrumento aparece desde a Jovem Guarda passando pelas bandas de rock progressivo e artistas da MPB dos anos 1970, com músicos como Arnaldo Baptista, Wagner Tiso, Flávio Venturini e, mais tarde, com Maurício de Barros, no Barão Vermelho. Diversamente ao que fez Walter Wanderley para o samba e a bossa, neste gênero, os usos do Hammond têm sido fiéis às referências internacionais.
Enquanto o uso do órgão no samba hoje soa mais datado para ouvidos contemporâneos, no rock ele permanece plenamente vivo como referência estética e sonora. (Cortar tudo)
Mais do que um instrumento
A história do Hammond no Brasil não é apenas a história de um teclado importado. É a história da construção de uma linguagem própria, sobretudo a partir da síntese criada por Walter Wanderley.
O “órgão brasileiro” não nasceu de uma cópia: nasceu de uma reinvenção.
Autor: Felipe Radicetti. Site oficial: www.feliperadicetti.com