Captadores vintage: bate-papo com Eduardo Dias da Fullertone Pickups

Captadores vintage: bate-papo com Eduardo Dias da Fullertone Pickups

por 03/12/2020

É muito comum vermos a palavra vintage sendo utilizada para designar diversos tipos de produtos no mercado de consumo. Mas afinal, o que ela quer dizer? 

Sem a menor pretensão de esgotar o tema etimologicamente, podemos dizer que ela é uma palavrinha inglesa derivada do latim “vindemia” e remete à produção de vinhos. Posteriormente, o termo ganhou novo significado e passou a designar algo antigo ou “clássico” que possui características singulares. No mercado de guitarras e captadores o significado empregado não é diferente, mas guarda algumas especificidades, referindo-se ao período inicial da produção de instrumentos sólidos, que remonta às décadas de cinquenta e sessenta e, principalmente, às marcas Gibson, Fender e Gretsch.

Na seara dos captadores vintage para guitarras e contrabaixos, um fabricante tem se destacado pela qualidade sonora e fidelidade aos clássicos, trata-se da Fullertone Pickups, empresa localizada na cidade de Mogi das Cruzes/SP. Capitaneada por Eduardo Dias, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, a empresa oferece uma vasta gama de produtos fabricados artesanalmente (como nos velhos tempos) e atende a fabricantes nacionais de renome no mercado custom shop e a grandes músicos, como Dunamiz Guitars, o guitarrista Davi Moraes, dentre outros.

Ao longo da entrevista ele nos contou como surgiu a ideia de fabricar captadores vintage no Brasil, detalhes sobre o processo de fabricação, diferenciais dos produtos Fullertone e muito mais.

Como surgiu a ideia de fabricar captadores vintage no Brasil?

Eduardo Dias: Estudei na B&H Escola de Luthieria e meu projeto foi construir uma telecaster. Quando chegou o momento de escolher a captação percebi que os fabricantes nacionais usavam o termo “vintage” em seus produtos, mas não seguiam os critérios técnicos corretos de produção para utilizar esse termo. Com relação aos captadores importados fabricados por marcas famosas, também não enxergava um resultado correspondente, sem contar o preço ilógico…  

Em consequência dos fatores citados acima, resolvi procurar meu amigo Marcus Rampazzo, músico experiente, professor, colecionador de instrumentos vintage e grande conhecedor do assunto. Ele tinha uma telecaster modelo 1954, resolvi estudá-la em todos seus detalhes. Depois disso, montei um laboratório portátil para estudar os outros instrumentos que ele possuía. Foi uma experiência ímpar em termos de aprendizado, consegui muitas informações, sendo que grande parte delas definem a linha de produtos da Fullertone.

A procura por este tipo de produto tem crescido?

Eduardo Dias: Sim. As pessoas têm se identificado com os produtos e com o conceito de nossa marca. Além disso, eles também perceberam que mesmo com toda tecnologia e pesquisa investida, nossos preços são bem menores que os modelos importados famosos.

A que você atribui esse sucesso?

Eduardo Dias: Acredito que esse sucesso se deve ao fato de que a sonoridade dos captadores vintage formou nossas referências musicais, pois os grandes artistas das décadas de cinquenta e sessenta utilizavam instrumentos dessas épocas. 

É difícil conseguir matéria-prima para a fabricação dos produtos?

Eduardo Dias: Saber o que se usava naquela época em termos de material é fundamental, inclusive para procurar os fornecedores adequados. A partir de muito estudo e pesquisa conseguimos fornecedores de fios e ímãs fabricados nos Estados Unidos que seguem as especificações antigas, isto é, as mesmas que eram empregadas nos componentes que equipavam os captadores dos instrumentos vintage.

Quais são os prós e os contras dos modelos vintage quando comparados com modelos modernos?

Eduardo Dias: Os pontos positivos são que os captadores vintage são mais definidos e equilibrados, atendendo mais a dinâmica das mãos do músico. Além disso, os modelos bobinados à mão são peças únicas e exclusivas.

Os captadores são customizáveis ou vocês trabalham apenas com modelos pré-definidos?

Eduardo Dias: Existe a possibilidade de customizar, porém temos uma linha já definida e testada com ampla abrangência sonora.

O que mudou no processo de fabricação dos captadores considerando o período inicial para os dias atuais?

Eduardo Dias: Antigamente os captadores eram feitos com bobinamento manual, isto é, o operador da máquina distribuía o fio com a mão aleatoriamente. Também existia o bobinamento automatizado com a distribuição de forma mecânica, mas gerava imprecisão nos demais parâmetros do processo. 

Nos dias atuais, o processo atingiu uma precisão que gera repetição dos padrões nas bobinas, porém é isso que torna o captador moderno inferior no timbre. Entre outros aspectos, esse é um dos principais.

Os captadores Fullertone são enrolados manualmente como era feito no passado?

Eduardo Dias: Todos os produtos da nossa linha seguem exatamente os processos de produção respectivos às épocas em que foram fabricados. Como existiam algumas diferenças, existem modelos que são bobinados à mão e outros que são bobinados na máquina, repetindo a imprecisão que havia naquela época. Tudo é feito de maneira bem fiel, nos mínimos detalhes.

Quais são os diferenciais dos captadores Fullertone?

Eduardo Dias: Todos os nossos captadores foram planejados através de um aprofundado estudo técnico a partir da análise de instrumentos vintage reais que tivemos acesso. Desta forma, conseguimos identificar e desenvolver processos de bobinamento que seguem os padrões antigos. 

Outro grande diferencial é que desenvolvemos um exclusivo processo de envelhecimento magnético dos ímãs, de modo a reproduzir, por exemplo, uma idade de 50 anos de fabricação, tudo de maneira uniforme. Não se trata de um processo degaussed, de desmagnetização ou de submagnetização (também estudei todos esses processos), que não são uniformes e afetam o timbre negativamente. Enfim,  o cliente pode ficar seguro de que estará adquirindo um produto com tecnologia e sonoridade vintage de verdade.

Você oferece muitas opções interessantes aos clientes de acordo com épocas específicas de cada captador. Quais são os preferidos dos clientes? E os seus?

Eduardo Dias: Todos os produtos têm uma boa aceitação e gosto de todos eles igualmente.

Alguma novidade da Fullertone para esta reta final de ano?

Eduardo Dias: Somos uma empresa handmade e estamos desenvolvendo componentes aqui no país, como por exemplo, fios de pano, fios de malha, covers para humbuckers, dentre outros. Desta forma, conseguiremos uma independência no que tange às importações e conseguiremos oferecer um preço reduzido para o cliente sem perder a qualidade do produto final.

Acredito que captador bom não precisa ser caro, desta forma, você poderá substituir os captadores de uma guitarra mais modesta e obter um timbre incrível.

Como adquirir os produtos da Fullertone Pickups?

Eduardo Dias: Temos nosso próprio site com as especificações de cada modelo e links para nossas páginas em redes sociais como Instagram e Facebook. Através desses canais, os clientes poderão entrar em contato conosco para adquirir nossos produtos e sanar quaisquer dúvidas que surgirem.

Maiores informações no site, Facebook e Instagram da Fullertone Pickups.

 

*Autor: Álvaro Silva (ahfsilva@gmail.com) é apaixonado por música, guitarra e luteria. Criador do blog Guitarras Made In BraSil – espaço dedicado à divulgação dos trabalhos de profissionais brasileiros que produzem guitarras, contrabaixos e violões custom shop.