Na hora do aperto,  o músico está só

Na hora do aperto,  o músico está só

por 06/07/2020

Lembro-me de quando, na solenidade de lançamento da Frente Parlamentar  Suprapartidária em Defesa da Indústria da Música, e Som Automotivo  (FREMÚSICA), o amigo André Jung, citou a Fábula da Cigarra e da Formiga,  e de quão errada pode ser a interpretação dos fatos dessa história, afinal, a cigarra cantava o tempo todo, para alegrar o trabalho das formigas, que não a acolheram sequer (e realmente ele foi feliz nessa observação de como a sociedade nos enxerga).

A interpretação de que música não é trabalho, e que músico não trabalha, é tão errônea e tão maldosa, que afirmo, talvez não haja profissional mais estudioso e esforçado, pois não importa o quanto estude, a música é tão ampla, que não há como saber tudo, dominar o todo, e se expressar em suas variadas linguagens e estilos no prazo de uma vida humana.

Sim, há os “artistas midiáticos” que não são exatamente “profissionais dos mais técnicos” em geral, e por vezes vendem aparência, beleza, sensualidade, mas à seu modo parasitário, dão emprego à músicos,  produtores, iluminadores, técnicos de áudio e video, roadies, e toda uma hierarquia de profissionais para manter seu estrelato, e como tem público,  democraticamente,  tem sua utilidade (NÃO me refiro à “gralhas” rebolantes com playback, pois este género não se enquadra além do estelionato)

O músico em geral estuda muito,  trabalha muito,  dorme pouco, e ganha pouco.

Sim, o glamour do Pop Star é  de uma minoria, pois milhões ganham o pão de cada dia na noite, e no dia vão atrás de todos os itens normais à todos, como banco, escola dos filhos, supermercado, etc…

Alguns trabalham na noite e são vendedores de loja de instrumentos musicais de dia.

Há os que ensinam, os que produzem, os que acompanham artistas, os que fazem música publicitária e até de games.

Em geral quem trabalha com jingles, ganha um “cachêzinho”, para resolver tudo, e do outro lado, na outra ponta da corda, um publicitário que apenas escreveu o “briefing” do que o cliente queria, anda de BMW (Chega a ser quase um padrão).

Aí aparece a crise do tal Covid19 para provar que ninguém está nem aí com as “cigarras” no formigueiro.

Fecham os locais onde poderia haver apresentações de música, limita-se a circulação de pessoas, o mundo para, muitos se viram como podem, e os “astros” midiáticos fazem LIVES, mas e o cara que ganhava o pão de cada dia a cada noite, não só o músico,  mas o profissional da área?

O que fez e faz a sociedade sobre isso?  Nada…

Profissionais da área técnica amigos meus, sejam roadies, engenheiros de som, todos dizendo que não prosseguirão depois da crise nas suas áreas de trabalho, pois aprenderam a lição de que não há nenhuma segurança profissional em seus setores (e não há mesmo), porque o que se vende no setor de entretenimentos não é palpável,  e sim sensorial.

Tudo no quesito material no mercado musical, é um meio para a sensorialidade da Música se desenvolver, gerar bem estar e benesses mentais, emocionais e até físicas, com a dança e atividades similares.

As “formigas” enlouqueceriam num mundo sem o som das cigarras.

Mas a coisa continua numa navegação sem bússola.

Existem campanhas de tudo que é assunto, pagas pelos governos, muitas apenas institucionais,  mas nunca vi uma secretaria de Cultura sequer colocar um comercial de TV dizendo “valorize o trabalho do músico e profissionais da área”.

Aí tem o pessoal que “ama” ouvir música,  é fã de músicos conhecidos, mas trata músico como lixo, inclusive com a famosa frase “é músico,  mas trabalha com o que? ”

No fundo há um fundo de verdade, já que no nosso esforço,  estamos felizes, cantando,  alegrando,  porque a felicidade das formigas também nos é aprazível,  e nos realiza, porém não etiquetar o valor do nosso trabalho,  fez as formigas não darem o valor a ele.

Há quem categorizemos por formiga, pelo trabalho incessante, mas individualmente, apenas parte de um esforço coletivo, há quem chamemos de formiga, pelos hábitos de nunca parar de trabalhar, há quem seja o “formigão” por gostar de doces, mas no eufemismo, categorizar as pessoas pequenas nas suas concepções como formigas, não é comum, mas sem dúvida, aqueles que se beneficiam da música,  mas dão às costas a quem a faz, podemos pensar em caregorizar de insetos, pequenos, daninhos, e preocupados somente consigo… Baratas… Mosquitos…