O que o mercado de violas caipira pode aprender com a história do ukulele?

O que o mercado de violas caipira pode aprender com a história do ukulele?
março 11 10:43 2016

Sobre violas e ukuleles: Como a C.F Martin & Co reinventou o ukulele, e o que o mercado de violas caipira pode aprender com essa história?

Quando foi a última vez que você viu alguém com menos de 25 anos tocando uma viola caipira, ao vivo na sua frente? Quando foi a última vez que você esteve frente a frente com uma verdadeira viola caipira? A pergunta pode ser descabida, sem sentido para alguns, mas de fato, se fizéssemos uma pesquisa em várias cidades diferentes do país, principalmente nos grandes centros.

Talvez você leitor, nunca tenha parado para pensar nisso, mas de fato, se você neste momento ligar o seu rádio numa rádio pop, poderá ouvir por horas a fio e não encontrará nas canções nenhum dedilhado das tão famosas primas gêmeas, mesmo se você optar por uma rádio com o estilo sertanejo, você ouvirá diversas canções do sertanejo universitário, até que uma ou outra, após horas de audição, mostrem o som de uma viola.

 

Ukulele: utilizá-lo fora do contexto tradicional foi essencial para a revitalização do instrumento

Ukulele: utilizá-lo fora do contexto tradicional foi essencial para a revitalização do instrumento

A experiência do Ukulele pode ajudar a viola

O ukulele é um instrumento tradicionalmente havaiano, criado no século 19 inspirado em outros instrumentos como rajão e machete, seu nome tem duas possíveis traduções, a mais aceitada entre os músicos e historiadores é: “Pulga Saltitante”, mas também pode ser: “Presente de Longe”.

Ele fez muito sucesso no continente nos anos 20 e foi usado por muitos artistas famosos do cenário americano. Durante a segunda guerra era o instrumento preferido entre os soldados americanos, primeiro pela sua facilidade de transporte e segundo por ser um instrumento legitimamente americano, um símbolo de nacionalismo e patriotismo tanto quanto um carro Ford ou uma arma Smith & Wesson.

As vendas e o interesse desse público era estável até o final dos anos 70, com o início da era Disco, que influenciou todos os estilos com sons psicodélicos criados por teclados sintetizadores, pedais de guitarras cada vez mais sintéticos e até mesmo a voz, que podia passar por tratamentos e timbres, poderiam transformar o mais simples e tradicional inglês nova iorquino, em um dialeto alienígena.

A música mundial foi invadida por uma avalanche de eletrônicos e cada dia menos se ouvia o som do Ukulele nas rádios, nos discos e nos toca fitas americanos. Como “tudo que não é lembrado, acaba caindo em esquecimento”, nos anos 90 a fabricação e venda do Ukulele estava estagnada.

Comprar um ukulele em loja era muito difícil, uma vez que, com o receio de ter um estoque parado, os lojistas praticamente não faziam pedidos desse instrumento. Os jovens queriam guitarras elétricas, pedais, amplificadores com as mais fortes distorções, sintetizadores da Roland. Estes tipos de produtos vendiam como água, agora não só para o público pop, mas rock também abusava dos timbres eletrônicos.

As vendas caíram tanto que a C. F. Martin & Co tirou do mercado 6 modelos de um total de 8 modelos que eram produzidos na cidade de Nazareth – Pennsylvania – USA, ficando apenas com um modelo tradicional e um modelo barítono, estava decretado ali, o fim do ukulele, um instrumento icônico, que esteve presente em toda a história musical recente dos Estados Unidos, de símbolo patriótico nos campos de batalha alemães, a um esquecido instrumento, usado apenas por um pequeno grupo de músicos tradicionalistas ou nativos das ilhas havaianas.

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Revitalizando

violao_roziniEssa é uma situação muito parecida com a situação da viola caipira hoje, se você dúvida, te convido a fazer uma experiência, visite a Rua Teodoro Sampaio no Bairro dos Pinheiros na cidade de São Paulo. Essa rua é referência nacional na venda de instrumentos musicais devido ao seu grande volume de lojas, tão próximas umas as outras, na maioria das vezes, vizinhas ou frente a frente uma com as outras.

Visite as lojas, procure violas à venda, a primeira coisa que você irá perceber é:

  1. Não há violas em todas as lojas.
  2. Nas lojas que há violas, haverá mais Ukuleles do que violas, eu nem vou falar de guitarras e violões, Ukuleles vendem bem, e é muito comum encontrarmos Ukuleles em uma quantidade maior do que cavaquinhos, bandolins e….. violas!
  3. Nas lojas em que há violas, os vendedores não entendem de violas e sequer tocam violas! Viola é um instrumento tão desconhecido nos grandes centros brasileiros, que encontrar alguém que toque viola é muito raro, mesmo entre os lojistas e atendentes das lojas de instrumentos musicais, é difícil achar um que entenda e toque viola.

Este foi um cenário semelhante ao que o Ukulele viveu em grandes cidades como Seatle – Washington – USA, um instrumento do interior, simples, acústico, tentando competir num mundo de eletrônicos e instrumentos usados por todos os músicos da cena mainstream, foi quando C.F. Martin & Co, uma empresa familiar com mais 150 anos, nomeou o jovem Cristian Frederick Martin IV recém formado em economia e negócios como vice presidente da companhia.

Ele então decidiu restruturar a empresa e atualizar a sua linha de produtos para os novos tempos, mudanças como automatização das linhas de corte, a construção de uma unidade fabril no México, lançamento de linhas mais baratas e, na minha opinião a ideia mais genial, aproximação da marca com o público jovem, alavancaram as vendas da empresa, a empresa que tinha como parceiros (endorsers) apenas músicos clássicos da cena Folk e Country, passou a estar presente na música pop, no rock, no indie, grunge e demais estilos que mexiam com a cabeça dos jovens da época.

Novo público tocando, novas tendências

Cantora Madonna canta e toca Ukulele em show beneficente.

Cantora Madonna canta e toca Ukulele em show beneficente.

A Martin & Co entendeu que os jovens compravam mais instrumentos, acessórios e peças, do que o público mais velho, então era sábio investir nos músicos que os jovens ouviam e tinham como referência. Isso no Brasil já acontece e é feito pela Tagima, veja os endorses principais da empresa, Eduardo Ardanuy, Juninho Afram, Cacau Santos, todos guitarristas famosos, seguidos e invejados por todos os jovens guitarristas brasileiros, e é exatamente o público jovem que mais compra guitarras elétricas, amplificadores, pedais, cabos…

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Não que o público mais “maduro” não consuma, mas enquanto um guitarrista de 30/40 anos, usa sua guitarra no conforto de sua sala ou quarto, transporta seguramente no porta malas de seu carro, um guitarrista de 15 ~ 20 anos, pega ônibus, vai pra escola, vai pro ensaio, pisa no cabo, quebra o cabo, bate a guitarra, risca, é assaltado, ou seja, ele de fato consome a guitarra, e cedo ou tarde ele terá de repor aquele bem, enquanto o músico de 30 ou mais, fica 10, 15, 20 anos com a mesma guitarra, um guitarrista mais jovem troca de guitarra a cada 3 anos em média.

Pensando por esse lado o pensamento de Cris Martin está correto, os jovens consomem mais instrumentos, e a Martin & Co estava errada em focar mais no público de meia idade, mas foi uma ideia ainda mais genial que trouxe o Ukulele de volta a vida, ajudando não apenas a C.F. Martin & Co a vender mais, mas também todas as fabricantes de Ukulele.

Cris Martin entendeu que era hora de trazer o Ukulele para dentro da música americana de novo, dessa vez não apenas estilos tradicionais como country, Folk e R&B, Cris Martin queria ouvir o Ukulele na Bill Board, Cris Martin queria ouvir o Ukulele na música pop, que era onde o público jovem estava!

Trabalhando em apoio com todos os meios de comunicação possíveis a equipe de marketing não apenas da C.F. Martin & Co, mas também de outras empresas começaram a apoiar a gravação e divulgação de álbuns inteiros gravados sem instrumentos eletrônicos, começa a fase “unplugged” da música pop nos anos 90.

Uma ideia genial que teve seu ápice na série de shows criados pelo canal musical MTV, o programa “MTV Unplugged” se tornou um sucesso muito rápido, no palco, baterias acústicas, violões, baixolões, banjos e ukuleles, era algo novo, inspirador para uma juventude acostumada a ouvir teclados, sintetizadores e guitarras carregadas de todos os efeitos possíveis. Foi algo tão forte que atravessou fronteiras e no Brasil teve sucessos como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, e um pouco mais recente, Charlie Brown Jr.

Martin Guitars

Setor de fabricação de Ukuleles, na Martin Guitars, por volta de 1925.

Segundo a própria C.F Martin & Co, a fabricação de Ukuleles que era de 6 mil unidades mensais em meados dos anos 90, chegou a 25 mil unidades no início da década de 2000, estamos falando de pelo menos 3,8 mil unidades fabricadas a mais por ano, ainda hoje a Martin & Co e também outras empresas, em especial a Taylor Guitars, que seguiu a risca a lição ensinada por Cris Martin, mantém suas marcas voltadas ao público jovem, apoiando artistas realmente do mainstream e que fazem a cabeça da molecada hoje.

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O Ukulele que era um instrumento típico da música havaiana, passou a ser um item obrigatório da música pop mainstream americana, está nas mãos de Chris Cornell, Taylor Swift, Paramore, John Mayer, Ed Sheeran, Chicago, America e até mesmo o gênio da guitarra John Petrucci que é endorse dos violões Taylor, tem um Ukulele da marca.

O que aprendemos com a Martin & Co, que foi a principal responsável pela volta triunfal do Ukulele, é que estilos musicais morrem, a música tradicional havaiana morreu, a música tradicional americana dos anos 40 morreu, mas isso não quer dizer que necessariamente um instrumento deve morrer com ela. Instrumentos musicais são universais, você pode inserir um sax num samba, uma guitarra na bossa nova, e o mesmo vale para a viola, o que impede de um músico tocar rock numa viola? O que impede um músico de tocar MPB em uma viola? Nada impede, a música sertaneja de raiz está morrendo, não acredito que ela caia no esquecimento por completo, não, assim como a música havaiana não caiu no esquecimento por completo, mas ela será ouvida cada vez menos.

Se queremos ver a viola cada vez mais presente nas mãos dos novos músicos que estão surgindo, é preciso mudar o foco do instrumento e investir em um marketing, onde seja possível inserir a viola de 5 cordas na música que toca nas rádios hoje, assim como a Martin & Co fez com seus instrumentos acústicos.

Quebrando paradigmas, em 2007, Ricardo Vignini e Zé Helder, uma dupla de violeiros inovou ao fazer o projeto Moda de Rock. Para muitos, poderia até ser cafona, mas o Moda de Rock trouxe a viola para o centro do rock e da mídia, aparecendo maciçamente nos canais de comunicação, com inflamado elogios dos críticos musicais. No espírito da viola caipira, In the Flesh do Pink Floyd se tornou uma singela valsinha, Aces High do Iron Maiden e Master of Puppets do Metallica ganharam uma levada de pagode de viola.

Mas voltando à Martin… Num mundo de sons eletrônicos e psicodélicos a Martin & Co alavancou as vendas vendendo os mesmos produtos acústicos e analógicos que eles fabricavam desde 1833, a linha de Ukulele que contavam com apenas 2 modelos e fabricavam em média 6 mil unidades mês, hoje contam com mais de 10 modelos e fabricam 25 mil unidades mês.

A indústria da viola caipira tem muito a conquistar, a viola pode voltar ao cenário mainstream brasileiro, apenas precisa se libertar das correntes do tradicionalismo e tocar livre por dentro de todos os estilos.

 

(Foto: Adriano Rosa)

 

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Bruno Moscan
Bruno Moscan

Músico e Luthier, há 10 anos trabalha na manutenção de instrumentos. Há dois anos iniciou a construção de instrumentos custom shop, criador da marca Draco Guitars and Basses, lojista do mercado de instrumentos musicais, já escreveu para o site Rock de Verdade e também para a revista Música Web.

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