Da ficção científica para a sua loja

Da ficção científica para a sua loja

por 15/04/2011

Etiquetas inteligentes que permitem a localização exata de produtos no estoque, além do controle de quantidade e sistema antifurto

Ao ver aparatos de alta tecnologia em filmes de ficção científica sempre imaginamos como serão os dias distantes em que vão se tornar realidade. No entanto, a tecnologia evolui rapidamente e já temos acesso, em nosso dia a dia, a acessórios antes considerados futuristas, como videochamadas por celular e chips localizadores.

A tecnologia está presente em quase todos os setores da vida humana moderna. No mundo dos negócios, ela é indispensável. É o caso da substituição de banners estáticos por tablets ou telas de LCD, presentes em boa parte dos grandes shoppings, com informativos a respeito de promoções ou produtos vendidos em lojas do local. Porém, esse tipo de dispositivo foca o consumidor final, e não os comerciantes diretamente.

Quais, então, são as vantagens que a tecnologia pode oferecer aos lojistas especificamente? Segundo Fábio Silvestri, especialista em varejo, no Brasil o varejo perde R$ 93 bilhões em vendas por falta de produtos nas gôndolas, e mais R$ 1,2 trilhão graças a mercadorias literalmente perdidas ou furtadas em grandes estoques.

A solução é tecnológica. Radio Frequency Identification (identificação por radiofrequência). É um método de identificação automática por meio de sinais de rádio que recupera e armazena dados por meio de dispositivos chamados de tags RFID.

Etiquetas inteligentes

Uma tag — ou etiqueta — RFID funciona como um pequeno transmissor que pode ser colocado na embalagem dos produtos. Ele contém chips e antenas capazes de responder aos sinais de rádio enviados pela base transmissora, permitindo a localização de determinado item em qualquer lugar do estoque ou da loja.

Segundo Luiz de Paiva, consultor em gerenciamento de projetos da Avantta Consulting, os possíveis benefícios obtidos com o RFID serão muito diferentes de uma empresa a outra, mesmo que atuem no mesmo segmento. “Os responsáveis pela cadeia de suprimento devem conhecer bem as vantagens que o RFID pode oferecer, e quantificar os ganhos que podem ser obtidos em sua empresa. É preciso entender os custos, desvantagens e problemas que podem encontrar”, explicou em artigo publicado no site O Gerente.

Paulo Israel, subgerente da Reference Music Center, conta que o estoque da loja é bem organizado, mas já enfrentou problemas com produtos que constavam no sistema, mas não eram localizados no estoque: “Geralmente isso acontecia por falha humana em não lançar a saída de equipamentos para assistência técnica”. Sobre o sistema de RFID, ele acredita que o investimento seria muito pesado, embora interessante. “Imagine uma empresa que possui 1 milhão de produtos em seu estoque. Você tem de comprar novas etiquetas de uma tecnologia nova e cara. E terá de trocá-las a cada reposição de peças, ou ao efetuar a venda dos equipamentos. É um investimento alto”, explica.

Regiane Romano, CIO da Vip Systems, consultoria e desenvolvedora de sistemas para controle de acesso, acredita que, desde a implantação do código de barras, há mais de 30 anos, o mercado mudou, cresceu e precisa de uma reestruturação. Para ela, o RFID faz parte desse processo. “Algumas coisas parecem caras, mas o que deve ser avaliado é a relação custo-benefício no longo prazo”, explica a profissional de TI (Tecnologia da Informação).

Para lojistas e clientes

Segundo a consultora Romano, essa tecnologia permite que os estoques sejam repostos automaticamente: “Quando o cliente passa a mercadoria no caixa, o sistema registra a venda e o setor de logística emite ordem para reposição de mercadorias”. Ainda de acordo com a especialista, um processo de triangulação de antenas permite reconhecer os produtos a distância (3 a 4 metros de cada antena).

Uma loja da rede de supermercados Pão de Açúcar, inaugurada em São Paulo em 2007, oferece aos clientes o uso de carrinhos PSA (Personal Shopper Assistent). Esse sistema oferece recursos de navegação, apontando, por meio de mapas, a localização de produtos na loja. Segundo a rede, todos os vinhos vendidos na adega estão acompanhados de etiquetas RFID. Os chips permitem que o caixa leia o preço desses itens a distância, dispensando o comprador de retirá-los do carrinho.

O valor de R$ 3,9 milhões foi investido na unidade. Para implementar os recursos de TI, o Pão de Açúcar comprou soluções da Microsoft, IBM, Unisys, Bematech/Gemco, Megamídia, Toledo, Intermeq RR Etiquetas, Cisco, Itautec, Software Express, Vertigo, VirtualGate e CA.

A Honda também já utiliza a ferramenta. “Para o varejo, o desafio está nos valores, pois o sistema compensa, por enquanto, apenas para peças caras, já que o valor da etiqueta RFID equivale a US$ 0,25 atualmente”, complementa Regiane. Para a indústria de instrumentos musicais, por exemplo, o sistema de RFID é considerado uma boa alternativa devido à grande quantidade de produtos, sobretudo os acessórios.

João Carlos Rodrigues, estoquista da Hendrix World Music, acredita que o sistema poderia deixar seu trabalho mais prático. “Acho que seria bem empregado em nosso setor pelo volume de produtos com que trabalhamos. Afinal, o estoque tem quatro pessoas e atende quatro lojas, mais o site. Às vezes o produto consta no estoque e, depois de muito procurar, descobrimos que ele foi levado para outra loja. O problema é que nem todo cliente tem paciência de esperar todo esse processo”, conta. Segundo Carlos, pelo menos para os acessórios a tag seria bem-vinda, pois eles constituem a maior demanda de vendas e, dado o seu tamanho, são os mais passíveis de se perder entre as lojas da rede ou no transporte.

O futuro é agora

Entre os benefícios do RFID citados por Luiz de Paiva estão a redução de processos manuais, em especial na captura de dados, reduzindo a margem de erro; a possibilidade de manter informações atualizadas em tempo real; e a melhora no atendimento, dada a rapidez com a qual funcionários podem encontrar produtos no estoque.

Nos EUA, a empresa Snagg Technology se especializou na implantação de chips RFID e na criação de um registro exclusivo para instrumentos musicais. Eles criaram um sistema antirroubo considerado eficaz por empresas do setor. A norte-americana David Nordschow Amplification (DNA), por exemplo, é uma fabricante de amplificadores que usa essa tecnologia em seus produtos.  “Todos nós já ouvimos histórias de músicos que perderam ou tiveram seus instrumentos favoritos roubados. Com o chip Snagg instalado nos produtos, as chances de recuperação são ampliadas significativamente”, explica o fundador da DNA.

A vantagem do novo sistema de segurança, adotado pela empresa em outubro de 2010, consiste em um código de identificação único, cuja aplicação não permite a retirada do chip sem danificar seriamente o equipamento. “Depois que você pensa a respeito, nota que se trata de uma medida voltada ao cliente, embora aumente o preço das caixas. Isso porque os chips atribuem mais valor aos produtos e os tornam menos interessantes para ladrões em potencial, além de haver 35% de chances de encontrá-lo, diferente dos 0,03% para produtos sem o sistema”, conclui.

No Brasil, o setor de instrumentos musicais ainda não utiliza esse tipo de tecnologia, tanto por não estar familiarizado com ela, quanto pelos custos. No entanto, segundo informações do portal Business Link, do Reino Unido, os custos ligados ao RFID estão caindo gradativamente com o passar dos anos. Uma boa pedida para lojistas e distribuidoras, já que o sistema aumenta a organização e a segurança dos produtos nas lojas. 

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