Teste de guitarras: O gênesis da semiacústica por 10/02/2020

Neste review de guitarras semiacústicas foram testados cinco modelos diferentes de marcas brasileiras e estrangeiras. Confira.

Sempre com o objetivo de aumentar o volume da guitarra quando tocada junto com outros instrumentos – como alguns guitarristas até hoje insistem – luthiers e marcas começaram a tentar instalar captadores eficientes no instrumento.

Em 1936, a Gibson, tradicionalmente famosa pela sua série de guitarras deste modelo, lançou sua série ES-150s, a Electric Spanish Series, apontada como a pioneira entre as semiacústicas.

A ES-150 foi seguida pela ES-250 e em 1949 foram lançados os modelos ES-175 e ES-5, incorporando as características da semiacústica dos anos 1930 com as das guitarras de corpo sólido modernas. O tipo de construção escolhido foi o arch-top, que curvava as madeiras dos tampos dianteiro e traseiro, enquanto as guitarras de corpo maciço obviamente tinham estas partes planas. A patente do arch-top é de Orville Gibson registrada em 1898 para um bandolim.

Aqui a história do arch-top se confunde com a da Lyon & Healy, uma parceria de George Washburn Lyon e Patrick J. Healy iniciada em 1864, que em 1888 lançou banjos, bandolins e guitarras usando a marca Washburn. Não se pode afirmar que a Washburn precedeu a Gibson na construção de semiacústicas, pois a empresa também fazia reparos e melhoramentos de instrumentos, além de construir outros para os dealers, além de terceirizar construções.

Seja como for, a Washburn mantém desde seu catálogo de 1892 – que anunciava 100 mil unidades vendidas anualmente – modelos de semiacústica e acústica, como as atuais HB35 e J600. Entre as semiacústicas existem as construídas com um bloco de madeira maciça central, denominadas por isso de center block, que visam amenizar os problemas de feedback causados pelas aberturas em forma de “F”, o que também é uma característica das semiacústicas.

AS GUITARRAS

Para os testes, contei com a colaboração de outros três guitarristas, Alexandre Ivo de São Paulo, que testou sozinho a Epiphone 339, Ederson Riedel, de Porto Alegre, que testou a HB17, e James Liberato, de Porto Alegre, que participou dos testes com sua Condor JC-502, além de eu próprio, que também testei as Washburn HB35 e HB17 e a Michael Jazz Action GM115N. Um teste a 4 mãos.

WASHBURN HB-35

 

 

O modelo testado foi uma HB35NK, com acabamento natural realçando o Flame Maple do arch-top da frente. As laterais e fundo também são em Maple laminado, e aqui entramos na polêmica do uso de madeira maciça ou laminada. Além de serem mais baratas, as semiacústicas de madeira laminada são piores do que as de madeira maciça? Sim e não:

As madeiras maciças têm maior ressonância acústica, podem até melhorar com a sua “idade” – ou seja, com o tempo de uso – mas são mais afetadas por humidade e temperatura. Então a durabilidade das maciças as colocam em primeiro lugar, mesmo que sejam usadas apenas no arch-top da frente (top).

Já as madeiras laminadas são fabricadas, não apenas “cortadas” de pedaços de árvores, e outras coisas devem ser consideradas, como até mesmo a cola com que se juntam as lâminas. Uma guitarra de madeira laminada bem fabricada pode ser tão boa quanto uma de madeira maciça, se bem construída.

Convivi por algum tempo com um luthier paulistano – o Tico – que montou sua oficina em uma escola de Santo André/SP, e nas horas vagas acompanhei a construção de vários instrumentos. Coincidentemente, mantinha uma amizade com o gerente de vendas para a América do Sul da Washburn, Dee Tatum, que enviou alguns modelos para a escola.

A comparação foi muito didática, e faz parte da minha modesta formação guitarrística. A Taylor, afamada marca, realizou um teste construindo uma guitarra com madeira de pallets usando a perícia de seus luthiers, e muita gente “especialista” se enganou citando madeiras nobres… O que mostra que, além da madeira, é importante como lidar com ela.

A HB-35 foi fabricada na China, assim como muitas outras marcas que, em alguns casos como os de equipamentos eletrônicos, usam a mesma linha de montagem. Não sei como é gerenciada a produção da Washburn lá, mas a qualidade sempre me pareceu ser um guia para toda a sua linha de instrumentos.

Isso explica as tarrachas Grover usadas, e outros cuidados, como a escala em Rosewood com inlays de bom gosto, a qualidade dos dual humbuckers, seus knobs de volume e tonalidade e chave de 3 posições. Me parece a única semiacústica de sua faixa de preço que não precisa de trocar peças para soar como semiacústicas mais caras.

O hardware da guitarra é completado com ponte Tune-O-Matic. A tocabilidade agrada pelo  shape do braço em V, e os trastes médios, que possibilitam o uso de encordoamentos atípicos para uma semiacústica, como o 0.10 por exemplo. Mas obtive melhores resultados com encordoamento 0.11/0.49 com a corda sol revestida, padrão.

Quanto à captação, com um bom contraste entre o humbucker da ponte, aberto, e o do braço, fechado, funcionam melhor juntos, o que não impede que palhetar seja mais interessante mais perto do braço. Com alguns efeitos como overdrive, e mesmo controlando o feedback – perfeito com o center block – melhor usar a posição central.

Prós: a melhor semiacústica semelhante à Gibson 335 por um preço menor

Contras: poderia ter uma versão De Luxe / Special com algumas opções 

WASHBURN HB-17 (Por Ederson Riedel)

 

 

O primeiro impacto sem dúvida é o visual, a cor preta tanto na madeira quanto nas ferragens causam uma impressão de força e robustez. Não somente observada por mim mas pelos alunos que puderam ver a guitarra em ação. Testei a guitarra com amplificadores Vox e Fender (VoxMV 50 Clean e Fender Hot Hod Deluxe).

Minha impressão no primeiro momento, sem tocar a guitarra é que com aqueles captadores ao estilo ativo high gain teria um super volume ou até mesmo aquele clic da palheta. Ao tocar essa expectativa já não existiria mais, só boa frequência de médios graves e agudos secos. Na minha opinião o único ponto fraco do instrumento.

Gostei dos graves bem equilibrados e até com certa flexibilidade. Importante salientar que particularmente não encontrei versatilidade de timbre, outra expectativa criada pelo visual mais agressivo da HB17. O visual é muito diferente, creio que esta característica mais “rock” funcione para os apegados em questões de estética.

É um apelo diferente na escolha de guitarra para jazz e blues por instrumentistas não chegados aos estilos em questão. A madeira foi uma grata surpresa: a HB17 desligada tem um volume considerável e um ótimo sustain. Plugada, mantém essa característica das semiacústicas, diminuindo assim que o volume é acionado acima dos 50%

Creio que o universo das semiacústicas ainda causa estranheza aos alunos iniciantes, neste caso específico nossos alunos adoraram o visual da guitarra. Com o devido conhecimento de lojistas na hora da venda, em diferenciar o instrumento, não tenho dúvida que seria uma ótima indicação de compra de entrada para os alunos.

A HB17 não é uma semiacústica, e sim uma guitarra acústica derivada da linha “J” da marca. O corpo é de mogno laminado, escala em pau-ferro e um acabamento Matte Black (preto fosco) de grande personalidade. Tem apenas um cutway, e a espessura naturalmente maior do que as semiacústicas, por óbvio.

Os captadores Duncan USM são um destaque. Frutos de uma parceria da Seymour Duncan com a U.S. Music Corporation, são exclusivos das marcas Washburn e Parker, e dois modelos: HB-102 e HB-103. Os HB-103 é um humbucker de alta saída, com poderosos magnetos de cerâmica, mas conservando clareza corda-a-corda.

Já os HB-102 são humbuckers clássicos com magnetos de Alnico 5, sendo o da ponte de saída alta e o do braço menos um pouco. A ponte da HB17 é móvel, de pau-ferro, um dispositivo trapezoidal mantido no arch-top sob pressão das cordas. No unpacking da guitarra, mesmo dentro do case, precisamos fazer um regulagem, sem problemas.

Assim como a HB35, as ferragens e parte eletrônica são de ótima qualidade, o que elimina gastos extras para aproximar esta acústica de boa relação custo/benefício da famosa Gibson 335. As tarrachas Grover completam a preocupação em oferecer o melhor que seu valor pode oferecer ao guitarrista.

Prós: escolha acertada da madeira, sustain e volume, equilíbrio tonal

Contras: captadores poderiam seguir a linha agressiva da construção

MICHAEL JAZZ ACTION

 

 

Em termos de relação custo-benefício, a semiacústica da Michael atende muito bem ao guitarrista iniciante e ao intermediário, e não deixa o profissional descontente. A primeira impressão ao abrir a caixa em que foi enviada – veio sem case – é a de um instrumento robusto, pelos seus trastes jumbo e o cavalete prendendo a ponte à lateral inferior.

Dois humbuckers abertos e bem cromados aumentam a sensação de uma guitarra forte, e os marcadores de trastes com formato geométrico de paralelograma em madrepérola se harmonizam com o aspecto geral. Knobs giratórios de volume e tonalidade para cada captador complementam a ideia de uma guitarra bem planejada.

Parece ser a evolução da GM115N, que já levava na sua construção Maple laminado, braço colado de Hard Maple e escala em Blackwood, com o tradicional center block, alívio para os guitarristas apreciadores de ganho e distorção sem feedback. O som, em resumo, é macio e deve agradar os violonistas que trabalham dedilhados com punch.

A Jazz Action é fruto do desenvolvimento de semiacústicas da marca desde 2009, e o modelo GM1159 chegou ao mercado entre 2014 e 2015, com direito a matéria na Música&Mercado em 05/02/2015. O modelo analisado mais recentemente é na cor Wine Red (WR), uma das duas opções que inclui também o preto metálico (BK).

Segundo Débora, especialista da Michael, está nos planos uma terceira cor, Grey (GY) para breve. Mesmo não tendo planos para versões personalizadas ou assinadas por instrumentistas de renome, a marca está aberta para parcerias, com uma equipe interna de desenvolvimento de produtos atenciosa e dedicada.

A Michael tem como conceito sempre atuar em todas as linhas, e com este modelo não é diferente. O objetivo da Jazz Action é de continuidade e evolução, atendendo assim aos músicos dedicados ao blues, jazz, MPB, e outros estilos a cujo timbre estão associadas as características sonoras da semiacústica.

Na contramão de marcas como a Giannini e Tagima, que estão paralisando a produção de semiacústicas, e talvez por isso mesmo, o produto é muito procurado na linha Michael principalmente pelo requinte que oferece, e seu volume de venda cresce cada vez mais no mix de guitarras, completa Débora.

Prós: a semiacústica de melhor custo/benefício e fabricada no Brasil

Contras: trastes poderiam ser médios, combinando com o shape do braço

EPIPHONE ES-339 (Por Alexandre Ivo)

 

 

A princípio a ES-339 poderia ser classificada como algo entre uma Les Paul e uma ES-335, lembrado que as letras “ES” são a sigla de Electric Spanish, logo, estamos falando de semiacústicas. Sua principal característica  são os captadores humbuckers Alnico Classic, que podem ser “transformados” por um dispositivo push/pull em singles.

Como a maioria das semiacústicas, são de Maple laminado no corpo e headstock, braço “D” Slim Taper em Mahogany, e escala de 22 trastes em Pau Ferro. Há knobs de tonalidade e volume para cada captador, e uma chave toggle de 3 posições. Acabamentos em Vintage Sunburst, Ebony, Natural, Cherry e Black. Pesa mais do que uma 335.

O braço é magro, sem ser super slim, mas não tem a pegada dos braços vintage Gibson, assim como sua simulação de captação single é eficiente, mas não exatamente igual a um single “real”. O que não a impede de ser uma guitarra versátil, soando bem, com um amp valvulado, para jazz, blues principalmente, e outros estilos amigos de semiacústicas.

E seu tamanho ligeiramente menor do que uma 335, a coloca entre uma 336 e uma Les Paul, soando bem com overdrive, no que o center block e braço colado ajudam bastante. O captador “híbrido” do braço com trastes jumbo médios é um Epiphone Alnico Classic PRO e o da ponte é um Alnico Classic PRO Plus.

A Gibson lançou o primeiro modelo deste tipo em 2007, com bastante sucesso, talvez baseado nos eletrônicos “Memphis Tone”, com seu áudio 500K. Este circuito preserva as frequências altas independentemente do controle de volume, substituindo linearmente 300k Ω por 500k Ω, preservando as altas à medida que o volume é reduzido.

Na primeira pegada é mais tocável e confortável do que uma 335. Dá pra tocar de B.B. King a John Scofield, passando pelo Clapton do Cream, controlando o feedback ou fazendo uso dele. O braço tipo 30/60 preserva a pegada das semiacústicas com algo da tocabilidade dos braços de uma guitarra de corpo sólido.

Prós: instrumento versátil para diversos timbres em estúdio e ao vivo

Contras: se afasta um pouco do espírito “analógico” das semiacústicas

CONDOR JC-502 (Por James Liberato)

 

 

Comprei essa guitarra usada, muito barato, baseado na fama das Condor e também em um histórico meu, pois também tive uma Les Paul da Condor que era uma maravilha. Após breve análise da guitarra constatei uma excelente construção. Boas madeiras, bom acabamento, sonoridade e afinação muito boas. A captação também é boa, tem bom timbre, mas comparada a outras captações afamadas no mercado, perde com distância.

Instalei recentemente um captador Gibson Tim Shaw que tinha em casa, na posição do braço, e fez uma diferença tremenda de sonoridade. A guitarra em termos de construção não perde facilmente para outras mais famosas. No braço temos uma alma extremamente funcional que consegue ajustar o ângulo do braço com facilidade. Vem equipada de fábrica com tarraxas Grover, ponte e cavalete de excelente qualidade.

Não sei o ano exato de fabricação da guitarra mas já deve ter uns 10 anos de batalha, e nada de pontos de ferrugem ou oxidação. O fato de não estar mais em processo de fabricação, assim como outros modelos da Condor, é de se lamentar. Uma pena. Acho a JC-502 bastante superior a guitarras nacionais de modelo similar, em valor, como Tagima e Giannini, também descontinuadas. Outra pena. Resumindo, uma grande guitarra com custo/benefício excepcional, que recomendo.

Prós: durante anos com certeza a melhor semiacústica fabricada no Brasil

Contras: não é mais fabricada pela Condor, só conseguindo uma usada

A construção de uma Archtop

Contatamos o luthier Walter Gabriel especializado em Archtop, o tipo de construção usado nas semiacústicas, que fala um pouco sobre o assunto:

Como você definiria a construção Archtop em guitarras, em comparação com a de instrumentos de corda friccionada? 

A construção de ambos é bem semelhante, pois são escavados para proporcionar uma bombatura correta. Com relação à espessura elas são diferentes para que a frequência corra no instrumento de forma correta e rápida, retirando assim os obstáculos que possam prejudicar o som produzido.

Os instrumentos de cordas friccionadas e a guitarra usam cavaletes móveis e possuem uma pequena angulação no braço. Nas Archtops as cordas são presas em um cordal, denominado standart. O que posso dizer é que ambos possuem muita semelhança na construção.

Quais são as madeiras utilizadas na construção Archtop? Há espécies tipicamente brasileiras?

As madeiras são similares às utilizadas em instrumentos de cordas friccionadas. A saber:

• Tampo – Abeto (Spruce)

• Fundo, Laterais e Braço – Maple

• Escala e Standart – Ebano

Madeiras nacionais que podem ser utilizadas:

• Tampo – Caxeta (Marupa), Cedro Rosa

• Fundo, Laterais e Braço – Pau Marfim, Embuia, Jequitiba, Pau Ferro,

• Jacarandá da Bahia

• Escala e Standart – Pau Ferro e Jacarandá da Bahia

Como se dá a sobreposição de laminados de madeira para a aglutinação que resulta em Archtops?

Os laminados são utilizados pelas indústrias que produzem instrumentos feitos em série ou em grande escala. O trabalho possui um custo bem menor e um processo bem mais rápido, pois o tampo e fundo não são escavados e sim prensados em fôrmas para obter o formato desejado, tornando-os mais baratos.

O processo de produção consiste em colar uma lâmina na outra obtendo-se espessura ideal para que o instrumento possa ter resistência e aguentar o peso das cordas. Aplicando-se essa técnica, não se obtêm diferentes espessuras em volta do tampo e fundo, prejudicando a frequência.

Como você definiria os prós e contras na utilização de madeiras maciças escavadas ante os laminados?

A saber:

• Madeiras Maciças: possibilita processo de construção de um instrumento de boa qualidade. O tampo e o fundo são escavados. Permite deixar espessuras diferentes em volta do tampo e do fundo para que a frequência corra de forma diferentes e mais rápida. As laterais são dobradas utilizando-se calor produzido por uma forma dotada de manta térmica, que aquece até a temperatura de 100 graus onde conseguimos dobrar as faixas sem que se quebrem, deixando no formato que desejamos sem que voltem ao ponto de origem.

• Laminados: utilizados por indústrias que produzem instrumentos feitos em série e em grande escala, pois são mais fáceis de trabalhar e o custo é bem menor. O tampo e o fundo são prensados.

Fale um pouco sobre as tuas Archtop, madeiras usadas, clientes, e como o contactar para encomendas.

Aprendi a construir uma Archtop pelo Curso em CD do Luthier Americano Robert Benedeto. Utilizo as plantas e o modelos dele. Hoje faço Archtop por encomenda, entretanto, meus conhecimentos são mais aplicados no curso de Construção de Archtop que ministro semanalmente. Meu nome é Walter R Gabriel, mas sou conhecido como o luthier Walter Gabriel. Trabalho há pouco mais de 30 anos como luthier em instrumentos de cordas. Entre meus clientes estão: Roberto Menescal, Artur Maia, Marcu Ribas, entre outros.

Meus contatos: WhatsApp: (11) 95711-5969, Instragram: wgabrielluthier, e-mail: [email protected]

 

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