A esperança de um novo momento para formação de artistas

A esperança de um novo momento para formação de artistas
fevereiro 17 16:22 2016

No dia 20 de janeiro tive a oportunidade de estar no evento que oficializou a união de duas respeitadas instituições de ensino: Berklee College of Music e Boston Conservatory.

A celebração, chamada Let’s Dance, ocorreu no Berklee Performance Center, e reuniu alunos de ambas instituições, corpo docente, diretores e comunidade.

Entre belas performances de estudantes das duas escolas, diretores de seus conselhos de administração e seus respectivos presidentes falaram sobre a união, que começou a ser desenhada há três anos, a partir da ideia de somarem forças para, de alguma forma, oferecerem algo único e enriquecedor. “É um casamento, a união de duas famílias. É uma atitude de coragem, confiando na criação de algo diferente para o futuro das artes”, disse Richard Ortner, presidente do Boston Conservatory, que agora passa a acrescentar o sufixo “at Berklee” ano nome.

Eu, como futura aluna da universidade e apaixonada pela dança, vejo essa novidade como algo rico e único! A instituição passará a ser a que mais oferece programas relacionados à música do mundo, reunindo o que cada uma tem de melhor. Muito mais do que isso, o estilo mais moderno da Berklee se somará à história do Boston Conservatory, ligada à formação de músicos eruditos, profissionais de dança e teatro. Ou seja, a nova faculdade não formará apenas músicos excelentes, mas artistas mais completos, com visão mais ampla. Uma onda de alegria tomou conta de mim com a possibilidade de incluir na minha grade curricular disciplinas relacionadas à dança e ao teatro. Que enorme oportunidade, que grande passo!

Em minha experiência com as artes, as três vertentes (música, dança e teatro) sempre estiveram intimamente ligadas, uma potencializando a outra. Tanto que só passei a me enxergar como uma musicista depois que meu corpo destravou no palco com ajuda da dança e do semestre de aulas de teatro que tive no curso técnico. Antes disso, eu era quase inexpressiva. É edificante a possibilidade de não apenas olhar um pedacinho do vasto mundo artístico, mas entender todo um universo de infinitas possibilidades oferecidas pela integração de seus conceitos, formas e teorias.

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Boston ConservatoryPorém, não me surpreendi quando soube por diversas fontes que alguns colegas, alunos das duas escolas, não olharam com tanto entusiasmo para a novidade. Compreendo que muitos de nós somos resistentes à mudanças (já dei muito murro em ponta de faca com colegas músicos, principalmente). A gente fica na nossa caixinha ali, na zona de conforto. O que não é de todo mal porque vamos a fundo em nossos interesses, mas estudar temas que vão além da formação inicial abre horizontes, conhecer outras manifestações artísticas pode inclusive nos dar uma perspectiva sobre o que pretendemos criar, pra quem e qual nosso objetivo com isso, qual nossa missão como profissionais de um segmento tão difícil de trabalhar mas tão gratificante. Você pode ser um artista completo!

A união de duas potências tão importantes para o mercado das artes é algo realmente significativo. Ninguém será obrigado a fazer teatro, música e dança ao mesmo tempo, mas um ambiente onde tudo isso transita será ainda mais enriquecedor, estimulante. Por ter sempre defendido esse tipo de modelo, inclusive dando aulas de canto onde os alunos exercitam expressão corporal, testemunhar esse momento foi um alívio. Tanta gente já me chamou de louca por acreditar que, como disseram os diretores no evento, as artes e a educação são pilares fundamentais para a construção de uma sociedade melhor e que as artes juntas são ainda mais fortes. “Sonhadora, idealista demais”, “a realidade não é assim”. Ouvi muito isso mas sei que não estou sozinha. Quando estava quase concordando que era idealismo demais, trabalhei para grandes empresas da indústria da música que também seguem esse princípio e vi que não era idealismo demais, era uma missão que poucos e bons tinham coragem de abraçar. E em breve terei novas ferramentas pra lutar pela causa com ajuda da Berkley e do Boston Conservatory.

Nos últimos anos tenho notado um crescimento de iniciativas independentes que tem esse mesmo intuito, que vê essa missão da arte

É uma sorte ter amigos que estão também nesse contexto. A movimentação da Berklee e Boston Conservatory, por serem mundialmente reconhecidos, é um passo para que a educação para as artes se fortaleça e tome fôlego para se atualizar, encontrar novos caminhos em um mundo tão conturbado, ágil, tecnológico e cheio de nuances.

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Que grandes e bons frutos sejam colhidos desse novo momento. Que nós, alunos, estejamos prontos a abraçar a causa e contribuir para o sucesso da empreitada, que certamente não será fácil, mas essencial para a evolução do ensino, da nossa música, dança e teatro. “Optar pela música é um risco, muitas vezes nossas famílias gostaríamos que fossemos médicos ou engenheiros. Se nossos alunos assumem esse risco, vamos assumir o risco dessa mudança por eles. Para oferecer algo ainda melhor e honrar seu esforço. Diz o ditado que ‘God favors the bold’. Acredito firmemente”, disse o presidente da Berklee College of Music, Roger H. Brown.

Boa sorte à todos envolvidos nesse processo e à todos nós artistas em nossa busca diária pela nossa identidade e pela melhoria da sociedade a partir do nosso trabalho. Que os caminhos se abram para sermos cada vez melhores e ajudarmos o mundo a evoluir. Um dia de cada vez, uma música/ dança/ peça de cada vez.

Pode me chamar de idealista. É um elogio.

 

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Mariana Paes
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Mariana Paes é jornalista formada pela PUC-SP, com 13 anos de experiência em comunicação e relações públicas para empresas de música, áudio e artes em geral, musicista, compositora e estuda Music Business em Boston.

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