MERCADO: Toma lá, dá cá

MERCADO: Toma lá, dá cá
julho 03 15:13 2012

A economia é a ciência que se assemelha a uma grande balança, onde o que é interessante para uns prejudica outros, e a ação voltada para um fim específico tem seus reflexos em diversos setores. Entenda melhor as últimas ações do governo e acompanhe um pequeno cenário econômico para o futuro do setor

Por Itamar Dantas

A crise europeia vem assolando o mundo com possibilidade de se estender para outras economias do planeta. E, para combater seus possíveis reflexos no Brasil, o governo federal lançou uma série de medidas econômicas para estimular o consumo, afastando, assim, o ‘fantasma’ da crise.

Uma das ações mais simbólicas desse momento foi a pressão, através dos bancos estatais, Caixa e Banco do Brasil, para a diminuição da taxa de juros em empréstimos pessoais e financiamentos. Com maior acesso ao crédito, a população consome mais, movimentando a economia.

Segundo estimativa da Fecomércio, Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, a redução dos juros cobrados pelos bancos nos empréstimos e financiamentos vai liberar uma quantia entre R$ 8,5 e R$ 10 bilhões para o consumo em 2012.

Esse valor é equivalente a cerca de 1% do total de R$ 850 bilhões previstos para as vendas do varejo em 2012. A representatividade da ação do governo ainda é pequena em relação ao todo, mas a ação tem impacto positivo.

Para a assessora econômica da Fecomércio, Simone Bernardino, apesar do cenário otimista, ainda há muitas ações que se deve implantar para diminuir as taxas reais de juros ao consumidor. “As ações que o governo vêm promovendo para reduzir os juros são sempre positivas, no entanto, a magnitude desses cortes não chega ao consumidor final. Em sua composição, o banco superestima a taxa de inadimplência, considerando em sua maioria algo em torno de 11% na medida em que o histórico do Banco Central mostra que essa taxa de inadimplência não passa de 7,5%. Ou seja, há espaço para redução dos juros ao consumidor, principalmente no componente inadimplência”, defende a consultora.

Em paralelo a essa medida, o governo também diminuiu a taxa Selic (juro que o governo cobra para emprestar dinheiro aos bancos) para 8,5% ao ano, o nível mais baixo já registrado desde 1999. O presidente da Câmara Nacional de Dirigentes Lojistas, CNDL, Roque Pellizzaro Junior, avaliou, em nota, a redução de juros pelo governo federal. “Esse novo corte é um estímulo ao mercado doméstico, o que é boa notícia não só para o governo como para nós, lojistas, porque com juros menores efetivamente sobra mais dinheiro no bolso das pessoas para elas gastarem”, disse.

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Ação, reação do mercado

E como tudo tem dois lados, quando o consumo é estimulado, uma das consequências diretas é a temida inflação, pois se há menos produtos no mercado, os preços tendem a subir, diminuindo novamente o poder de compra do consumidor. No setor de instrumentos musicais, essa relação não se dá tão diretamente assim porque seus produtos estão no final da lista de importância. É apenas se sobra dinheiro em caixa que o cliente vai investir em uma guitarra, um violão ou um amplificador novo.

A medida mais comum de controle da inflação é a variação da taxa de juros, a Selic, por exemplo. E se os juros aumentam, há reflexos em todo o mercado. Porém, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que o governo não irá aumentar as taxas de juros caso os preços subam, e avisou que dispõe de uma série de outras intervenções para manter os preços sob controle. “O importante é que, diferente dos países avançados, que às vezes já não têm política monetária para instituir nesse quesito, o Brasil tem muita. Tem muito lastro. Essa é a nossa diferença”, garantiu Mantega.

Blindagem de produtos estrangeiros

Com o intuito de dar mais força à indústria nacional em relação aos produtos importados, o governo federal também desvalorizou o real em relação ao dólar, o que, a princípio, torna o comércio de produtos fabricados no País mais atrativo para o consumidor doméstico.

Contudo, se por um lado o real mais fraco incentiva a compra de produtos nacionais, de outro, para indústrias que dependem da importação de componentes para a fabricação de seus produtos, o aumento do dólar também tem consequências nos custos de produção. Se o dólar está mais caro, o preço desses produtos também aumenta, o que acaba por encarecer o processo.

Na fabricante de baterias RMV, por exemplo, o custo da importação de componentes impacta em um aumento de 3% a 4% no preço final, enquanto os produtos importados têm alta de cerca de 20%, favorecendo a concorrência da empresa nacional em meio aos importados.

Sim, as importadoras sofreram de forma mais abrupta essas mudanças no câmbio. Joey Gross Brown, gerente de vendas da Quanta Music, salienta que a companhia foi pega de surpresa com o aumento do dólar e teve que repassar a diferença aos lojistas. “Em setembro passado, tínhamos balizado nossa tabela de preços sobre um dólar inferior. Nesse sentido, o aumento da taxa de câmbio em favor da moeda americana exigiu uma análise rápida e precisa por parte da Quanta. Resolvemos não alterar os preços até que o dólar quebrou a barreira dos R$ 2,00. No entanto, preparamos o mercado para isso. Trabalhamos com os lojistas um cronograma de quando esse aumento iria ocorrer. Quando se faz a coisa em parceria com o lojista/cliente, tudo fica mais fácil de administrar e implantar”, garante Joey.

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Para os lojistas, as medidas tiveram impacto negativo. Com a alta do dólar, o aumento precisou ser repassado aos consumidores e a diminuição dos juros ainda não se refletiu como deveria no estímulo ao consumo.

Segundo Anderson Menezes, gerente de compras da loja Made in Brazil, a loja já apresentou pequena queda nas vendas desde a divulgação dessas medidas. “A alta do dólar Influencia praticamente 100%. Ainda mais aqui na Made in Brazil, onde temos uma porcentagem muito pequena de produtos nacionais. Tudo é comprado em dólar e, queira ou não, a diferença é repassada. A baixa na taxa de juros ainda não teve resultado em aumento nas vendas. Eu não trabalho com financiamento direto. A maioria dos produtos é vendida no cartão de crédito. Com isso, as vendas caíram um pouco, algo em torno de 15%”, conta.

Baixo crescimento econômico

O PIB, Produto Interno Bruto (veja o que é na pág. XX), demonstra que a preocupação do governo federal em blindar a economia nacional da crise externa faz todo o sentido. Em 2011, o PIB cresceu pouco, apenas 2,7% e, no início de 2012, não demonstrou resultados empolgantes. No primeiro trimestre, o PIB cresceu apenas 0,2%, resultado que já tem feito com que os economistas recalculem a estimativa oficial para o ano de 2012, que era em torno de 3% e 3,5% de crescimento, e agora está um ponto abaixo, entre 2,5% e 3%.

Associações de empresários, tanto da indústria quanto do comércio nacional, apontam serem insuficientes as medidas tomadas pelo governo. A Fecomércio, por exemplo, salientou no primeiro semestre que a grande pedra no sapato do desenvolvimento da indústria nacional ainda é a alta taxa tributária. “A melhor maneira para estimular o consumo de produtos nacionais é reduzir a carga tributária do produto nacional (como foi feito com a desoneração do IPI para certos produtos) e não criar mais barreiras à importação”, afirmou a instituição em nota à imprensa.

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O setor de instrumentos musicais e a crise

Empresários da indústria nacional de instrumentos musicais concordam com a defesa da Fecomércio. Anselmo Rampazzo salientou a importância do câmbio em relação ao custo de seus produtos, mas ainda defende que o principal problema da indústria brasileira está no alto custo tributário, principalmente naquele que recai sobre a folha de pagamento. “Um funcionário meu de chão de fábrica, que ganha em torno de R$ 1 mil, custa para mim em torno de R$ 2 mil. É necessário diminuir os encargos trabalhistas. Preciso de um funcionário para trabalhar e ele precisa do emprego. Eu não quero pagar menos para o funcionário. Eu até quero pagar mais. Mas que ele não me custe o dobro dentro da empresa”, defende o empresário.

A diferença de preço entre os produtos nacionais e importados se dá muito por essa diferença na tributação dos produtos, entre os manufaturados aqui e os do exterior, com incentivos fiscais bastante atraentes. Mas uma coisa é certa: fabricantes nacionais e de outros países estão de olho no crescimento da renda do brasileiro, principalmente com a famosa ascensão da classe C.

Cada vez mais, empresas com produtos sofisticados e caros têm investido no País com o objetivo de alcançar essa parcela da população, que está com maior poder de compra. É o caso, por exemplo, da Sennheiser, que espera um aumento de 25% no seu faturamento no Brasil, com a ampliação de sua linha de produtos e criação de uma estrutura interna no País para controlar diretamente suas operações. “Estamos trabalhando para o futuro, e com certeza contrataremos mais pessoas. Precisamos ter estrutura para o nosso crescimento, para ter certeza de que poderemos fazer o que queremos”, disse o diretor-geral da Sennheiser para a América Latina, Markus Warlitz.

Essa disputa pelo mercado nacional não é novidade em terras tupiniquins. Competição similar se deu na época da abertura às importações no governo Collor, em 1991. Lembra-se? Se a população está com dinheiro e o mercado lá fora está saturado, é aqui que grandes companhias vêm buscar seu lucro. Enquanto isso, medidas mais incisivas em favor da indústria brasileira são defendidas por especialistas e entidades. Todo mundo quer sua parcela do mercado brasileiro.

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