Sem medo do mercado externo

Sem medo do mercado externo
Maio 13 10:24 2009

Sem medo do mercado externo
Exportadores brasileiros do setor de áudio e instrumentos musicais estão otimistas

Desde a explosão da bomba no cenário econômico mundial, não se fala de outra coisa: recessão. Os últimos dados gerais referentes ao mercado internacional não são motivadores. As bolsas continuam a oscilar, apesar das melhoras; governos de países norte-americanos, latinos, europeus e asiáticos lançaram seus pacotes de ajuda para as economias locais.

Segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais, houve uma redução no estoque de crédito dos bancos universais de US$ 100,9 bilhões já nos primeiros momentos que marcaram o aprofundamento da crise. Sendo assim, os países emergentes começaram a entrar na lista da desaceleração global.

Na América Latina, a queda de exportações também é clara. A Argentina e o Brasil registraram redução em suas vendas em janeiro. No Chile, a baixa foi de quase 40%. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, as exportações brasileiras somaram, em fevereiro, US$ 9,588 bilhões, com média diária US$ 532,7 milhões, valor 20,9% menor que o verificado em fevereiro de 2008.

A boa notícia é que esses dados não estão interferindo diretamente nas exportações dos empresários brasileiros do ramo de áudio e instrumentos musicais, mas trouxeram mais atenção para produtos com qualidade e clientes criteriosamente selecionados. “Sentimos que, principalmente os americanos, estão nos especulando. Todos estão focados na crise como algo ruim. Por outro lado, coisas boas estão ocorrendo. Muitas empresas que estavam produzindo artigos ruins a qualquer preço provavelmente  desaparecerão”, comenta o sócio-diretor da empresa de amplificadores Meteoro, Ocimar Ferreira. Ele acha que produtos de valor agregado se destacarão e continuarão no mercado externo. “A grande sacada é minimizar custos de maneira adequada para continuar competitivo, cuidando sempre do alto nível de suas propriedades.”

Segundo Marcelo Segati, gerente de projeto da Associação Nacional dos Fabricantes de Instrumentos musicais e Áudio (Anafima), as exportações nacionais aumentaram nos últimos meses. Para ele, os dados gerais da economia são apostas em teorias que não contemplam o mercado do setor devido ao pequeno valor das transações comerciais. “Certamente faltarão recursos de financiamento para as exportações de países como EUA, Europa e Japão. Isso é mais um motivo para os empresários brasileiros venderem seus produtos lá fora, particularmente nas Américas Latina e Central; especialmente na Venezuela, México e Guatemala”, orienta Segati.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) demonstram que as importações brasileiras de instrumentos musicais ficaram praticamente estáveis entre janeiro e fevereiro de 2009. “Por outro lado, as exportações cresceram 123% no mesmo período. Isso fez com que o saldo da balança comercial para o setor ficasse menos deficitário (–13%)”, comenta Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Nelson Eduardo V. Weingrill, diretor da empresa de saxofones e metais Weril, diz que suas exportações estão estabilizadas e que, no final de 2008 e começo de 2009, houve uma incerteza entre os comerciantes. “Vemos uma retomada gradual de negócios e existe uma grande expectativa em torno da Musikmesse, feira anual que ocorre todos os anos em Frankfurt, na Alemanha. Nossa porcentagem de exportação antes da crise era de 30% e agora é de 25%. Temos como meta retomar os 30%. Fomos pegos de surpresa, mas nossa exposição ao risco internacional (crédito a clientes) vinha sendo cuidada e não tivemos problemas por causa da crise.” Para ele, a melhor alternativa para a indústria do ramo é trabalhar com empresas sólidas e bem relacionadas no mercado.

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Já a fabricante de baterias e equipamentos para percussão Odery Drums chegou a exportar 20% de seu faturamento total, mas esse dado caiu para cerca de 10% com o dólar no valor em que estava (R$ 1,7). “Nós nos mantivemos nesse patamar com a esperança de um acréscimo devido ao câmbio um pouco mais favorável que se apresenta atualmente. No caso brasileiro, acredito que o cenário irá melhorar gradualmente, voltando a um patamar sustentável de vendas”, opina o proprietário Maurício Odery. O empresário está otimista e continua: “Acho que os importados serão substituídos em alguma escala pelos nacionais e o mercado continuará em ritmo de crescimento.”

Um futuro promissor

Confira na íntegra a entrevista com Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

>> Segundo as projeções Fiesp – Exportações de Industrializados, nos 12 meses encerrados em junho/2008, as exportações registraram um crescimento de 11,2%. Para os 12 meses encerrados em junho/2009, a pesquisa Fiesp aponta um crescimento em valor de 0,8% das exportações de industrializados. Como você avalia esse cenário?
Devido à inclusão de novas informações, o valor de 0,8% registrado na pergunta foi revisto para –8,3%. Temos também nova previsão para os 12 meses encerrados em julho de 2009 — as exportações devem cair 14,1% no período.
Na esteira da desaceleração econômica global, o comércio mundial deverá registrar forte contração em 2009. A Organização Mundial do Comércio (OMC) estima uma redução do quantum de comércio mundial da ordem de 9% em 2009. Neste contexto, os prognósticos para as exportações de produtos industrializados brasileiros para o ano de 2009 não são nada animadores. As exportações de industrializados registraram um recuo em valor de 51% em fevereiro de 2009 em relação ao seu pico atingido em setembro de 2008. Essa forte queda ilustra bem a dimensão do choque adverso enfrentado pelas exportações brasileiras de industrializados e, dessa forma, oferece subsídios à forte deterioração das expectativas para esse setor em 2009.

>> Com a queda dos PIBs dos EUA, Europa e Japão, a demanda por produtos estrangeiros desabou. Isso está afetando o financiamento ao comércio exterior?
A dificuldade para o financiamento ao comércio exterior é bem captada pelos números referentes ao Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC), que aumentaram muito após a eclosão da crise. Ao compararmos o spread praticado pelos bancos sobre os ACCs em janeiro de 2009 com o mesmo período de 2008, percebemos o aumento na dificuldade encontrada pelos exportadores brasileiros para financiar sua produção, pois o spread em janeiro de 2008 estava em 3,9% ao ano, enquanto que, no mesmo período de 2009, subiu para 7,4% ao ano.

O total de crédito concedido para ACC sofreu redução de praticamente 50% desde o início da crise. Em agosto de 2008, as concessões acumuladas em ACC foram de US$ 4,2 bilhões, ao passo que em janeiro de 2009 foram de US$ 2,2 bilhões.

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>> Na América Latina, a queda de exportações também é clara. A Argentina e o Brasil registraram redução em suas vendas em janeiro. No Chile, a baixa foi de quase 40%. Em sua opinião, como ficarão as exportações brasileiras nos próximos meses?
A diminuição nas exportações em tempo de crise é um fenômeno comum, isto é, está sendo compartilhada por todos os países do mundo, sejam eles desenvolvidos ou emergentes. Mais do que a queda em si, o que salta aos olhos são as suas magnitudes, que não encontram precedentes na história recente. Os dados disponíveis para o comércio mundial vão até novembro de 2008 e, assim, capturam apenas os primeiros meses do impacto da crise. Mesmo assim, considerando a comparação novembro de 2008 e o pico registrado em julho de 2008, constata-se uma redução de 11% no volume de exportações mundiais. Já com relação aos preços das commodities, estes caíram significativos 54% na comparação de fevereiro de 2009 com seu pico atingido em junho de 2008. Carregando essa nova realidade para o Brasil e outros países em desenvolvimento, exportadores líquidos de commodities, não resta dúvida de que esses países estão sentindo um duro impacto nas suas exportações, realidade essa que deverá perdurar ao longo do ano de 2009.

Vale destacar que a diminuição nas exportações referida na pergunta deve ser vista como uma queda acontecida no início de uma grave crise econômica mundial. Certamente, ao longo dos próximos anos haverá uma recuperação. Porém, os patamares de crescimento econômico observados no período anterior à crise serão atingidos de forma bem mais lenta e gradual, ou seja, não voltaremos aos patamares anteriores de crescimento de forma rápida.

>> O que fazer para não cair nas armadilhas da crise financeira mundial, sobretudo quando se fala em exportação? Quais a melhores alternativas para a indústria de instrumentos musicais?
O melhor alinhamento cambial é algo favorável para a indústria neste momento de crise, pois a conquista de mercados externos via qualidade dos produtos se torna bem mais favorável. Apesar desse ganho em termos de taxa de câmbio, existe uma contrapartida, que é a diminuição da demanda externa. Nesse caso, devem-se direcionar mais investimentos ao comércio exterior. Outro fator que também deve ser levado em consideração é a busca da melhoria na qualidade dos produtos exportados.

Em suma, a crise financeira mundial está afetando todos os setores produtivos da economia. A demanda está diminuindo e o crédito está muito difícil.

>> Segundo o Ministério do Desenvolvimento, as exportações brasileiras somaram, em fevereiro, US$ 9,588 bilhões, com média diária de US$ 532,7 milhões, valor 20,9% menor que o verificado em fevereiro de 2008. Isso pode ser um reflexo da crise mundial?
Certamente, a crise financeira mundial está influenciando, e influenciará, o comércio internacional como um todo. Há dois fenômenos caminhando em direções opostas: de um lado, a desvalorização cambial é fator importante para o crescimento das exportações brasileiras; de outro, a queda do comércio internacional prejudicará o setor exportador brasileiro. Soma-se a isso o problema do financiamento ao comércio exterior já discutido anteriormente.

>> Neste momento, qual é a melhor opção da indústria para exportar para a América Latina, Europa e Ásia? Quais são as ações do governo para amenizar essa crise?
Em relação ao comércio exterior, a melhor opção é o mercado onde o cliente tem capacidade de comprar e honrar seus compromissos. Isso significa que o empresário deve escolher o cliente e não o país. E isso é algo muito peculiar de cada empresa e cada mercado.

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No tocante às ações governamentais, gostaríamos de pregar otimismo, mas o fato é que o crescimento da indústria deverá acompanhar o ritmo da economia nacional como um todo. A Fiesp já fez simulações que mostram claramente que, caso o BC siga com uma estratégia gradualista de queda da taxa Selic (com esta encerrando o ano em 10,25%, como projetado no relatório Focus de 27/02/2009), o crescimento do PIB brasileiro ficaria bem próximo a zero, com elevada probabilidade de recessão. Por outro lado, caso a autoridade monetária reduza a taxa Selic, por exemplo, para 8,50%, o crescimento do PIB convergiria para o intervalo entre 1,0% e 1,5%.

Algo necessita ser feito para que o agravamento da crise mundial não afete tão fortemente a economia brasileira. Isso requer medidas governamentais e desonerações fiscais, tais como: 1) queda na Selic, alcançando, o quanto antes, entre 7% e 8% ao ano; 2) reuniões quinzenais do Copom (enquanto durar a crise); 3) redução drástica dos spreads bancários; 4) ampliação do número de integrantes do Conselho Monetário Nacional (de três para sete membros); 5) colocação em prática de normas já existentes nas leis trabalhistas brasileiras para que fique mais flexível a relação entre trabalhador e empresa.

>> Quanto a indústria de instrumentos musicais exportou nos meses de janeiro e fevereiro deste ano? E as importações?
As importações brasileiras de instrumentos musicais ficaram praticamente estáveis entre janeiro e fevereiro de 2009. Por outro lado, as exportações cresceram 123% no mesmo período, e isso fez com que o saldo da balança comercial para o setor ficasse menos deficitário (–13%).


>> Gostaria de salientar algo importante que não foi comentado?
É sempre bom salientar que grande parte da solução dos problemas econômicos enfrentados pelo Brasil atualmente passa por ações mais enérgicas do governo. O ciclo de queda da taxa básica de juros da economia (atualmente em 11,25% a.a.) ajuda, mas não resolve. São necessários cortes mais agressivos para que os juros brasileiros fiquem entre 7% e 8% ao ano. Para tomar decisões mais rápidas, o Copom também deveria se reunir com frequência quinzenal. Este é o ponto de partida para qualquer ação no sentido de conter a crise enfrentada pelo País.

Os números estão aí para comprovar a queda da atividade econômica no Brasil. O País registrou uma das maiores quedas de PIB no 4º trimestre, com perda de 5,3 pontos percentuais em um único trimestre. 
Reformas estruturais, como já é de amplo conhecimento de todos, são necessárias principalmente as seguintes: reforma política, trabalhista, previdenciária, fiscal e tributária. O Brasil precisa dessas reformas e de eficaz desburocratização para que sejam criadas condições para a retomada do crescimento econômico.

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