Entrevista com Marquinho Sax: O som do saxofone

Entrevista com Marquinho Sax: O som do saxofone

por 06/09/2019

Um segmento do qual não falamos com muita frequência: os instrumentos de sopro e metais. Para conhecer mais sobre a atualidade do setor, conversamos com Marquinho Sax. Confira!

Marquinho Sax é saxofonista, professor de saxofone e palestrante. Atua na área há 26 anos e constantemente participa de atividades culturais relacionadas com o sax. Veja a seguir um bate-papo interessante para descobrir sobre o presente desse tipo de instrumento

Marquinho Sax

Marquinho Sax

M&M: Nos seus anos tocando saxofone, o que mudou no mercado mundial de instrumentos de sopro e metais? 

Marquinho: O que mais me impressionou ao longo desses 26 anos desde que iniciei com o saxofone foi a avalanche de novas marcas que surgiram. Poucas delas de fato têm boa qualidade ou oferecem alguma novidade. Em sua maioria são instrumentos com origem nas mesmas fábricas, porém com “nomes personalizados” (criados pelo importador), o que não foi ruim, pois na década de 1990 havia pouquíssimas opções disponíveis em nosso mercado. Em resumo, podemos contar nos dedos de uma das mãos os instrumentos com boa qualidade de empresas que surgiram ou já existiam e começaram a ser importados para o Brasil durante esse período.

M&M: Qual você destacaria no mercado local? 

Marquinho: Durante esse período, uma fabricante brasileira evoluiu com os seus instrumentos de forma notória, porém, eu enxergo que mesmo com a evolução na qualidade, a fama e, consequentemente, o sucesso nas vendas, essa marca sucumbiu à entrada de tantos outros instrumentos provenientes da China, com preços muito mais atraentes. Mesmo muitas das vezes não oferecendo a mesma qualidade, ainda assim conquistaram uma enorme fatia dos consumidores dessa categoria.

M&M: Como você analisaria a fabricação local desse tipo de instrumento? 

Marquinho: A fabricação local evoluiu, e muito, falando não apenas de instrumentos musicais, mas também dos acessórios para esses instrumentos. Mas os fabricantes locais deparam com dois grandes entraves: o primeiro está relacionado com as importações da China e o segundo é o mais triste: trata-se de um “ranço” herdado por gerações de professores e antigos formadores de opinião que, em sua época, experimentaram tais instrumentos e/ou acessórios quando a qualidade talvez ainda não tivesse passado por um aprimoramento (que é natural em qualquer empresa em todo o globo) e, consequentemente, esses instrumentos e acessórios até hoje são estigmatizados. Olhando pelo lado positivo, conheço marcas brasileiras que têm um incrível reconhecimento internacional de seus produtos graças à busca pela excelência.

M&M: Que marcas locais poderia destacar como referência nesse segmento? 

Marquinho: No Brasil temos marcas que se destacam pela alta qualidade que oferecem em seus produtos. Elas se preocupam em disponibilizar ao mercado produtos com qualidade equivalente e muitas vezes superior a de famosas marcas internacionais que já estão em nosso mercado. Posso citar como exemplo Marcus Bonna Cases (MB Cases), Barkley Brazil (boquilhas, bocais e outros acessórios), Ebano Handicraft (saxofones) e Eagle (diversos instrumentos de sopro), sendo que as duas últimas têm seus instrumentos fabricados em outros países, mas concebidos no Brasil, e trata-se de marcas brasileiras.

M&M: O que é importante levar em consideração no momento de escolher um saxofone? 

Marquinho: Excelente pergunta. Eu recebo diariamente mensagens com pedidos de orientação a esse respeito e, ao contrário do que muitos pensam, não saio recomendando o mesmo instrumento que eu uso. Aliás, isso é muito comum no mundo inteiro: professores indicam o instrumento que utilizam aos seus alunos, mas não consideram o grau de instrução, o poder aquisitivo ou o objetivo do aluno, pois nem sempre o instrumento ideal para o aluno é o mesmo do professor. Em minha opinião, o principal requisito no momento da compra de um instrumento (principalmente de sopro) é a sua durabilidade, pois o timbre é o músico que faz. A estética é baseada apenas no gosto pessoal e a afinação em um instrumento moderno (de 2010 em diante) é sempre muito boa, mesmo em instrumentos mais baratos, independentemente da categoria (estudante, intermediário, profissional, custom ou signature). A marca ainda é erroneamente levada em consideração como principal atributo. Vejo com frequência músicos buscando “grife” e até trocando instrumentos de categoria intermediária ou profissional de marca “menos famosa” por instrumentos de categoria estudante de marcas famosas levando em conta apenas a grife e, em muitos casos, fazendo um mau negócio.

M&M: Que tendências você está percebendo no mundo a respeito desse tipo de instrumento? 

Marquinho: Falando em tendência, uma que cresceu bastante foi a busca pela “personalidade estética” — mostrar uma identidade visual hoje é mais comum do que no passado. Além dos instrumentos coloridos que já compunham as opções de acabamento há décadas, os instrumentos envelhecidos ou vintage e unlaquered (sem banho) caíram no gosto popular.  Também há os músicos que enviam os instrumentos para ser “desplacados”, em um processo de remoção do Iaque; várias empresas, percebendo essa tendência, adicionaram ao catálogo instrumentos com essas características. A demanda segue em constante crescimento devido à facilidade do acesso aos instrumentos (preços). Em geral, não houve mudanças significativas em relação ao material, exceto por algumas empresas que vêm se destacando por oferecer instrumentos de categoria profissional fabricados em bronze, que conferem aos instrumentos um timbre muito rico, com a presença de muito mais harmônicos do que os fabricados em latão. Acessórios para instrumentos de sopro são criados constantemente, desde ferramentas que auxiliam o músico nos estudos até complementos que evitam a perda de harmônicos e/ou aumentam a projeção destes. Porém, o destaque está na constante evolução das boquilhas, palhetas e bocais, e se há algo em que a maioria dos músicos de sopro investe constantemente é nesses acessórios.

M&M: O saxofone, assim como outros instrumentos de sopro/metais, nunca foi um dos mais procurados pelas pessoas querendo aprender música. Isso ainda é assim? 

Marquinho: O saxofone realmente nunca teve uma busca como o violão, por exemplo. Isso se deve à relação de preços. Mas exatamente pelo preço mais acessível desde que houve a abertura comercial para os produtos importados, a busca por saxofones cresceu notoriamente e continua crescendo até os dias atuais.

M&M: Você é endorsee da Eagle, certo? 

Sax alto SAX-510s

Sax alto SAX-510s

Marquinho: Sim, eu endosso os saxofones Eagle e a nossa história é muito interessante, exatamente pela essência. Em uma época em que eu precisava de dinheiro para finalizar uma construção, vendi os dois saxofones franceses que possuía e comprei o meu primeiro Eagle (2004), com a intenção de me suprir até eu me recapitalizar e poder comprar novamente outros franceses. Porém, o tempo foi passando e eu o utilizava para fazer shows, gravar CDs, DVDs, e notei que ele resistiu bravamente à estrada, sem requerer manutenção, como eu imaginava que iria. Foi quando percebi que eu tinha em mãos um ótimo instrumento, que me atendia muito bem em todas as situações e que definitivamente, mesmo já recapitalizado, comprar outro instrumento caro seria apenas por questão de status e não por necessidade. Faço questão de deixar registrado que, em minha opinião, existem instrumentos franceses, taiwaneses e japoneses que são excelentes e superam os nossos em alguns aspectos, como mecânica e acabamento. Mas, devido à altíssima carga tributária em nosso país, a diferença de preços ainda é muito grande e isso, somado à ótima qualidade, faz com que os saxofones Eagle continuem sendo os mais recomendados por regentes, maestros e professores sérios (que não possuem vínculos artísticos ou comerciais com outras empresas).

M&M: Que modelos de instrumentos e de acessórios você usa atualmente? 

Marquinho: Eu uso a linha de instrumentos Master Series (categoria profissional) sax soprano SPX-512, sax alto SAX-510s e o sax tenor. Estou usando há pouco mais de dois anos um EMS-10, um protótipo único de um modelo signature que fui convidado a customizar em parceria com a Eagle e que, após as customizações necessárias (já concluídas), será lançado em alguns meses. Em matéria de boquilhas, utilizo Barkley em todos os saxofones devido à incrível versatilidade, que me permite executar qualquer trabalho sem precisar de malabarismos. Uso palhetas Rigotti Gold (natural) e FiberReed (sintética); abraçadeiras Silverstein Works, que são atualmente reconhecidas como umas das melhores do planeta; correias Barkley (Fit e Convert) e também o Talabarte Magno, que me permite estudar e tocar por horas, aliviando a carga do instrumento. A razão de eu utilizar esses instrumentos e acessórios é basicamente uma só: conforto. Eu escolho o meu setup e oriento as pessoas que me procuram a escolher e definir o setup norteadas pelo conforto.

M&M: Gostaria de deixar alguma recomendação para os músicos do segmento?

Marquinho: Sim, aproveito a excelente oportunidade para orientar os colegas no sentido de que tomem muito cuidado com as informações obtidas nas redes sociais, principalmente em grupos, pois infelizmente essas ferramentas deram voz a todas as pessoas, e muitas vezes a pessoa sequer chegou perto de um instrumento ou acessório, mas quando alguém pergunta: “Alguém aqui já tocou com o saxofone ‘X’? E a pessoa, geralmente para se destacar no grupo, mesmo sem conhecer de fato o instrumento (ou acessório) citado, sai escrevendo ou gravando áudio elogiando ou criticando. Esses pseudoespecialistas estão espalhados por toda a internet e muitos não se interessam em pesquisar ou estudar sobre aquilo que se propõem a debater. É uma triste realidade. Então, se aceitam uma sugestão, procurem especialistas no assunto, busquem as empresas fabricantes para obter informações. Observando que uma coisa é informação, e outra é opinião.

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