Organismos e organizações

Organismos e organizações
maio 17 11:30 2007

Entender como funcionam os mecanismos de uma empresa e, principalmente, a interdependência entre eles, é o grande desafio do gestor moderno.


Houaiss define organismo como um corpo constituído por órgãos ou outras estruturas que interagem fisiologicamente, executando os diversos processos necessários à vida. E organização como uma estrutura, um inter-relacionamento regular das partes que constituem um ser vivo. Portanto, fica claro que organização e organismo são conceitos que se sobrepõem e se complementam ao mesmo tempo.


O modelo organizacional predominante das décadas de 1940 e de 1950 era o burocrático, uma estrutura altamente hierarquizada que colocava as pessoas em papéis restritos e na qual só podiam se comunicar com aqueles que estivessem um nível acima ou abaixo das suas posições. Com o passar dos anos, no entanto, algumas empresas foram se tornando mais flexíveis e permitiram a interação de seus funcionários com pessoas de outras organizações, mas com o mesmo nível hierárquico.


Essa visão antiga da organização como uma reunião de processos que podiam ser isolados e tratados individualmente sem prejuízo para o todo acabou. Até a década de 1990, era comum esse pensamento linear em que se dividia ao máximo todo o processo organizacional, com o objetivo de buscar uma maior eficiência para cada um. A esperança era de que, ao se resolverem as partes, o todo também seria resolvido. Inúmeras tentativas foram realizadas especialmente com a reengenharia, mas a grande maioria falhou. 


O principal motivo do fracasso dessas ações foi o esquecimento de que todos os processos organizacionais são interdependentes e, na verdade, a comunicação e a interação destes tornam-se mais importantes que qualquer um isoladamente. Em suma, as organizações são complexas, a vida é complexa. Snowden fez uma interessante distinção entre o que é meramente complicado e o que é verdadeiramente complexo. “Um avião é complicado”, ele diz. “Quando alguma coisa é complicada é porque ela tem diferentes partes e interações. No entanto, pode-se chegar a conhecer, entender e gerenciar todas essas partes e interações. Já quando alguma coisa é verdadeiramente complexa é porque possui tantas variáveis que fica impossível de realmente conhecê-la, entendê-la ou gerenciá-la.”

Leia também:  Leác’s cada vez mais moderna

As organizações são uma interseção de sistemas de engenharia, ditos complicados, com sistemas humanos que são orgânicos, auto-organizados e complexos. Por isso, a aplicação do pensamento linear pode até resolver alguns processos como produção e logística, mas somente o pensamento sistêmico, ou seja, aquele que enxerga o todo, é que ajudará no entendimento das dinâmicas dos relacionamentos e no trabalho com múltiplas e interdependentes variáveis, incluindo-se aí o complexo universo dos sentimentos, das mentes e da inteligência humana (ALLEE, V. The future of knowledge: increasing prosperity through value networks. Burlington-MA: Butterworth Heinemann, EUA, 2003).


Você com certeza já ouviu histórias de filhos de empresários que percorrem todos os departamentos ou processos da empresa visando criar uma idéia do todo e, conseqüentemente, aprender com isso. Sem dúvida, isso é válido, mas uma pessoa sozinha dentro de todo o contexto da organização não consegue fazer a integração de todos os setores desta.


É preciso criar um espaço e um tempo para que tanto os empresários quanto os seus colaboradores possam conhecer o funcionamento desse ser vivo (a empresa em que trabalham), com toda a sua complexidade de relações. Eles necessitam estudar tanto o seu ambiente interno quanto o externo (concorrência, fornecedores, clientes, órgãos reguladores, etc.). Assim, todos teriam uma visão do contexto em que a organização está inserida e surgiriam idéias para que esta encontrasse o seu verdadeiro diferencial, a sua vantagem competitiva.


Tenho observado que a maioria dos lojistas e empresários do nosso setor encontra-se em dúvida quanto ao futuro de seu negócio. Há certo receio de crescer e criar dificuldades ainda maiores no gerenciamento das suas empresas. Isso parece um contra-senso, já que a tendência natural de qualquer organização é evoluir, progredir. Por que então surge essa dúvida? Na verdade, esses empresários ainda não conseguiram mudar a sua forma de pensar. Continuam com aquele pensamento linear enraizado em crenças e culturas e concluem que, quanto maiores forem as suas organizações, maiores serão também os problemas que irão enfrentar.

Leia também:  Ex(im)portar é preciso, pensar é preciso

De fato, promover essa mudança de paradigma não é uma tarefa fácil, mas não existe outro caminho. Aprender a trabalhar com a complexidade requer mais do que simplesmente mudar a forma de fazer as coisas. Exige uma mudança muito mais profunda, a mudança da maneira de pensar. Enxergar a organização como um organismo, um ser vivo, que interage o tempo todo com seus ambientes internos e externos, é o grande desafio do novo gestor. O gestor do complicado e do complexo.


Eduardo Vilaça é representante comercial, administrador de empresas e consultor em comércio exterior, mestrando em Gestão do Conhecimento e Tecnologia de Informação na Universidade Católica de Brasília. E-mail: [email protected]

Comentários
view more articles

About Article Author

MM
MM

Música & Mercado é uma revista empenhada em promover e divulgar o mercado e negócios para a indústria de áudio profissional, iluminação e instrumentos musicais. Nós amamos o que fazemos.

View More Articles