Cem anos de música na mesma esquina

Cem anos de música na mesma esquina

por 29/08/2011

Há um século, prédio no centro da cidade de São Paulo, SP, é exclusivamente voltado à venda de instrumentos musicais

Por Rodrigo Burgarelli*

Em uma cidade que se reinventa a cada dia, é raro encontrar um prédio antigo que continue com a mesma função há mais de um século. O número 22 da Rua Quintino Bocaiuva, no centro da metrópole, é uma exceção. Desde sua fundação, em 1910, o belo edifício de três andares, adornado com estátuas, brasões e decorações ao longo da fachada, tem se dedicado a apenas um (nobre) ofício: a música.

Poucos meses após a inauguração, uma loja de instrumentos musicais foi aberta no térreo, a Bevilacqua. Ela funcionou ininterruptamente por 91 anos e só fechou na década de 1990. Nesse período, a firma de seguros que funcionava no segundo piso deu lugar à famosa Rádio Record, ainda no começo do século. Por causa disso, personalidades como Francisco Alves e até o ex-presidente Getúlio Vargas já acenaram aos pedestres que se abarrotavam abaixo da sacada principal do prédio, bem na esquina da Quintino Bocaiuva com a José Bonifácio.

Hoje, funciona no local a Amadeus, uma casa musical composta por donos e funcionários entusiastas da história do imóvel. Luiz Carlos Bispo, um dos sócios, trabalhava na loja de instrumentos aberta ali desde o fechamento da Bevilacqua. “Quando ela fechou em 2009, eu e outros funcionários achamos um desperdício esse espaço ficar sem utilidade. Aí tivemos a ideia de abrir a Amadeus, que é uma loja completa. Temos desde instrumentos até CDs, LPs e apostilas de música”, conta.

O passado do prédio é importantíssimo para o funcionamento da atual loja, e essa herança cultural começa entre os funcionários. O que mais sabe sobre essa história é Homero França, de 60 anos.  Ele trabalha no mesmo endereço há 16 anos, passou pelas três últimas casas de instrumentos que funcionaram no local e sabe de cor até os menores detalhes do imóvel. “Aquelas escadas pelas quais você passou são originais, de mármore.  Até a grade do elevador é importada, inglesa, veio de navio para cá. E olha esse pé direito de quase 6 metros!”, empolga-se.

Ali mesmo, atrás do balcão, Luiz Carlos guarda um painel com fotos antigas do prédio. A principal data de 1945 e mostra uma multidão de homens de chapéus e grossos casacos sob um letreiro do Repórter Esso da Rádio Record, onde lê-se: “A Alemanha se rendeu em terra, mar e ar, incondicionalmente!”. Ao lado da foto, há um contrato assinado em 1957 entre o sambista Adoniran Barbosa e a Rádio Record. O endereço da empresa, aponta o sócio orgulhoso, é o mesmo da Casa Amadeus.

 

*Rodrigo Burgarelli escreve para o blog Expedição Metrópole, do Estadão, de onde este artigo e fotos foram integralmente duplicados.