OPINIÃO: Salve as florestas, salve o setor

julho 03 14:10 2012

A maioria dos instrumentos musicais é feita de madeira e madeira acaba. Como buscar alternativas às madeiras que costumamos usar? Sim, é possível e já vem acontecendo

Por Alberto Bertolazzi*

De acordo com dados da FAO (Food and Agriculture Organization), órgão das Nações Unidas, as florestas cobrem, hoje, uma área de cerca de 4 bilhões de hectares, o que equivale a 30% da superfície terrestre. Essa superfície florestal se reduz anualmente em 13 milhões de hectares e essa perda líquida se reduz para 7,3 milhões graças a projetos de reflorestamento e à expansão natural das florestas existentes. Dez países concentram dois terços desse patrimônio: Brasil, Congo, Índia, Indonésia, Peru, Austrália, Canadá, Rússia, Estados Unidos e China.

Após a Rússia, o Brasil é o país com maior área florestal do planeta, possuindo em seu território cerca de 52% das florestas da América Latina e a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, onde a biodiversidade é tão exuberante que, em 1 hectare (10 mil m2) de floresta chegam a existir cem tipos de árvores diferentes.

Jacarandá, imbuia, mogno, granadilha

Pois bem, para preservar esse patrimônio, onde estão os instrumentos musicais produzidos com madeiras legais, provenientes de florestas certificadas e exploradas de uma forma justa, de maneira a remunerar adequadamente as comunidades extrativas?

Praticamente não existem. Pelo contrário, a indústria da música é uma das culpadas pela extinção ou escassez de alguns tipos de árvores mais adequados para a confecção de instrumentos musicais. Esta é a realidade do jacarandá, da imbuia, do mogno, da granadilha e do pau-brasil, este último, há 250 anos explorado para a manufatura do arco do violino sem nada ter sido feito para preservar ou replantar esse tipo de árvore. Assim é também com o spruce do Alasca, fadado a desaparecer nos próximos 20 anos se o atual nível de extração continuar.

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Ações muito tímidas, e praticamente inócuas, foram realizadas por alguns fabricantes de guitarras — aliás, não entendo por que, quando se fala em música e madeira certificada, isso logo se relaciona à produção de guitarras. E os fabricantes de pianos, baterias, instrumentos de percussão, instrumentos de corda, amplificadores? Todos deveriam participar desse esforço.

Inovar para sobreviver

É verdade, a construção civil, a indústria moveleira e a indústria de pisos consomem muito mais madeira do que a indústria de instrumentos musicais, mas devemos ressaltar dois pontos. O primeiro é o da responsabilidade social: todos temos o dever de proteger o meio ambiente. O segundo está ligado à visibilidade do instrumento musical. Embora todos os setores sejam importantes e precisem assumir as suas obrigações, é evidente que uma guitarra é mais visível do a viga de uma casa. Imaginemos, por exemplo, um pop-star dizendo que usa um lenço de papel proveniente da celulose de uma floresta certificada. Agora imaginemos o mesmo astro tocando seu instrumento musical em uma plateia com milhares de espectadores, divulgando a ideia da sustentabilidade e ele mesmo dando o exemplo usando um instrumento ecologicamente correto.

Por que a indústria da música nada ou pouco faz para produzir instrumentos adequados? Por que não toma a iniciativa de tantos outros setores, como o automobilístico, cada vez mais empenhado em produzir um carro verde?

Comece já

A executiva de um grande fabricante de violões declarou que viaja o mundo à procura de madeiras adequadas, já que, pelas propriedades estruturais e de tonalidade, não se pode fazer um instrumento com qualquer coisa. No entanto, fato é que um laboratório no Brasil detectou mais de dez madeiras adequadas, existentes em boas quantidades, para o corpo de uma guitarra, cerca de seis para a confecção do braço e da escala do mesmo instrumento, isso comparando-as com as tradicionalmente usadas pela indústria. Outras pesquisas poderiam ser produzidas para todos os setores da música, quem sabe financiadas pelos próprios fabricantes.

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O que desejo salientar aqui é que, se foram criados modismos estabelecidos em uma época de abundância, a indústria precisa se adaptar e pesquisar novas madeiras para a fabricação de instrumentos musicais. E elas existem; talvez não na mesma cor ou mesma aparência, mas com propriedades tão boas quanto as das utilizadas hoje. Por exemplo, a adirondack spruce, utilizada por décadas para a fabricação de violões, hoje não está mais disponível e foi substituída pela sitka spruce. E os violões feitos de birch e cerejeira? Ambas as madeiras são certificadas e tanto agradam ao grande músico Orianthi.

Sabemos quantos anos serão necessários para recuperar uma mata ciliar ou uma floresta, ou despoluir um rio? Sim: décadas. Então por que não começarmos logo?

O que queremos daqui a 50 anos

Disponho-me a fazer duas sugestões. A primeira se refere ao reflorestamento com espécies notoriamente adequadas à fabricação de instrumentos musicais. É mais fácil e menos oneroso do que parece e o Estado do Acre nos dá um bom exemplo, já que criou há alguns anos um viveiro que produz 4 milhões de árvores nativas por ano, como o mogno e o pau-ferro. Os acreanos ajudam a reconstruir a mata ciliar e geram trabalho para mais de mil famílias de diversas comunidades, que terão madeira adequada, em boas quantidades, graças a novas tecnologias de plantio e irrigação, dentro dos próximos 20 anos. Parece muito tempo?

Chris Martin IV, representando a sétima geração de fabricantes dos famosos violões Martin, falou em entrevista sobre as dificuldades de se obter as madeiras para os seus violões. Declarou que gostaria de ter começado a fazer algo 50 anos atrás. Bem — digo eu —, vamos começar agora, em larga escala, ou então os seus descendentes dirão a mesma coisa daqui a outros 50 anos.

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A segunda sugestão é mais objetiva e eficaz em curto prazo. Com certeza, o não oferecimento e a falta de divulgação de uma linha de instrumentos musicais produzida a partir de madeira certificada ou de manejo sustentável é a incerteza de se obter e a falta de continuidade no oferecimento dessas madeiras.

Eu uso

Nenhum fabricante se comprometerá seriamente a produzir tais instrumentos e promover campanhas publicitárias se não tiver certeza de contar com essas madeiras em uma quantidade razoável e constante: esta é a realidade.

Nesse caso, existem diversos projetos cujo objetivo é exatamente obter apoio e investimentos. E de onde deverão vir esses investimentos? Provavelmente da própria indústria da música ou de investidores institucionais envolvidos em projetos ambientais.

Os grandes bancos, por exemplo: uma pequena parte do que eles gastam em campanhas publicitárias já viabilizaria muitos projetos na área da sustentabilidade.

Al Gore encerra as suas palestras mostrando que não podemos fazer nada para proibir a fabricação de armas, a construção de usinas nucleares e combater o terrorismo, mas podemos fazer alguma coisa, individualmente, para diminuir a devastação do meio ambiente.

A guitarra que eu uso para me acompanhar quando resolvo cantar alguma música romântica para a minha mulher é feita com madeira certificada com selo verde do Forest Steward Council. E a sua?

*Alberto Bertolazzi é CEO da Hering Harmônicas

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