O beijo de Judas

O beijo de Judas
março 13 15:17 2009

O beijo de Judas
Qual é o melhor caminho para o setor de áudio e instrumentos musicais? Continuar a crucificação ou partir para a renovação?

Este artigo é dedicado à época em que vivemos e aos vários tipos de homens com quem convivemos. Contudo, enganam-se aqueles que acreditam estar à frente de uma pregação evangélica, mesmo porque não tenho a intenção, nem a competência de fazê-la. Vamos analisar, sob o ponto de vista secular, um dos atos mais conhecidos e execráveis da humanidade e como esse estudo pode ajudar o empresário do comércio de instrumentos musicais e áudio.

A semelhança entre Jerusalém de dois mil anos atrás e os tempos atuais é de incertezas sobre o futuro imediato, com a população reclamando da cobrança escorchante de impostos, bancas de camelôs por todos os lados e autoridades comprometidas com o poder dominante. Nessa tormenta cultural normalmente surgem indivíduos inconformados.

Um dos mais conhecidos, Judas Iscariotes, aparentemente desiludido com seu líder, o trai com o mais carinhoso gesto de amizade: um beijo no rosto. Todos os evangelistas anotaram o autor e seu ato, descrevendo-o nas passagens do Novo Testamento: Marcos 14, 43-46; Mateus 26, 46-50; Lucas 22, 47-48 e João 18, 3-8. O que teria acontecido a todas as religiões cristãs se Judas não tivesse dado esse beijo?

Hoje, com uma forte crise internacional batendo às nossas portas, qualquer lojista do nosso setor vive cercado de ‘Judas’ contemporâneos e seus beijos pós-modernos. Entre eles, os mais conhecidos são grandes clientes que se esquecem de cobrir seus cheques na data do pagamento; gerentes de banco que não renovam contratos de crédito, sem apresentação de novas garantias; fornecedores, antes ‘parceiros por toda a vida’ que cortam prazos de pagamento e aumentam preços; consumidores que testam produtos na loja para depois comprá-los mais barato em sites da internet; e empregados que migram para a concorrência por alguns reais a mais.

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Não sou adepto de jargões, mas ‘ninguém merece’ tantos Judas juntos. Principalmente aqueles últimos, que levam consigo (escondidos em pen drives e consciências duvidosas) o cadastro de clientes tão duramente acumulado em anos de trabalho. Sem falar os que, às vezes, estão na gerência, sociedade ou na própria família.

Nada afeta negativamente um negócio ou uma loja estabelecida e bem administrada a não ser a vontade do próprio dono. E é com ele que me preocupo. Aos tocados por traiçoeiras beiçolas, restam os sentimentos de raiva e revolta, que por sinal são compreensíveis e ‘fazem parte’, outro jargão que não cabe na gramática, mas reforça o conceito no texto. No entanto, é preciso estar atento para não persistir em tal estado de espírito, que pode conduzir à ‘crucificação’ do lojista. A cruz a que me refiro é a fase depressiva que, uma vez instalada, só poderá ser resolvida com ajuda médica adequada. Isso porque a depressão masculina é muito mais arrasadora do que aquela que acomete o sexo feminino, segundo depoimento de especialistas.

Voltando à pergunta formulada no segundo parágrafo deste artigo, certamente a história seria muito diferente se Jesus caísse na tentação da amargura pelo ato traiçoeiro de Judas. Pelo contrário, ao aceitar o cálice da Vontade Divina para seu destino, ele renovou toda a humanidade pelo seu exemplo. Portanto, pergunto novamente ao caro leitor: que caminho escolherá se estiver vivendo, agora, tal momento de revolta e raiva: continuar na crucificação ou partir para a renovação?
Nesse ponto entra nossa experiência própria, com lições aprendidas com centenas de lojistas e representantes comerciais que tivemos o privilégio de conhecer ao longo de 30 anos de trabalho no mercado de instrumentos musicais e áudio. Pessoas extraordinárias que, ao lerem este artigo, lembrarão certamente que escolheram a renovação, seguindo em frente, esquecendo as ‘traições’ e aprendendo que tais ‘beijos’ contribuíram para o despertar de indivíduos e empresários melhores.

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Por respeito a eles, não revelarei nomes, mas seus exemplos, entre tantos, devem ser mencionados. Um lojista paulista, fustigado duramente por clientes maus pagadores, nunca desistiu nem mudou de ramo. Transformou a ‘cara’ de uma rua inteira na capital de São Paulo, fazendo prosperar novamente sua loja no mesmo local. Outro, baiano, obrigado a fechar suas portas depois de sofrer com promessas não cumpridas nas mudanças urbanísticas da prefeitura de sua cidade, recomeçou e prosperou a ponto de comprar a antiga loja na qual começou como ajudante.

Dois representantes comerciais, um ex-lojista alijado da sociedade por motivos familiares e outro, arrastado à infâmia por um amigo, são hoje referências nacionais do setor,  superando incontáveis lábios traiçoeiros, alguns muito recentes, continuamos construindo uma marca respeitadíssima no mercado brasileiro de acessórios para instrumentos musicais e áudio.
Se podemos nos renovar, por que os leitores em dificuldades não poderão?

Em tempo: para aqueles que desejarem saber o que ocorreu depois do beijo de Judas, sugiro a leitura dos Atos dos Apóstolos 1, 16-20.

Rogério Raso é engenheiro mecânico, com MBA em Gestão de Empresas e Finanças. Atua como empresário e escreve regularmente sobre gestão para revistas especializadas. E-mail: [email protected]

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