Música nas Escolas: Contagem Regressiva

Música nas Escolas: Contagem Regressiva
Janeiro 20 15:21 2010

Contagem regressiva

Com a aproximação da implantação da lei de música nas escolas, o mercado já começa a se movimentar para se adaptar à nova realidade. Prepare-se para as mudanças que vêm aí. Quem demorar mais para se movimentar pode ficar para trás!

Por Itamar Dantas

A Lei de Música nas Escolas é a grande promessa para os empresários do setor musical brasileiro. Pesquisas já realizadas indicam números muito favoráveis para a indústria e o varejo do setor de instrumentos musicais. Segundo dados da Francal, produtora da Expomusic, até 2012, quando vence o prazo para a implantação da lei, o faturamento do segmento deve dobrar, chegando a R$ 1,2 bilhão, e o número de estudantes de música também deve aumentar, dos atuais 5 milhões para 34 milhões no País.

É de olho na expansão do mercado que os fabricantes já começam a lançar produtos infantis, mas não só, pois ainda promovem ações de incentivo ao ensino de música. O ano de 2010 será decisivo para definir suas estratégias e, para isso, vale a pena conferir o que já está sendo feito.

A Musical Izzo, por exemplo, já trabalha com instrumentos infantis há mais de cinco anos. Nessa linha, possui diversos produtos: bateria, guitarra, bandinha para musicalização, violão, saxofone, instrumentos de percussão e flauta doce, além de acessórios como baquetas. A empresa vem reforçando esse segmento. Segundo a diretora de marketing Simone Storino, a empresa também está trabalhando com um projeto de workshops e treinamentos para professores e lojistas: “O objetivo é mostrar os benefícios do ensino musical infantil e quanto isso pode auxiliar no desenvolvimento intelectual e na personalidade das crianças”, explica.

Com mais tempo nessa estrada, a Quirino Instrumentos Musicais já fabrica produtos para esse nicho há 20 anos. Com foco em instrumentos percussivos e de sopro, a empresa tem produtos específicos para crianças de 2 a 9 anos, e pretende expandir seu volume de produtos, mas de acordo com a demanda. “Trabalhamos com estoque mínimo de material e fabricamos conforme a demanda. Essa segmentação é oscilante. Somos realistas e ’dançamos conforme a música’. Estamos preparados para o que o mercado pedir”, explica a consultora de vendas da empresa, Célia Siqueira.

Concorrência com os games

A centenária Giannini trabalha com produtos voltados para o público infantil há mais de 60 anos. A empresa possui dois produtos específicos: o violão ½ para crianças de até 7 anos, e o violão ¾ para crianças de 7 a 12 anos. E aguarda informações mais precisas sobre como será implantada a lei para definir suas ações. De acordo com Flávio Giannini, diretor da empresa, a expectativa é que os instrumentos mais usados sejam a flauta doce e instrumentos de cordas, respectivamente. A empresa aguarda ansiosa a entrada da lei e antecipa uma nova realidade para o mercado: “Precisamos continuar investindo na qualidade dos produtos, pois com a musicalização nas escolas, os clientes ficarão mais exigentes”.

Já a Michael começou no segmento em outubro de 2008, com o lançamento da marca Michael Club. Dentre suas estratégias para os novos produtos, a empresa está desenvolvendo parcerias com lojistas para divulgação no ponto de venda com o uso dos personagens que compõem a imagem do Michael Club, criando um espaço lúdico que atrai tanto os pais quanto as crianças. Para Daniel Soares, gerente de marketing da Michael, a lei de música nas escolas propicia uma abertura de mercado enorme para o setor e deve ser explorada tanto pelos fabricantes quanto pelos lojistas para incrementar as vendas.

No lado do varejo, o lançamento das linhas infantis traz expectativas, mas ainda não representa uma realidade de vendas. A Eletrônica Musical, por exemplo, localizada em Fortaleza, CE, começou a vender esses produtos há oito meses. Nesse nicho, os instrumentos mais vendidos são a bateria e o violão, mas a representatividade no faturamento total ainda é muito pequena.

De acordo com João Carlos, diretor comercial da loja, a concorrência com brinquedos e aparelhos eletrônicos ainda pesa na hora da escolha do cliente. “Os instrumentos infantis são muitas vezes até mais caros que os instrumentos tradicionais. Isso se explica pelo fato de que tais produtos não são de brinquedo e, na mente da maioria, se uma guitarra normal custar R$ 300,00, a infantil será R$ 150,00, por exemplo, e isso não acontece”, explica João.

O que diz a lei?

A lei que traz de volta a educação musical para as escolas do Brasil foi aprovada no dia 11 de agosto de 2008 e definiu o período de três anos para que seja efetivamente implementada em todo o território nacional. Quanto ao conteúdo, as recomendações do MEC são as de que os alunos aprendam noções básicas de música, além de cantos cívicos, ritmos, danças e sons de instrumentos regionais e folclóricos para abranger a diversidade cultural do Brasil. As aulas de música serão ministradas na disciplina de artes, que também continuará com as outras atividades artísticas: dança, teatro e artes plásticas.

Outra característica é não ser necessário o ensino de música em todos os anos dos ensinos fundamental e médio. Indefinição que o MEC promete especificar até 2011. Segundo Helena de Freitas, coordenadora-geral de Programas de Apoio à Formação e Capacitação Docente de Educação Básica no Ministério da Educação, “o objetivo não é formar músicos, mas oferecer uma formação integral para as crianças e a juventude. O ideal é articular a música com as outras dimensões da formação artística e estética”.

As atividades já começaram em Brasília para que o projeto saia logo do papel. “Uma ação conjunta entre os ministérios da Cultura e da Educação está promovendo fóruns regionais por todo o Brasil para garantir o comprometimento das secretarias municipais e estaduais de Educação com a lei de música nas escolas”, conta Felipe Radicetti, autor do projeto que se transformou em lei. “Essa mobilização pretende trazer para todas as cidades do País o comprometimento político com o projeto e sua implantação”, enfatiza. 

Outro aspecto que já começa a ser analisado é o aumento da demanda de profissionais qualificados para o ensino de música. O número irá aumentar exponencialmente e as ações do governo para qualificação dos professores devem atuar em duas frentes: capacitando os profissionais que já dão aula na disciplina de artes para o ensino da música; e ensino pedagógico para músicos qualificados que possam dar aulas nas escolas. Ou seja, o governo deverá atuar em diversas frentes para suprir as necessidades de melhorias que o ensino musical trará para a educação no Brasil.

Tire suas dúvidas com quem domina o assunto

A Música & Mercado conversou com Felipe Radicetti, autor do projeto que se transformou na Lei 11.769 de obrigatoriedade do ensino de música nas escolas, para esclarecer as principais dúvidas que vêm dominando o mercado. Veja como funcionará a lei e aproveite 2010 para trabalhar e expandir definitivamente seus negócios com a implantação da nova legislação.

A lei que insere a música nas escolas altera a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996?

A LDB é exatamente onde a nova lei atua. A lei 11.769 atua sobre o artigo 26 da LDB, para que não haja interpretação da lei. Da forma como estava escrito, era possível entender que poderia haver o ensino de alguma outra coisa que não fosse música. Agora, a música precisa estar presente na educação.

Com a lei, o ensino de instrumentos musicais nas escolas se torna obrigatório?

O conteúdo das aulas não está especificado, porque isso já está detalhado nas diretrizes curriculares vigentes do MEC. Essas diretrizes têm uma visão moderna do ensino e uma abordagem flexível, permitindo que se respeitem as diferenças das regionalidades do Brasil.

O professor precisa ter licenciatura em música? Como você avalia essa questão na nova lei?

Como não existe nenhum dispositivo legal que esteja determinando mudança, vigora o que já estava na LDB. O professor precisa de um curso de Licenciatura em Artes. E, com isso, ele precisa estar preparado para dar aulas de teatro, cinema, dança, música e tudo. O próprio Ministério da Educação está considerando necessários não apenas os professores já qualificados, mas também músicos que possam se capacitar para dar aulas. Para isso, o Ministério da Educação está promovendo, em parceria com
o Ministério da Cultura, vários fóruns regionais junto às secretarias de Educação municipais e estaduais para ampliar a discussão em relação à contratação de professores. Essa ação está promovendo uma mobilização em nível nacional e dando visibilidade à lei, o que me permite dizer que é irreversível a implantação da educação musical no Brasil hoje. Isso vai acontecer!

Na prática, já se sabe como será essa capacitação de professores e músicos? O que você acha da educação a distância?

Ainda não existe um documento fechado, que deve ser elaborado pelo MEC em breve. Mas, pessoalmente, acho que o ensino a distância é um instrumento excelente para universalizar a educação musical nas escolas. Principalmente nos lugares onde não existe uma universidade próxima. Nas grandes cidades não há problema, porque as universidades poderiam promover esses cursos de curta duração. Mas no interior do País as secretarias de Educação podem ser os instrumentos para viabilizar essa formação continuada a distância.

Como está o andamento da implantação da lei?

Há várias iniciativas ocorrendo antes mesmo de os ministérios estarem com toda a estrutura montada. Por exemplo, a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba já está trabalhando para universalizar o ensino de música nas escolas. E, segundo a administração, essa universalização será implantada antes do prazo final dado pelo governo. É lógico que nas grandes cidades essa transição, para a universalização da educação nas escolas, se dará de forma mais rápida. No interior, a implantação precisa ser mais trabalhada e isso torna a ação interministerial muito importante para a implementação da lei.

Como a iniciativa privada pode ajudar na implantação da lei?

De forma geral, o País inteiro percebeu a situação complicada pela qual passa a educação. Já existem inúmeras iniciativas do setor privado para melhorar o ensino público. Os fabricantes do setor de instrumentos musicais podem ajudar imensamente na implementação dando suporte político, ajudando na divulgação e doando recursos financeiros para alguma escola ou instituição que necessite de suporte. Músicos, empresários do setor e educadores devem se unir e trabalhar para promover o ensino da música. O empenho e o engajamento do Executivo e do Legislativo já são sinais de que estamos no caminho certo. Uma orientadora educacional me enviou um e-mail dizendo que havia um grupo de pessoas apostando que essa lei não ‘pega’. E eu respondi que quem está apostando isso já perdeu, porque é inteiramente irreversível o processo de implementação dessa lei. O engajamento do Executivo e do Legislativo é tão grande que é impossível a revogação dessa lei. É mais fácil haver a revogação da República do que não acontecer a volta da lei de música nas escolas! E, para 2010, a campanha pela lei tem de continuar. A lei tem de ganhar as ruas. Precisa haver um verdadeiro engajamento da população em relação à lei de música nas escolas.

SE LIGUE!

A Lei de Música nas escolas:

• NÃO traz para os ensinos fundamental e médio aulas de instrumentos musicais.
• Ainda não se definiu em que séries dos ensinos fundamental e médio a disciplina será lecionada.
• A música será ensinada na disciplina de Artes, mas é o único conteúdo obrigatório.

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