Consumo x evolução cultural

Consumo x evolução cultural

por 27/07/2007

Cada vez mais os meios de comunicação criam um consciente coletivo que padroniza o comportamento e até as emoções humanas. Estamos ligados a uma visão de mundo em que nossa individualidade é deixada de lado: levamos nossos filhos ao McDonald’s, vestimos jeans e tomamos Cola-Cola. A globalização invasiva extrapola os hábitos de consumo. Repare que até as grandes cidades têm o mesmo visual, os mesmos letreiros luminosos, e até o mesmo cheiro.

Com as modificações sociais e econômicas advindas da globalização, acentuam-se as necessidades criadas que, por meio dos meios de comunicação, acabam seduzindo as pessoas a assimilar novos hábitos e induzem a um consumo exibicionista, conspícuo e às vezes tolo.

Não é difícil compreender, por exemplo, por que certas mulheres têm dezenas de pares de sapato, ou por que alguns compram relógios de milhares de dólares: o glamour, ou a posse exibicionista, existe desde o início dos tempos. Mas o que era privilégio das cortes e monarquias européias e de faraós contamina agora a classe média.

O problema é que as atividades construtivas, como as artes e a música, têm sido deixadas de lado. A prioridade é o culto ao corpo nas academias, ou a compra de cosméticos e roupas, a última palavra em celular, uma TV com tela de LCD, etc. Tudo bem, nada contra o consumo que, no mínimo, serve para amenizar a ansiedade ou o desejo de afirmação pessoal, mas acontece que o orçamento da maioria das famílias de classe média não comporta tudo isso.

Freqüentar uma academia, comprar um novo celular ou estudar piano? Adivinhe qual é a prioridade? Sem querer depreciar, de modo algum, a importância das conquistas tecnológicas, o processo precisa ser repensado. O problema do mundo contemporâneo não é a evolução material, mas a involução cultural. No bojo dessa involução está, entre outras coisas, a decadência das artes. Afinal, quem duvida que nossos programas de televisão e novelas não eram mais inteligentes no passado? Ou que a música popular contemporânea não esbarra no grosseiro? Lembro-me de uma crônica, falsamente atribuída a Luis Fernando Veríssimo, intitulada “Diga não às drogas”, em que o autor, bem-humorado, se confessava usuário de drogas, mas não era a substâncias psicoativas que ele se referia: ele havia ganho um CD de uma dupla sertaneja, gostou e, quando percebeu, estava numa loja comprando CD de pagode. Em seu estágio mais avançado, já consumia o “Bonde do Tigrão”. Mas ele agora está em tratamento para reverter o quadro e precisa de doses maciças de música clássica e de jazz.

Procure reparar que, à medida que a tecnologia progride, parece estar comprometendo a evolução das artes. O computador, por exemplo, é uma máquina abstrata e, quando a arte começou a se utilizar dele, afastou-se da esfera dos sentimentos. O computador é uma ferramenta que ajuda a produzir músicas e artes visuais, mas tudo que produz parece frio e pasteurizado. O computador parece, de fato, uma ferramenta ideal para a evolução da tendência de encarar a arte como se fosse ciência. Ou não é verdade que os comerciais de televisão, produzidos por computador, se assemelham muito?

Outro apelo que torna o consumo exibicionista irresistível é a enorme oferta de crédito, agora em longo prazo e com juros baixos. Uma estatística recente mostra que 57% das pessoas estão em atraso com seus compromissos e 43% são inadimplentes, ou seja, não pagam suas contas há três meses!

O pior de tudo é que a música e a cultura em geral não são responsáveis por esse comprometimento da renda das pessoas. Na verdade, elas estão comprometidas com um tipo de consumo que promove a involução cultural. A grande pergunta que fica no ar é se realmente as pessoas querem a evolução ou preferem se manter no nível da estagnação (ou até mesmo do retrocesso). Nos quadros a seguir, é possível ter uma idéia de como o consumo em geral está cada vez maior no planeta.

Números do consumo
Em 2006, foram vendidos 118 milhões de aparelhos de telefones celulares na América Latina (16% a mais do que em 2005), segundo a empresa de análises Gartner.
No mundo, o número chegou a 990,8 milhões, um crescimento de 21,3% sobre o ano anterior (Gartner).
Para este ano, a previsão é que sejam vendidos 1,2 bilhão de celulares.
No Brasil, de janeiro a maio deste ano foram licenciados mais de 712 mil automóveis, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
As vendas de produtos eletroeletrônicos de consumo tiveram um crescimento de 8,55% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, segundo levantamento da Eletros(Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos).

TVs de plasma e LCD: recorde
 De todos os dados apurados pela Eletros no primeiro trimestre deste ano no Brasil, um em especial merece destaque. As vendas de televisores de plasma e LCD tiveram um aumento de 40% e 251%, respectivamente. Isso se deve à migração dos consumidores que tinham o hábito de comprar as TVs convencionais e estão optando pelos modelos mais modernos.

O Dia das Mães, a segunda melhor data para o setor, favoreceu especialmente as vendas de eletroportáteis, que subiram 18,44% de janeiro a março de 2007. O principal motivo é, além do preço, a constante oferta de lançamentos, estimulando o consumidor à compra. Também entram nesse rol de fatores a redução das taxas de juros e a ampliação dos prazos de pagamento, bem como o interesse dos consumidores em renovar os aparelhos já existentes.