COMO MONTAR SEU HOME STUDIO – Capítulo VIII

COMO MONTAR SEU HOME STUDIO – Capítulo VIII
julho 11 09:21 2018

Mais um capítulo da nossa série para home studio. O tópico de hoje? Mitos: Teclado ou guitarra como controlador.

A cada dia aparecem candidatos a alunos de produção musical, vindos de diversas origens, geralmente confundindo a função de “produtor” com algo que não seja um compositor. Solto então minha famosa frase “produzir música é compor música”, alguns entendem, outros simplesmente vão procurar outros cursos que lhes prometem mais facilidades para se tornarem algo como famosos superstars instantâneos…

Muitos são guitarristas ou violonistas, e não fazem ideia de que poderão sequenciar suas obras no violão com captador ou na guitarra. Dessa maneira, economizarão o longo tempo dedicado a dominar um teclado controlador, que, afinal, é um teclado, e os guitarristas/violonistas não são tecladistas. Mas alguns preferem se sentar atrás de um teclado, com algum tipo de admiração pelo glamour das teclas.

Então um dos maiores mitos da produção musical é o sequenciamento em teclado, absolutamente desnecessário, a menos que o candidato a produtor seja, é claro, um tecladista. A história da guitarra sintetizada, ou guitarra MIDI, já é longa, com diversas tentativas de se eliminar o atraso entre o acionamento de uma corda, e o caminho de seu sinal eletrônico até a fonte de timbres e dali para uma saída de áudio.

A princípio os custos eram um empecilho maior do que o atraso do sinal, e os primeiros modelos e marcas custavam a partir de US$ 14.150,00 em anúncios da New England Digital Corporation junto com a Roland, que entrava em parceria com o sistema oferecendo a guitarra GR com um painel de 16 botões de LED que comandavam 16 tracks de gravação digital.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Roland fez uma primeira tentativa de guitarra MIDI que não usava MIDI: Era exatamente a guitarra Roland 303, que tinha um sintetizador analógico – o Polyphonic Guitar Synthesizer GR300 – encarregado de disparar timbres, com todos os problemas de atraso entre a execução e o som final, além de ruídos de trastejamento e outros bugs que irritavam os guitarristas de técnica veloz.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A New England Digital apresentou uma interface de guitarra para o sistema Synclavier usando um Roland G-303. Pat Metheny e John McLaughin eram usuários deste sistema. A G-303 de Pat foi modificada para mixar o controle remoto do Synclavier. Este sistema inicial não funcionou melhor do que um outro sistema da Roland, o GM-70. Era lento e propenso a erros. No fundo, o Synclavier era um sintetizador FM, com a adição de sequenciamento.

O Synclavier foi expandido posteriormente para oferecer a capacidade de amostrar e reproduzir outras bibliotecas de sons. Esta introdução de amostragem no início dos anos oitenta era revolucionária. Junto com o Fairlight CMI, esses sistemas eram o máximo da tecnologia da música, prometendo novos horizontes musicais, mas com preços que os tornou acessíveis apenas para músicos de elite e estúdios de gravação top.

Outros produtos podiam ser vistos e ouvidos nas mãos de Allan Holdsworth, como a estranha guitarra de dois encordoamentos, além de teclas disponíveis para acionar cordas individualmente ou em grupos de 3, este modelo chegou a custar por volta de US$ 13 mil em 1985, e atendia pelo nome de Synthaxe. Existe no Facebook um grupo de usuários deste sistema, em ação até hoje.

Leia também:  Akustica Musical doa cerca de 50 instrumentos em sua campanha de Natal 2012

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde os anos 60 até hoje, foram aparecendo muitas tentativas e erros de produtos e marcas. Nos anos 60 a Vox lançou um instrumento – o Vox V-251 – que se parecia com uma guitarra, mas na verdade seu braço era um disparador com cada traste separado em 6 partes, e um mecanismo de contato “ligava” cada corda apertada produzindo timbres como um órgão, daí o nome Organ Guitar.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

Este mesmo conceito de disparador sem cordas evoluiu na década de 80, dando origem a outras guitarras como a Stephen Randall Stepp Guitar, primeiro com timbres embutidos, depois com um controlador que armazenava os sons. Muito mais acessível, a Casio DG-20 tinha até saída MIDI, depois de sua predecessora DG-10 também ser considerada muita cara. O captador era o maior problema.

imagem

 

 

 

 

 

Outro captador MIDI foi desenvolvido pela Graphtech, e se chamava Ghost MIDI. Eram captadores piezoelétricos individuais para cada corda, que podiam ser adaptados a qualquer ponte, e passavam por um roteamento interno de circuito como os da guitarra Parker P-38. A Gibson Robot também usava este tipo de captador, e os preços foram para entre US$ 1 mil e US$ 3 mil.

Irritados com a frequente latência dos disparos MIDI, os fabricantes da Starr Labs tentaram substituir as cordas por botões de pressão, 6 para cada traste, na guitarra chamada de Ztar Z5. Um modelo da Ztar Z5 foi construído usando MIDI touch strips sensíveis ao aperto de cordas, continuando a luta contra o delay e a busca por captadores eficientes e rápidos.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

Um modelo chamado Kitara usava botões no braço para acionar cada série de 6 cordas em cada traste, mas para a mão direita foi desenvolvido um pad de toque, bem parecido com os apps para tablets disponíveis atualmente. Os preços cairam para a casa dos US$ 1 mil. Atenta ao mercado, na virada do século, a Yamaha lançou seu modelo acessível, a EZ-EG, que também tinha saída MIDI.

Pioneira no desenvolvimento da guitarra MIDI propriamente dita, a Roland seguiu desenvolvendo modelos de sintetizador de guitarra que usa os captadores GK, tecnologia de modelagem COSM, a mesma do sintetizador Roland JV-1080, e com preço mais acessível do que a série VG (US$ 700). Existe também o modelo GR-55, com características semelhantes.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

A Roland desenvolveu o captador GK-2 e GK-3 de seis canais para levar os sinais MIDI para um controlador que adotava a sua exclusiva tecnologia COSM de timbres. Este tipo de captador podia ser instalado em quase qualquer guitarra sem causar danos estéticos no instrumento, usando desde fitas adesivas de dupla face, adaptadores de altura até parafusos para quem se dispusesse a furar seus instrumentos.

Leia também:  Casio: Confira os lançamentos

A síntese de modelagem COSM da Roland continuou a guerra contra o delay MIDI nas guitarras, e o VG-88 pode simular, além dos timbres de guitarra e outros nem tanto guitarrísticos, amplificadores valvulados e efeitos. O sistema é disparado pelos captadores GK-2 e depois aceitava também o GK-3. Os preços na década de 90 andavam por volta dos US$ 2 mil.

Um último modelo mais cheio de recursos da Roland, o VG-99 usa 3 processadores, e é capaz de emular 2 timbres simultaneamente, além de efeitos. A modelagem COSM permite simular vários instrumentos de cordas com diversas amplificações. Como acessórios tem uma grande pedaleira de controle vendida à parte, suportes para tocar de pé ou adaptar o controlador a um rack, usando os captadores GK-3.

Mais ou menos na mesma época, a Fishman jogou o preço da captação MIDI eficiente abaixo (cerca de US$ 400) com seu TriplePlay, que pode ser encontrado onboard em modelos Fender, por exemplo, ou como captador avulso, que ainda conta com a vantagem do sistema wireless, eliminando o famoso cabo de 13 pinos exclusivo que os sistemas Roland usam.

E aqui chegamos ao sonho dourado de todo guitarrista, um sistema de conversão de áudio para MIDI, que dispensa o uso dos captadores de seis vias e seus cabos exclusivos, dispensa módulos de timbres, e pode ser usado em qualquer DAW – Digital Audio Workstation – ou mesmo sem DAW nenhuma. É o software Jam Origin MIDI Guitar, que permite plugar seu cabo de áudio P-10 na interface e disparar instrumentos virtuais.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A versão 1.0 do Jam Origin MIDI Guitar original era executado como um programa autônomo, pegando o áudio de uma entrada designada em uma interface de áudio e, em seguida, convertendo-o em MIDI para ser passado para a entrada MIDI da DAW. Agora disponível para Mac e Windows, a versão 2.2.1 oferece ainda mais funcionalidade, mas no fundo se trata de transformar a saída P-10 em MIDI polifônico.

Sistemas que podem lidar com conversões monofônicas são notícias antigas, mas a guitarra MIDI realmente pode separar as notas de acordes e arpejos rápidos sem atrasos. De acordo com o pessoal do Jam Origin, são usadas tecnologias de reconhecimento de fala e outras aplicações de aprendizado, como a linguagem de programação LUA da PUC do Rio de Janeiro, em vez de técnicas tradicionais de DSP.

A versão 2.2.1 do MIDI Guitar está disponível diretamente no site do Jam Origin, fornecida com o MIDI Bass, que é similar em conceito, mas monofônico, e também pode hospedar plug-ins de AU ou VST de terceiros. Uma grande diferença em relação ao original, no entanto, é que o MIDI Guitar 2 agora vem em uma versão plug-in própria, em VST e AU, oferecendo as opções de gravação em estúdio ou ser usada ao vivo.

Leia também:  Paul Franklin Signature PF-350: nova criação dos falantes Eminence desse ano

A versão do plug-in é aberta em uma trilha de áudio, assim a entrada de áudio alimenta tanto uma cadeia de modelagem de amplificador / alto-falante e efeitos quanto o mecanismo de conversão MIDI, permitindo tocar um dos sintetizadores internos da MIDI Guitar ou qualquer outro instrumento virtual que você tem em seu sistema. Dá para misturar o som de guitarra processado e um som de sintetizador.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O plug-in MIDI Guitar pode hospedar plug-ins de instrumento para fornecer uma saída de sintetizador em tempo real, assim como a versão independente, mas se você quiser sequenciar e editar MIDI, é melhor configurar uma trilha separada na DAW, para o instrumento virtual que você deseja controlar. Enquanto essa faixa de instrumento estiver selecionada, ela receberá MIDI do plug-in MIDI Guitar.

Você também pode usar o plug-in para processar partes de guitarra limpas previamente gravadas em MIDI, embora qualquer reverb, delay, modulação ou distorção gravada possa comprometer o processo de tradução. Para trabalhar com sons de sintetizador com um ataque rápido, grave sua parte de guitarra como normal, insira o MIDI Guitar 2 e crie uma nova trilha de instrumento para gravar os dados MIDI.

Para sons com ataques mais lentos, você pode preferir ouvir os sons do sintetizador enquanto toca, e nesse caso você pode ativar a trilha do sintetizador e gravar enquanto toca a guitarra. Para ouvir uma guitarra através do plug-in, selecione DIRECT no slot Amp/FX, se você deseja ouvir um som não processado. Outras opções incluem adicionar várias simulações de amp/cab que adicionam overdrive, reverb e delay.

Os sons de amplificador sobrecarregados podem não ser tão bons quanto os plug-ins de emulação de amplificador que estão disponíveis no mercado, mas soam bem misturados com os sons de sintetizador e há muita capacidade de configuração, como as de de importar suas próprias respostas de impulso de gabinetes e reverberação, dentre outros ajustes. O sistema é compatível com praticamente todas as DAWs no mercado.

imagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se você achar que pode criar um som de guitarra processado inédito usando o MIDI Guitar 2, e que não pode ser recriado usando seus plug-ins de efeitos e amplificadores de guitarra habituais, é possível transportar o áudio processado para uma nova faixa e gravá-lo. Se não, você também pode deixar a saída da guitarra desligada. Tal recurso abre novas possibilidades de timbragem.

Para uso ao vivo, as configurações salvas na versão independente – standalone – podem ser recuperadas via MIDI, e os parâmetros dentro do programa também podem ser atribuídos a controladores MIDI. Os patches armazenados incluem também os timbres de terceiros hospedados no MIDI Guitar. Como se percebe, o Jam Origin tem recursos que nenhum guitarrista trocaria por um teclado controlador, e que custa só US$ 100,00…

Comentários
view more articles

About Article Author

Saulo van der Ley
Saulo van der Ley

Começou construindo caixas acústicas, estudando violão erudito, que depois recebeu cordas de aço, captador e alavanca. Montou um grupo de rock, fez um show no colégio em BH e se mudou para São Paulo/SP, onde em 75 fez trilhas para teatro e dança, com prêmio APCA. Membro fundador do Núcleo Música Nova com o mestre Conrado Silva, cursou Composição na UNICAMP, V Prêmio Sérgio Motta de Arte & Tecnologia com o grupo oTaoDoMinf, membro da AES, Troféu Clave OMB-SP, ex-redator e editor de revistas de áudio, Apple Developer e a 27 anos dirigindo a Pauta Arte & Comunicação, mesclando ensino e jornalismo musical.

View More Articles