Falsas impressões

Falsas impressões
março 13 15:06 2009

Falsas impressões
Fure a bolha do seu negócio e fuja dos resultados artificiais

A crise dos Estados Unidos, suas externalidades e consequências fizeram com que muitas empresas brasileiras que aparentemente se mostravam sólidas — Sadia, Aracruz, Banco Votorantim — entrassem no mais genuíno colapso econômico. Os presidentes dos conselhos de administração dessas empresas atribuíram a responsabilidade dos prejuízos milionários aos CFOs – Chief Financial Officer. Isso é natural, uma vez que sempre se busca um culpado quando as coisas não vão bem. Todavia, o conceito de Resultados Bolha provê uma explicação plausível para esses prejuízos catastróficos.

Durante muitos trimestres, diversas companhias realizaram lucros generosos por conta de operações com câmbio. Acreditava-se que o dólar valeria menos a cada dia — e era isso o que estava acontecendo. Sendo assim, essas operações tornavam os balanços azuis da cor do céu. Com resultados tão bons, bônus eram generosamente distribuídos e não havia culpados, apenas brilhantes visionários.

Até que uma marolinha virou um verdadeiro tsunami e ex-grandes executivos ficaram desabrigados — talvez eles preferissem ser chamados de homeless —, tornando-se ‘leprosos’ para seus pares. Ninguém admitia se aproximar desses homens-prejuízo ou homens-derivativos.

Tendo em vista essas calamidades financeiras, temos de estar preparados para mensalmente avaliar se estamos gerindo uma loja com ‘resultado real’ ou com ‘resultado bolha’. No mercado financeiro, o resultado bolha advém das operações com derivativos e outros instrumentos financeiros que se constituem em verdadeiras apostas em cenários e índices que normalmente sofrem variações significativas, dependendo do ‘humor’ do mercado. Na economia real, o resultado bolha advém principalmente da aposta no crescimento a qualquer custo, na ânsia desmedida pela conquista de market share, do desejo de atrair os clientes dos concorrentes sem critério de escolha e da ilusão dos prazos longos nas contas a pagar. Além desses, outros indícios ou características permitem a identificação das possíveis bolhas em sua loja.

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Normalmente, as lojas de instrumentos musicais começam pequenas, com custos fixos baixos, financeiramente saudáveis e com vocação para o lucro. Mas, com o passar do tempo, essas características vão sofrendo as influências do meio e novas crenças passam a preencher a mente desse lojista empreendedor. Uma das novas crenças é a de que somente vendendo cada vez mais barato e com um volume cada vez maior será possível alcançar resultados maiores e fazer com que o negócio cresça de forma sustentável.

Todavia, a experiência prática — não a teoria — nos mostra que o estágio da cadeia de valor que o lojista se encontra não é condizente com esse modelo de gestão. Não conseguiremos vender instrumentos por dúzias, nem por lotes, nem em quantidades características dos atacadistas, muito menos esperar que isso ocorra todos os dias em nossas lojas. Mesmo que apareça algum expert afirmando que consegue fazer isso na loja dele, use seu bom senso e experiência, e em poucos minutos irá concluir que se trata de um gestor bolha, ou seja, que está prestes a explodir. Ou de um gestor de resultado bolha, isto é, seu lucro possui uma linda superfície e um conteúdo tão consistente quanto o ar que nos rodeia.
Lojistas que prezam o que chamamos neste artigo de ‘resultado real’ sabem reconhecer que tem se tornado cada vez mais importante a valorização da margem de cada venda. Não há nada mais moderno e saudável a fazer em 2009 do que gerenciar a sua loja para o lucro e não para o faturamento.

Outra bolha que se apresenta de forma maravilhosa e impulsionadora é a do aumento repentino das vendas. Esse aumento nos faz comprar um volume cada vez maior, com prazos cada vez maiores e vender também com prazos cada vez maiores. Talvez você esteja pensando: o que há de errado em aumentar o volume de vendas? Se isso não for bom para o meu negócio, o que será? Jamais diríamos que o aumento das vendas é ruim. Entretanto, pela mesma analogia das bolhas, esse crescimento deve ser respaldado com ações de preenchimento.

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Em outras palavras, você precisa ter condições de responder confortavelmente como lidará com as finanças caso essas vendas sejam apenas uma bolha sazonal. Imagine que, por conta do súbito aumento das vendas, você tenha contratado mais pessoas, feito uso de linhas de crédito para readequar a sua loja ao novo patamar de vendas e criado um novo orçamento de marketing. Todos os recursos que você utilizou para sustentar esse aumento repentino nas vendas e que não foram financiados por fornecedores tornaram-se custos fixos, pois serão pagos por meio de parcelamentos.

Para o caso de essa demanda ser uma bolha, todo o resultado produzido durante o período de crescimento terá sido artificial, ou seja, você coloca um negócio que tinha suas finanças organizadas numa situação de contágio financeiro. A parte boa será comprometida pela parte ruim que surgiu com o crescimento artificial. Tudo bem, agora você está perguntando: qual é a bola de cristal que devo usar para saber se o crescimento é uma bolha ou é sustentável? Responda primeiro se a forma como você financiará esse crescimento oferece o risco de comprometer tudo o que conquistou até o momento.

Em caso afirmativo, avalie se compensa arriscar aquilo que você não pode perder. Tamanha é a nossa preocupação com resultados artificiais que no próximo artigo continuaremos o tema apresentando um conjunto de indicadores que lhe permitirá saber se a sua loja possui saúde econômica, risco moderado ou quadro irreversível, sempre levando em consideração fatores econômicos, financeiros e mercadológicos, conjuntamente com as visões micro e macroeconômicas.
 
Aguarde!

Joel de Souza é matemático e professor do curso de Pós-Graduação em Gestão Empresarial da Fundação Getulio Vargas. Há 11 anos, ministra cursos de Finanças e Estatística Empresarial no Senac e é diretor de Métricas Econômicas do Instituto Real de Pesquisas Empresariais.
Contato: [email protected]

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