Opinião: A China em processo de destroçar a indústria brasileira do áudio

Opinião: A China em processo de destroçar a indústria brasileira do áudio
dezembro 03 09:34 2018

A China em processo de destroçar a indústria do áudio no Brasil. Como reverter este quadro? Protecionismo ou abertura?

No início de novembro de 2018, os associados da ANAFIMA – Associação Nacional da Indústria da Música, receberam o seguinte chamado de seu presidente: “Agenda Prioritária do Setor para Presidência, Governadores e Deputados”. Sem ter acesso as respostas, arrisco dizer que muitas das demandas foram de cunho protecionista – clamando ao Presidente eleito para que a indústria nacional seja protegida dos chineses… afinal, há um consenso de que a China está em pleno processo de destroçar a nossa indústria… seja áudio ou não.

Porém, seria mesmo esta uma demanda sensata? Estamos mesmo olhando para as verdadeiras causas da doença? Sim, a nossa indústria está de fato morrendo de alguma doença crônica – mas será que não estaremos nos apegando somente aos sintomas?

Convido, pois, a uma reflexão.

O que ocorre na China? Por que seus produtos são tão mais baratos, mesmo quando consideramos apenas os de alta qualidade? Qual o milagre? E por que não conseguimos fazer o mesmo?

Alguns dizem que a China é uma “bolha”. Mas olhando para a pujança do crescimento de seu PIB, ano após ano, já há mais de uma década… fica difícil acreditar! Hoje a China é a segunda economia do planeta – deixando o terceiro colocado longe! A continuar assim, em poucos anos será a primeira, superando os Estados Unidos.

Outra “história” contada é a do trabalho semi-escravo, que os trabalhadores chineses trabalham muito, ganham pouco, e etc. Mas será mesmo? Basta uma pesquisa na internet para comprovar que não. Hoje, o trabalhador industrial chinês ganha, em média, 33% a mais que o seu colega brasileiro. Apenas na última década os salários dos chineses triplicaram, enquanto que os brasileiros tiveram perdas reais de cerca de 7%.

Onde está então o pulo do gato?

Para entender, vamos olhar para um case asiático clássico: A Coréia do Sul.

Nos anos 1960 a Coréia do Sul era um país arrasado pela pobreza; sub-desenvolvido e com uma população basicamente analfabeta. A renda média do trabalhador Sul-Coreano era a metade do trabalhador Brasileiro. No entanto, a partir daí passou a investir alto em educação e a estimular a formação de empresas. Até que no final dos anos 1970 já exibia indicadores econômicos parecidos com os do Brasil – e é aí que começa o nosso estudo de caso. (Somente este já seria um muito bom!)

Em 1980, a renda média do trabalhador Brasileiro e a do Sul-Coreano eram iguais – correspondiam a cerca de 20% da renda média do trabalhador Norte-Americano. Havia então uma espécie de “competição” entre as duas nações para ver qual modelo de desenvolvimento seria o mais bem sucedido a longo prazo.

O Brasil, então governado pelos militares, havia passado por um período de grande desenvolvimento de sua infra-estrutura, e agora, impulsionado por estes ganhos, apostava no modelo de substituição de importações com adoção de barreiras protecionistas, para desenvolver a sua indústria. Neste modelo, o objetivo é produzir sobretudo para o mercado interno, restringindo tanto quanto possível as importações através de uma série de barreiras, como tarifação múltipla sobre as importações e diversas barreiras não-tarifárias: leia-se muita burocracia e regulamentações – as famosas “jabuticabas”. Esperava-se então que, protegida nesta “ilha” e supostamente blindada de concorrência estrangeira, a indústria brasileira se desenvolvesse. Uma iniciativa famosa dessa época foi a reserva de mercado de informática (PNI). Um dos seus slogans dizia: “Reserva de Mercado – em defesa dos valores nacionais”.

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Já a Coréia do Sul, imersa em um ambiente de forte cunho liberal na economia, juntamente com outras nações asiáticas, apostou na receita exatamente oposta: inserir-se nas correntes mundiais de comércio – sem adotar nenhum protecionismo, com baixos impostos sobre importações, burocracia simplificada, ausência de regulamentações inúteis e sem “jabuticabas” – em resumo: adotou as boas práticas mundiais. Nesse contexto, visava a produzir principalmente para o mercado externo.

Passados 35 anos, qual o resultado da “competição”?

O resultado é que fomos literalmente SURRADOS!

Hoje, a renda média do trabalhador Sul-Coreano é de 66% da renda média do seu colega Americano. Enquanto que a renda média do trabalhador Brasileiro é de 18% do Americano! Eles mais que triplicaram sua renda, enquanto nós “conseguimos” piorar o que já era ruim! Além disso, hoje, qualquer produto produzido no Brasil custa, em média, mais de quatro vezes o que custa no mercado globalizado.

Ora, com toda essa eficiência produtiva, os coreanos e os outros asiáticos, chineses inclusos, facilmente conseguem superar os nossos ridículos impostos e “jabuticabas” que, em vão  – e às custas do nosso povo – impomos aos produtos importados! Apesar dos altos impostos que cobramos e de todas as dificuldades que inventamos, os produtos importados ainda chegam aqui mais baratos que os nossos!

E a nossa indústria? A que viveu 35 anos protegida na “ilha”? Se desenvolveu como o esperado? O contrário disso! Em 1980 a produção industrial brasileira correspondia a cerca de 33% do PIB. Hoje ela responde por algo em torno de 13%… Se olharmos para o nosso mercado de Áudio, veremos que neste período empresas brasileiras icônicas fecharam e outras, apesar das gigantes que eram, se  tornaram irrelevantes…

Hoje a Coréia do Sul abriga marcas valiosas como Samsung, LG, Hyundai, Kia, Posco (a quarta maior fabricante de aço do mundo), SK Hynix (a segunda na produção mundial de chips eletrônicos) e etc. E aqui, temos alguma empresa deste porte?

É necessário e urgente refletir profundamente acerca das causas deste tremendo fracasso… desta surra, desta vergonha!

Onde está o problema da indústria do áudio no Brasil?

A partir da constatação de que a eficiência produtiva brasileira é, em média, quatro vezes menor quando comparada com os dos países asiáticos, não poderemos nós mesmos tentar entender qual seria o problema?

Afinal, se eles conseguiram, por que nós não podemos conseguir também? Quando foi que perdemos esta ambição?

Para encontrar o problema, lembremos da “competição”. O modelo de desenvolvimento adotado pela Coréia do Sul (e por outros asiáticos, como: China, Taiwan, Singapura, etc.), tem como premissa básica inserir-se nas correntes mundiais de comércio, visando principalmente o mercado externo.

Comparar a economia de diferentes países é algo complicado, existem muitos fatores em jogo; mas será que não podemos encontrar setores, aqui mesmo no Brasil, que operam mais ou menos nessa linha e ver como eles estão se saindo? Claro que sim.

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Sabemos que no Brasil operam várias empresas estrangeiras e de capital estrangeiro, que por imposição de suas matrizes são fortemente globalizadas (o nosso Banco Central faz todo ano um censo destas empresas). Através destes dados sabemos existir aproximadamente 20.000 empresas de capital estrangeiro operando hoje no Brasil, de todos os setores e sabemos que elas, juntas, respondem por cerca de 33% do nosso PIB. O mais interessante, porém, é que estas empresas empregam somente 3,5% da força de trabalho hoje em atividade no Brasil.

Agora, façamos as contas: um pequeno contingente de 3,5% da nossa força de trabalho, os que estão nestas empresas estrangeiras globalizadas, geram 33% do nosso PIB! Portanto, os outros 96,5% da nossa força de trabalho geram os restantes 66% do PIB…

A comparação é de tirar o fôlego! Vamos entender direito: um pequeno contingente de 3,5% dos nossos trabalhadores produzem um terço do nosso PIB – enquanto que a turma restante gera os outros dois terços – uma diferença de produtividade de 14 vezes!

É como se tivéssemos uma Coréia do Sul aqui dentro (e ainda mais eficiente do que ela). Um pequeno “setor moderno”, altamente produtivo, convivendo com uma maioria extremamente atrasada… E pasmem! A produtividade deste “setor moderno” é 14 vezes maior que a dos “atrasados”!

É válido perguntar: mas por que as habilidades deste “setor moderno” não migra, de alguma forma, para o “setor atrasado”? Será algum segredo misterioso?

Antes de responder é necessário entender o que as faz ser tão melhores. É certo que a boa gestão advinda de suas matrizes e/ou investidores estrangeiros contribui sim, mas lembrem-se que estamos aqui falando de muitas e muitas atividades diferentes – tudo misturado. E má gestão existe em todo lugar, aqui e lá fora.

Mas então, o quê, afinal de contas, estas empresas do “setor moderno” têm em comum que as faz ser tão melhores? Seja o que for, é certo que tal habilidade não depende apenas do “querer ser melhor”, caso contrário, os pobres coitados que estão no “setor atrasado” já teriam, de alguma forma, iniciado sozinhos esta mudança – afinal, quem não quer ganhar mais?

RESPOSTA: o que as faz ser tão melhores é a sua presença nas correntes internacionais de valor – leia-se: Abertura!

Poder receber dinheiro de investidores estrangeiros, importar máquinas e equipamentos modernos para melhorar a produtividade, comprar e vender ativamente com o mundo todo, competir com eles… ISTO é o que as faz ser tão melhores!

Porém, o pessoal do nosso “setor atrasado” jamais conseguirão ingressar nas correntes internacionais de valor sozinhos – por vários motivos. Além disso, antes precisamos que os nossos governos façam várias reformas; afinal eles perderam a mão desde há muito tempo, permitindo que as coisas chegassem ao ponto trágico em que nos encontramos hoje.

O que é necessário para o mercado do áudio crescer no Brasil?

O mesmo que é necessário a todos os outros setores brasileiros. Em uma economia moderna e globalizada não podem existir “privilégios” – se um determinado setor crescer e outro não, todos no final pagarão por isso! Subsídios, classificação fiscal diferenciada, um determinado setor ter alguma isenção fiscal… Todas estas fábricas de desigualdades têm que ser BANIDAS! Essa receita de “aliviar” para alguns poucos setores “privilegiados” colocando o dobro nas costas do resto é perversa e ineficiente – e o resultado é visto hoje com muita clareza.

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Afinal não resta dúvida que o grande desafio do novo governo é retirar as pessoas do setor atrasado e fechado da economia e colocá-las no setor moderno e aberto – e para começar, nada melhor que BANIR privilégios!

Abertura comercial – A mãe de todas as reformas

A mãe (ou avó) de todas as reformas é a Abertura. E hoje o Brasil é um dos países mais fechados do mundo. Em qualquer amostragem relevante de países médios ou grandes (e deixando de fora aberrações como Venezuela, Cuba, Coréia do Norte, etc.) o Brasil sempre aparece nas últimas colocações em abertura comercial.

Estas mesmas amostragens mostram, de forma avassaladora, que as últimas colocações sempre são ocupadas pelos países mais pobres do mundo. Por outro lado, as primeiras colocações sempre são ocupadas por países ricos. Sem exceções! Parece mais um ranking da riqueza! Está tudo na internet, basta olhar e comprovar.

Estatísticas internacionais indicam as empresas do nosso “setor moderno”, as de capital estrangeiro, têm um nível de comércio exterior que é apenas 20-30% da média internacional. Se a estas empresas fosse permitido operar a sua plena capacidade, leia-se: engatar plenamente nas suas cadeias internacionais de valor – pensem em quanta riqueza poderia ser gerada!

E ainda temos que modernizar o nosso “setor atrasado”. Se o novo governo lograr retirar os 96,5% da nossa força de trabalho do “setor atrasado” da economia, fazendo com que a sua produtividade – repito: apenas destes “atrasados”, aumente em, digamos, dez vezes, o nosso PIB saltaria dos atuais US$ 1,8 tri para US$ 12 tri – superaríamos a China!

Mas para que a abertura funcione, o governo tem que, ao mesmo tempo, fazer várias outras reformas – as empresas do nosso “setor atrasado” sobrevivem hoje oprimidas por um sistema tributário caótico, leis trabalhistas ultrapassadas, alto custo de capital, excesso de burocracia, infraestrutura deficiente, baixa confiança dos investidores e insegurança jurídica. Tudo isto agravado e amplificado pela gastança, irresponsabilidade e corrupção governamental dos últimos anos. Não é pouca coisa… Devemos ficar de olho!

Enfim, o “tratamento” para salvar a nossa indústria moribunda e para o nosso país crescer de forma sustentável, passa pela abertura comercial – ela é uma estrada perfeitamente pavimentada e sinalizada – todos os caminhos passam por ela e não chegaremos a lugar algum sem ela – ou acabaremos onde não queremos estar!

Todos os dados e indicadores apresentados neste artigo foram abundantemente divulgados na última campanha presidencial pelos assessores econômicos dos candidatos e estão todos disponíveis na internet. Além disso, a linha básica das ideias e propostas apresentadas são divulgadas, de forma muito competente, pelo Instituto Millenium, a cujo web site o autor recomenda visitas regulares: https://www.institutomillenium.org.br

 

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Marcelo Barros
Marcelo Barros

Físico com Mestrado em Conversão de Potência. Obteve seus B.Sci e M.Sci pela Universidade Federal de São Carlos, importante centro de pesquisas no interior de São Paulo, onde foi aluno de grandes mestres, incluindo um dos pesquisadores que colaboraram no desenvolvimento dos transistores MOSFETs. Apesar de jovem, pode ser considerado um veterano do áudio, onde atua desde 1992. Desenvolveu projetos em quase todas as áreas, especializando-se em amplificadores e fontes chaveadas. No período de 2004-2006 liderou o projeto do primeiro amplificador digital profissional com fonte chaveada produzido em série no Brasil.

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