Sustentabilidade dá negócio

Sustentabilidade dá negócio
setembro 29 15:54 2008

“No planet, no business.” A expressão, que na tradução literal para o português significa algo como “sem planeta, sem negócios”, já soou — e ainda soa — como demagogia para muitos comerciantes e empresários. Num mundo onde o lucro vem em primeiro lugar tanto por sobrevivência como por questões financeiras, ações de sustentabilidade acabam ficando em segundo plano dentro das empresas, certo?

Se você fez sinal positivo com a cabeça após ler a questão acima, talvez seja hora de repensar suas idéias. Ações sustentáveis estão cada vez mais evidentes no mundo dos negócios, colaborando para a alta do lucro das companhias. Além disso, grupos de consumidores já preferem marcas preocupadas com a questão, o que tem originado o lançamento de produtos ecologicamente corretos, por exemplo. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ICV) valoriza empresas listadas.

Assim como marketing um dia foi visto por muitas empresas como investimento desnecessário e hoje é essencial para qualquer pequeno negócio, a tendência é que questões de sustentabilidade ganhem maior espaço nas empresas daqui para a frente.

Aliás, engana-se quem pensa que o conceito de desenvolvimento sustentável, criado há 20 anos pelas Nações Unidas, está relacionado apenas a questões ambientalistas. Na verdade, são três dimensões que envolvem o tema: a econômica, a social e a ambiental, como explica o presidente executivo do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), Fernando Almeida. Segundo ele, empresas que ignoram o tema tendem a desaparecer. Almeida revela que ações sustentáveis se relacionam diretamente com os bens intangíveis, que definem, atualmente, de 75% a 90% do valor de uma empresa. Equipamentos, prédios e terrenos correspondem a, no máximo, 25% do total, diz.

Para complementar o argumento, o presidente do conselho afirma que, em 2020, 75% das 500 empresas que estarão relacionadas na Standard & Poor’s, agência de pesquisa de mercado, não são conhecidas hoje, segundo estudo da própria agência. “As cem sobreviventes certamente serão muitos diferentes do que são agora. Por isso, é preciso considerar o que está no seu entorno”, comenta. De acordo com ele, empresas precisam responder a todas as demandas impostas pela nova realidade, “seja por riscos ambientais, como aquecimento global e escassez de água, seja por riscos sociais, como pobreza e educação, ou por riscos legais e morais”.

Lojas e pequenas empresas

Ser sustentável pode estar por trás de ações simples como economizar energia e água, reciclar materiais, repensar o uso da matéria-prima e da embalagem dos produtos, além de realizar programas de incentivo aos funcionários, como revela Dorli Martins, gestora do projeto Gestão Ambiental do Sebrae-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo). Segundo ela, é comum pequenos empresários acharem que investir em sustentabilidade é assunto para grandes empresas e que não traz retorno imediato. “Por isso, procuramos mostrar como as ações colaboram para o aumento do lucro”, diz.

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No varejo, aplicar ações sustentáveis pode ser até um diferencial competitivo para aumentar as vendas, como diz o consultor em sustentabilidade João Paulo Altenfelder, da consultoria Sei (Sustentabilidade, Estratégia, Inovação). Isso porque, além de economizar com iluminação, água e matéria-prima (as sacolas dos produtos podem ser de papelão reciclado, por exemplo), é possível emplacar uma campanha junto aos próprios consumidores: quando os preços e a qualidade são muitos equilibrados entre dois comércios, o método de desempate para o cliente comprar na sua loja pode estar nesse detalhe. Segundo ele, projetos de sustentabilidade ajudam até na hora de pedir crédito junto ao banco, pois as instituições financeiras entendem que as empresas que investem no setor têm menos riscos. Com isso, os juros podem ficar menores.

Consciência

No entanto, Altenfelder ressalta que, apesar dos resultados financeiros positivos, é importante pensar também nos resultados que tais ações trazem à sociedade. “Para a empresa, investir em sustentabilidade significa garantir o mercado de amanhã. Atualmente, são cerca de seis bilhões de habitantes na terra e a previsão é de que o número salte para nove bilhões em 2050. Serão três bilhões de pessoas a mais no planeta, procurando casa para morar, emprego e alimentação.” A maior preocupação do mercado sobre o assunto pode ser percebida por meio dos 35% de alta no faturamento anual da Sei, que está no mercado há dois anos.

Almeida, do Cebds, acrescenta que o lucro fácil a qualquer preço pode até beneficiar o empreendedor em curto prazo, mas não garantirá a sobrevivência do empreendimento no futuro. “A visão e a realização de lucro precisam considerar a perenidade dos recursos naturais e seus serviços ambientais, assim como a estabilidade política e democrática”, comenta.

A Nike, segundo ele, é um exemplo de empresa que perdeu mercado por envolvimento da marca em denúncia de trabalho infantil na Ásia. Outro exemplo dado por ele é o da sobrepesca de sardinha no Rio de Janeiro, onde empresários do setor não se preocuparam com a preservação da espécie no entorno da Baía de Guanabara, a sardinha desapareceu e as fábricas fecharam.

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Ações sustentáveis no mercado musical

No setor de áudio e instrumentos musicais, não são poucas as empresas que, por meio de grandes ou pequenas ações, praticam a sustentabilidade. Veja a seguir alguns exemplos.

FZ Áudio
A fabricante de produtos de áudio profissional investe pesado em ações de sustentabilidade. Entre os projetos estão a pintura das caixas acústicas com tinta sem solventes, o envio de restos de madeira para reciclagem e a utilização de madeira reflorestada na produção das caixas. A empresa patrocina um projeto de dança para crianças carentes em Diadema, cidade onde a fábrica está localizada atualmente. Além disso, os componentes eletrônicos das mercadorias não contêm chumbo. Isso porque há uma lei naquela região que proíbe a existência do material nas peças, por intoxicar os lençóis freáticos após o descarte.

Segundo o proprietário Fábio Zacarias, todas as ações encarecem os produtos da mercadoria. No entanto, ele acredita que, ao mesmo tempo, agrega qualidade aos produtos da marca. “As soldas sem chumbo, por exemplo, chegam a ser aproximadamente três vezes mais caras”, diz. Ele acrescenta que a madeira reflorestada, que vem do Paraná, também é mais cara. Mas, além da preocupação com a questão ambiental, Zacarias revela que o que resta no mercado são madeiras ilegais vindas da Amazônia que, além de tudo, não são padronizadas. “Apesar de ter custo maior, ao comprar as madeiras reflorestadas eu sei que é um produto que eu vou ter no futuro.” O empresário afirma que ainda não sente a cobrança do consumidor brasileiro sobre o assunto. “É algo bastante incipiente aqui no Brasil. Fazemos as ações mais por consciência do que visando um retorno. Quando vou às feiras no exterior, sinto que as pessoas se importam bastante.” 

Hering Harmônicas
Quando a Hering investiu no setor de alto valor agregado, por meio do lançamento de guitarras customizadas, optou por comprar madeira reflorestada e certificada. A entidade certificadora é o Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC Brasil). Segundo o diretor Alberto Bertolazzi, isso significa que as madeiras são custodiadas desde o corte até a chegada à empresa, para se ter certeza da origem. Segundo ele, mesmo a madeira sendo mais cara, vale a pena investir. “Temos uma série de exemplos no mundo de que o consumidor está disposto a pagar a mais por um produto de quem se preocupa com a natureza”, diz. Aproximadamente 70% das madeiras usadas pela empresa são certificadas.
No setor de instrumentos musicais nacional, Bertolazzi concorda que o movimento ainda é tímido. “No entanto, nos Estados Unidos já aconteceram movimentos de defesa de pinhos cuja madeira é a spruce, usada na fabricação de violões.” O diretor acredita que o mercado musical tem um grande poder de divulgação da importância de ações de sustentabilidade por meio de seus endorsees. “Uma coisa é uma empresa divulgar a ação. Outra são os artistas falarem, no palco, que estão usando determinado produto cuja fabricação é sustentável.”

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Bends
A fabricante de gaitas tem um projeto de sustento de dois abrigos para adolescentes em situação de risco de Ribeirão Pires, cidade onde está localizada a fábrica da Bends. “São jovens que sofreram maus-tratos ou órfãos, por exemplo. Muitas vezes, depois do tratamento, eles voltam para as famílias ou são adotados”, comenta o diretor Melk Rocha.

Weril
A produção dos instrumentos da Weril utiliza banhos de metais pesados (cromo, cobre, prata, zinco e níquel) e ácidos que, se lançados no meio ambiente, podem contaminar os lençóis freáticos. Por isso, a empresa possui uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE), ação exigida por lei. No processo de produção, são geradas cerca de duas toneladas de resíduos químicos por mês, que são direcionados a uma empresa habilitada pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), como explica o químico responsável pelo tratamento, Aldo de Souza Costa.
O coordenador de marketing da Weril, Breno Belotto Novaes, percebe que no mercado de consumo em geral os consumidores valorizam cada vez mais empresas que desenvolvem atividade de caráter ambiental ou social. “Já no mercado musical, ainda não percebemos esse tipo de comportamento.”

SG Strings

A SG Strings investiu na criação de embalagens recicláveis e feitas em papel reciclado para os encordoamentos. Junto com a nova linha dos produtos, criada há cerca de um ano, foi emplacada a campanha ‘Proteja o planeta Terra’ SG Strings. “Veiculamos a ação em todas as embalagens, invólucros e anúncios, para incentivar todos a se preocuparem com o meio ambiente”, disse o gerente de desenvolvimento de produto, Leonardo Schaeppi. Segundo ele, ainda é cedo para mensurar o retorno do investimento, mas a empresa sente a aprovação dos consumidores.

Projeto Escola do Auditório
O Instituto Auditório Ibirapuera, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, possui um projeto de educação musical para crianças de escola pública chamado Escola do Auditório. No setor musical, empresas como Musical Express, Tagima, Contemporânea, Weril, Rico e D’Addario apóiam a ação com o fornecimento de acessórios e instrumentos musicais para as aulas.

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