Vender: sem maturidade, tortura. Com maturidade, humaniza

Vender: sem maturidade, tortura. Com maturidade, humaniza
agosto 15 17:58 2016

Como vocês devem saber, sou jornalista. Há sete meses moro nos Estados Unidos e, após quatro meses aguardando minha autorização de trabalho, finalmente recebi o aval do governo. Comecei a me inscrever nas mais diversas vagas, inclusive em lojas, porque me disseram que o processo seletivo não seria complicado.

Em duas semanas, fui chamada em quatro redes de lojas de roupas e em um supermercado. Porém, com um pagamento abaixo do salário mínimo e a perspectiva de vender coisas que não gosto de comprar (não suporto shoppings), me desmotivei. Vim pronta pra qualquer coisa, mas passar o dia em um shopping vendendo roupa realmente não me faria feliz. Então, lembrei de uma loja enorme de instrumentos musicais que está presente aqui na cidade e sempre tem inscrições abertas. Em menos de três semanas, comecei a trabalhar como vendedora na área de pró-audio.

Como já tive experiências como Assessora de Imprensa/ Relações Públicas de empresas de tecnologia de áudio, passei por um curto treinamento e fui pra linha de frente. Pela primeira vez na vida me vi na posição de vendedora. E cercada de música. Me descobri altamente competitiva. Talvez graças ao sangue libanês, ou à sensação ótima se ser útil depois de quatro meses parada, ou simplesmente ao amor pela música, que agora me cerca.

Minha jornada de “retail” completa um mês e nesse período aprendi que eu não poderia mesmo ter trabalhado com vendas quando era mais nova! Não tinha paciência, maturidade e empatia suficiente. Além disso, nenhum trabalho em 13 anos de vida profissional me desafiou tanto quanto vender! Vender em inglês, português, espanhol ou fazendo sinais igual aos Chineses do Stand Center. O interesse verdadeiro em oferecer o melhor equipamento de áudio pra pessoa faz uma diferença danada e o mais legal acaba não sendo a venda, mas o retorno do cliente num outro dia, pra perguntar coisas ou comprar mais, porque teve uma boa experiência antes. 

Ajudar latinos, portugueses e brasileiros que não falam uma palavra em inglês é muito desafiador, principalmente porque acabo me envolvendo em vendas de outros setores também (ninguém mais fala português e espanhol na loja). Mas aprendo muito sobre essas pessoas e sobre mim. E cada dia mais vejo que sou latina, que brasileiros são latinos mesmo não falando espanhol, que é sim reconfortante trocar ideia com latinos e ver que nossos problemas são tão iguais. Isso humaniza. É muito legal ajudar um português e ele me dar o cartão do restaurante brasileiro dele e ainda passar umas dicas sobre questões burocráticas da vida de imigrante. É incrível atender uma família da Espanha que acabou de chegar e quer montar um estúdio pro filho mas não conhece nada do assunto. É tudo de bom ajudar uma banda famosa de El Salvador a solucionar um grande problema para que pudessem fazer o show mais esperado de suas carreiras, aqui em Boston.

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Tudo isso humaniza. Tudo isso só confirma que somos tão iguais em nossas diferenças. 

Você, amigo vendedor ou empresa que trabalha com vendedores, valorize cada contato com o cliente com genuína vontade de ajudá-lo a resolver o que precisa, mesmo que isso signifique vender algo mais barato, mesmo que signifique perguntar a um colega especializado. É muito melhor dividir a comissão com o colega que é DJ após umas dicas sobre as pick-ups certas para o cliente do que receber o consumidor de volta na loja, chateado por não ter tido o resultado pretendido com o produto comprado. Isso é parte da maturidade sobre a qual falei, que inclui deixar de lado a vaidade e o orgulho para ser de fato uma pessoa útil à quem o procura.

Vejo pessoas muito chateadas por trabalhar em vendas, que se magoam com a grosseria de clientes que não estão tendo um bom dia ou com a cobrança por metas. Mas a sensação de realização com seu trabalho depende mais de você do que dos números ou das congratulações do seu chefe. Depende 100% da forma com a qual você vê tudo isso. Veja cada cobrança como uma oportunidade de melhorar e cada cliente mal humorado como uma chance de melhorar o dia de alguém por meio do seu bom trabalho.

À todos os colegas vendedores, parabéns pela força de todos os dias.

Com maturidade, a experiência humaniza a gente. Sem maturidade, tortura. Pense nisso e boas vendas.

 

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Mariana Paes
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Mariana Paes é jornalista formada pela PUC-SP, com 13 anos de experiência em comunicação e relações públicas para empresas de música, áudio e artes em geral, musicista, compositora e estuda Music Business em Boston.

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