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Opinião: Enquanto o barco afunda

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enquanto o barco afunda

4 min de leitura

Uma das cenas mais emblemáticas do filme Titanic é a dos músicos tocando enquanto o naufrágio ocorre, para entreter quem ali se encontra em desespero, mas cientes de que estão fora da possibilidade dos botes, contando com a sorte, diante do oceano gelado (e os sobreviventes disseram que isso aconteceu de fato).

A arte e a estética artística têm naufragado diante de muitas “modernices”, perante o descaso, diante dos modismos, diante da tecnologia que facilitou ao medíocre se nivelar ao virtuoso, diante da virtualização das emoções e da remuneração de likes, além do falecimento de referências, que não são substituídas no meio porque não existe material humano disponível, sem a manutenção do interesse em se profissionalizar, para a formação de mercado futuro.

Não se trata de uma crise de música, e sim de arte, porque, de forma óbvia, até após a situação de quarentena, as opções entre saúde e sustento, em relação a adquirir material artístico musical, se tornam óbvias e compreensíveis.

As pessoas podem sobreviver num mundo “cinza”, e não podem deixar de colocar sustento em casa. Por outro lado, diante da pandemia, da guerra fria, não há meios de os governos custearem artistas, e não a saúde pública, pois cada centavo conta hoje.

Quando vejo secretarias de Cultura criarem “panelinhas” para sustentar comparsas ideológicos de militância política, travestidos de artistas, me bate a tristeza em observância da falta de ética e união, já que uns ganham tudo fazendo quase nada, por contatos políticos, e outros tudo fazem e ficam sem nada, por serem legitimamente comprometidos com sua arte. É como a divisão de comida num velho desenho do Pica-Pau, os lobos levam vantagem.

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Cinema fechados, casas de show, restaurantes, teatros, companhias aéreas em crise profunda e corte de funcionários — por que os músicos seriam diferenciados? Já estávamos em crise, e isso não tinha nada a ver com a adaptação à modernidade, só nos mantínhamos vaidosos pelo fato de trabalharmos no que amamos, e amamos o que nosso trabalho proporciona.

Em lives de redes sociais, em sacadas de prédios, aqui estamos nós, tocando para entreter a todos, enquanto o barco afunda, evitando o pânico de quem não sabe se terá botes suficientes,  mas sabendo que, aparentemente, nós mesmos não temos botes.

Essa é a natureza do ARTISTA

Eu coloquei tudo em letras maiúsculas para diferenciar dos “artistas” que são apenas fruto de marketing, vazios de talento e emoção.

Mais uma vez, nos são cobrados humanismo e empatia, fazer melodias que espantam o choro, sem saber onde enxugar nossas próprias lágrimas.

Todos que atuam no mercado musical, do vendedor da loja ao iluminador de shows, dos engenheiros de som aos fabricantes de instrumentos e acessórios, impactados pelo infortúnio, têm na incerteza futura o momento mais importante de reflexão.

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Não creio num mundo sem calor humano, sem abraços e liberdade, pois num mundo desses não valeria a pena viver.

Creio num mundo que aprenda, pela dor, a lidar melhor com tudo que estava errado, e mudar o rumo.

Será que precisávamos tanto assim da dependência dos preços baixos da China? Será que hoje o preço não está alto demais?

São tantas perguntas no mundo.

Com tantos impostos, taxas, burocracias, com um vírus que tem 80% de assintomáticos e pouco sintomáticos e 20% de pessoas que necessitam de leitos nos hospitais, como nenhum país sequer tinha 10% de leitos em relação ao número de habitantes, juntando saúde pública e privada? Os impostos servem para quê? Enriquecer aqueles que têm “botes” sempre garantidos.

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Sei que não é o momento de “passar o chapéu”, pois tem gente que está com a geladeira vazia e aflita, mas cedo ou tarde o mercado musical se erguerá novamente, e espero que consciente da sua fragilidade, e de que sem o músico não há música. 

Não pode ser via de regra os músicos se afogarem nas águas gélidas de um naufrágio, cujo navio afunda após bater num iceberg, que tem na parte visível o vírus e a emergência de saúde, e na parte maior e submersa outros problemas, que, em geral, são as verdadeiras causas do naufrágio, que rasgaram o fundo do barco, mas ninguém as via, pois estavam ocultas nas águas turvas e geladas da indiferença e do descaso.

 
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