Opinião: O futuro do mercado da música

Opinião: O futuro do mercado da música

por 23/12/2019

Conheça os 7 maiores riscos que advêm da não formação de mercado futuro na música.

As mazelas do mundo dos negócios começam na não observação do óbvio. Às vezes o excesso de teorização dos “especialistas” flerta com o desconhecimento

Tenho imensa aflição ao escrever ou falar sobre assuntos de negócios, de ser confundido com os tais coaches e afins (milagreiros modernos). Fujo de termos desnecessariamente pomposos, apenas narro a verdade.

O básico em qualquer negócio é oferta e procura, e a troca de algo de valores entre as partes. Simples… Mas o que acontece se a procura diminuir? O óbvio…

No mercado musical estamos tendo uma drástica diminuição de interessados em ser músicos, porque não existe incentivo. Por outro lado, trabalho tem realmente faltado aos músicos, o que tem criado uma situação de “remarginalização” dos profissionais, e a pergunta preconceituosa “Você é músico, mas trabalha com quê?” começa a fazer sentido.

A falta de artistas de destaque inspiradores numa nova geração preocupa tanto quanto a ausência de uma cena musical significativa (não estou falando de youtubers tocando virtuosamente, e sim de shows, músicas autorais e a motivação por meio do exemplo).

Podemos estar em vias de um caminho sem volta

1 ) Com a quantidade de e-commerce, sites de serviços e comércio presencial, o não incentivo à formação de novos músicos e entusiastas amadores inverte a pirâmide de oferta e procura, colapsando os setores de atuação diretamente.

2 ) Sem novos músicos profissionais, a virtualidade cria a ausência da necessidade de investimento, torna-se hobby e, com isso, ser bem-sucedido num comércio “hobista” se tornará uma coisa rara.

3 ) Com a ausência de interesse e a falta de oportunidades, sem contar remuneração justa, músicos abandonam o autoral. E com a ausência do novo, em todos os nichos, e toda a questão de direitos sobre obra intelectual e artística estar banalizada, não há o sustentar comercial da música.

4 ) Na ausência de mercado em expansão, remuneração e meritocracia, somem a mão de obra especializada, peritos e especialistas de produto, e também a venda de loja, já que a procura decai.

5 ) No mercado musical, tecnologia sempre é aliada, virtualização sempre é inimiga, pois não são a mesma coisa, e não observar isto gera uma ilusão, que os números de um simples balanço mensal desmascaram.

6 ) Sem investimento na carreira de artistas por parte do mercado, os exemplos que inspiram desaparecem.

7 ) Não estamos numa realidade de ficar parados esperando, ou dispensar a coletividade de esforços, políticos e sociais, de incentivo ao mercado.

Mais ações

A Anafima e a Fremúsica (enquanto associação e como ação no Brasil), e mesmo a Música & Mercado, são passos imprescindíveis para revitalizar o mercado, mas olhar o que dá certo e o que dá errado ao redor do mundo, e não praticar o mau exemplo no quintal, é bem importante.

Via de regra, se você quer vender sapatos, não incentive ou permita o andar descalço, e na importância de vender instrumentos e acessórios, o objeto do desejo deve estar agregado ao sonho, com possibilidade de realização, ou a pessoa não “usa o calçado” da ideia em sua jornada de vida.

Parem de teorizar e ouvir “gurus”, porque é simples. Se as pessoas têm motivação, elas adquirem bens e, por isso, agora mesmo, sair a campo e preparar novos consumidores é necessário.

Independentemente da crise, algumas pessoas não tiram selfies com celulares caros em casas sem reboco?

O que nos afunda não é só pouco dinheiro, mas a frase “VOU SER MÚSICO PRA QUÊ?”.

A única área isenta de formação de mercado futuro é comida, pois as pessoas precisam disso para viver.

Quem quer a segurança e o conforto de no investimento só pensar em compra, venda e preço, pode ter êxito com uma rede de pontos de venda de churrasquinho grego com suco grátis (bem simples, com dependência apenas de ponto em via movimentada, boas margens, treinamento, mínimo de funcionários etc.), e, mesmo assim, a mínima atenção ao mercado é imprescindível.

 

Mas quem lida com o mercado musical não pode se dar ao luxo de ignorar que o mercado da música existe porque a música existe, e a música existe porque o músico existe, e sem a garantia de carreira na profissão, o resto colapsa.

Imagem de Felipe Nunes.