Encontro AES em Porto Alegre, 14 anos depois

Encontro AES em Porto Alegre, 14 anos depois
dezembro 26 14:53 2018

Depois de 14 anos, quando fez seu Encontro Regional de 2004 em Canoas, a AES – Audio Engineering Society seção Brasil – voltou a realizar um evento no Rio Grande do Sul.

Foi no Campus Porto Alegre da UNISINOS, com apoios diversos, dentre eles o do estúdio Audio Porto na pessoa do Rafael Hauck, onde seria realizado por motivos técnicos, mas ainda que em pleno funcionamento está em obras. A ProShows apoiou o evento capitaneado pelo Joel Brito, da AES Brasil, contando com a participação do Diego Sgrillo especialista nas marcas Focusrite e Novation.

AES – 70 ANOS DE ÁUDIO PROFISSIONAL

Os 70 anos de AES começaram em 1948, segundo Joel, na “era de ouro do áudio” com o lançamento de um rol de produtos voltados para a indústria cinematográfica e de telefonia. Espalhou-se com a primeira Convenção em 1949 em Nova Iorque, seguindo em 1952 no Japão, 1971 na Europa, 1997 na América Latina e 2012 na China. O espectro das pessoas envolvidas com uma associação deste porte vai do aprendizado a regulamentações técnicas de produtos.

A entidade acumula 150 Convenções Mundiais, passando pela de 2009 em São Paulo, além dos encontros monotemáticos das diversas Conferências Regionais com seus países-seções. Mantém 22 comitês técnicos divididos em sub-comitês de normas, que tratam de assuntos desde conexões de polos padrão XLR, até a norma da ABNT para as famigeradas tomadas de 3 pinos brasileiras, produzindo dezenas de milhares de papers técnicos disponíveis para seus membros.

Um dos fortes da AES é a sua capacidade de ser uma verdadeira “rede social” de profissionais do áudio, que proporciona a quem necessitar de suporte técnico de alta qualidade o contato com seus membros em todo o planeta. As inscrições podem ser feitas pelo site da entidade por todos que estão ligados aos segmentos do áudio e música, não necessariamente engenheiros ou técnicos de áudio, uma definição em discussão aberta no mundo inteiro.

O professor Charles di Pinto do curso de Produção Fonográfica da UNSINOS prosseguiu a palestra, falando sobre o curso iniciado em 2007 no Campus São Leopoldo e hoje em Porto Alegre. O curso não se contenta em ensinar os procedimentos técnicos, mas abrange também a gestão de carreira, marketing e um amplo conhecimento do que seja trabalhar com música, preparando profissionais para a controversa Produção Musical.

TÉCNICO DE ÁUDIO DE BANDA DE ROCK COMPRA A FOCUSRITE E A NOVATION 

Diego Sgrillo

Diego Sgrillo

Diego Sgrillo se juntou à ProShows no começo da década, e uma das primeiras compras que eu fiz para o meu home studio foi uma interface Focusrite Saffire Pro 40, depois de uma orientação técnica sua em uma Expomusic. Ele abriu sua palestra falando do quase centenário Rupert Neve e outros precursores e usuários dos equipamentos de áudio de alta qualidade, como George Martin ex-produtor dos Beatles, com uma mesa de 1 milhão de dólares e 80 canais em 1984.

A Focusrite começou a comercializar módulos de sua console histórica por preços mais acessíveis, mesmo depois de sua venda para Phil Dudderige, ninguém menos do que o ex-operador de áudio do Led Zeppelin, e também ex-fundador da Soundcraft. A filosofia da Focusrite é proporcionar a melhor qualidade possível sem que o consumidor precise vender um dos rins ou olhos para adquirir seus produtos. Sound is everything, é o lema da empresa.

Já a Novation tem suas origens nas décadas de 60 e 70 com personalidades do sintetizador como Alan Pearlman da ARP, Ikutaro Kakehashi da Roland, Robert Moog, Roger Lin, Dave Smith e Chris Huggett, este último criador do sintetizador WASP nos anos 70, e do Oscar nos anos 80. Ele foi chamado para trabalhar como diretor técnico da Novation com seus filtros extremamente musicais nos anos 90. A Novation também foi comprada pelo Phil Dudderige.

Podemos deduzir que trabalhar como técnico de áudio tem futuro, já que um desses técnicos comprou 2 das maiores empresas de equipamentos/instrumentos do planeta. O detalhe é que ele era técnico de uma das maiores bandas do mesmo planeta, o que corrobora minha opinião de que produzir música é compor música, e não apenas aprender a puxar faders e rodar knobs de olho em plug-ins milagrosos, como se iludem os aspirantes a produtores atuais.

EX-ENGENHEIRO DE P.A. DO RAPPA E PRODUTOR RICARDO VIDAL 

Joel Brito e Ricardo Vidal

Joel Brito e Ricardo Vidal

Formado junto com Joel no ITE – Instituto de Tecnologia Tentativa & Erro, o gaúcho “foragido” há 28 anos do RS começou sua participação direto ao ponto: “Nós temos que ter o músico, nós temos que ter a obra, nós temos que estar atrás de fazer música, não de fazermos sucesso. Que ultimamente, particularmente, eu acho que esta ordem foi invertida”. Assim começou seu assunto que analisaria os artistas consagrados versus os iniciantes.

“Ivete estava gravando um DVD no sábado, segunda-feira o clipe já estava nas plataformas, depois de mixagem do Carlos Freitas”. Assim ele chamou a atenção para a velocidade da divulgação via redes sociais e plataformas de distribuição, exemplificando com os booms da música nativista e do rock gaúcho, que estavam fazendo sucesso e deixaram os butiás cairem da guaiaca. “É preciso que a gente saiba o que queremos de fato da nossa arte”.

“A informação começou a chegar pra gente de forma muito fácil. Se tivermos dúvida de alguma coisa é só clicar no YouTube, e paramos de ir atrás dos profissionais… começamos a nos achar donos da verdade: o YouTube disse pra mim que eu sou músico, sou técnico de som, técnico de mixagem, masterizador, eu sou foda… quem nos policia? Ninguém. Não quero dizer também que o músico não possa fazer seus trabalhos experimentais”.

“Em uma música do Rappa, chegamos a ter em torno de 140 canais gravados. Isso é mérito? Não, isto é desorganização. Por quê? Porque não se tinha um arranjo em cima desse trabalho, foi-se fazendo captações em diversos estúdios ao mesmo tempo… O que a gente quer pra nós: sucesso, ou queremos fazer arte? E através dessa arte adquirir o sucesso, e principalmente adquirirmos o respeito… O grande artista vai atrás dos grandes profissionais”.

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“Tem dois estúdios aqui em Porto Alegre – representantes presentes – de altíssima qualidade. Mas… bah (imagina o iniciante) se eu for gravar lá vou ter que gastar uma grana… Por quê o cara que vai abrir uma padaria ali na esquina tem que fazer investimento em treinamento de funcionários, procurar apoio do SEBRAE… ah, mas nós trabalhamos com música, e nós não temos que investir nisso… bah, sabe como é difícil o mercado da cultura…

“O que diferencia o nosso trabalho profissional de produtores, músicos, técnioos, de um investidor qualquer? Por quê este investidor não tem seus incentivos, e nós estamos exigindo de outras pessoas este incentivo para nós trabalharmos com cultura? Já pararam pra pensar nisso? Mas na hora da gente capitalizar este dinheiro no bolso, qual o retorno que estamos dando? Nenhum”.

“É muito cômodo de nossa parte falarmos: trabalho com cultura, preciso de leis de incentivo, porque as leis de incentivo vão fazer com que o povo passe a consumir cultura. Então em vez de designarmos milhões em grana pra artistas Y, X, B, Z, vamos investir em educação musical nas escolas, nas bases. E aí a nossa a classe é que tem que levantar essa bandeira, pra que o nosso trabalho como artista, como músico, como técnico tenha o seu devido valor e reconhecimento”.

“E nós não vamos ficar com o nosso pratinho na mão pedindo esmola, porque nós somos profissionais e temos que pensar como profissionais. O que diferencia o pequeno do grande? O pequeno tem chance de mudar esse quadro, o grande já está lá. É difícil não é? Então vamos começar a mudar. Diferença do artista grande, antigamente a gravadora dava muito mais dinheiro. Tinha uma coisa chamada tour suporte, que nada mais era que um advanced…”

(Nesse momento, Ricardo pede água)… “Consegue água, por favor? Por exemplo; o artista grande teria um roadie agora com uma garrafinha de água… (risos) Aí entramos na parte da tecnologia, como ela influencia nisso? Pro bem e pro mal: não adianta botar uma placa dessa (Focusrite) debaixo do braço e dizer: agora eu vou gravar um som que nunca ninguém gravou…pô influencia microfone, sala, técnico, captação, ’n’ coisas, músicos…”

“Eu quero o som que o fulano tirou no disco tal… Ponto. Pára com isso aí, pára tudo. Se eu sou o técnico já dou uma porrada na mesa: Peraí: Você quer o som do fulano? Me dá o telefone do fulano, me dá a grana, e vamos até onde o fulano gravou aquele som, com aqueles microfones, com aqueles prés… vamos parar com isso. Por quê a gente não pode ser o norteador sonoro? Por quê o som que vai fazer não pode ser uma referência pra várias pessoas?”

“Eu quero dizer pra vocês estudantes, músicos, que estão iniciando: vamos usar a tecnologia a nosso favor? Sim. Vamos usar as fontes de informação que nós temos a nosso favor? Sim. Mas não se esqueçam de procurar profissionais, nem que seja para bater um papo, tirar alguma dúvida. Porque essa fonte de informação pro pessoal que tá ralando em vários sistemas, ou que possa dar uma opinião até  favorável, ou dizer ‘não, o que você está fazendo é uma porcaria’…”

DEBATE: CENA LOCAL, NACIONAL OU INTERNACIONAL

Flavio Marcos Tiago Rafael

Flavio, Marcos, Tiago e Rafael

Flávio Bonanome, jornalista com trabalho cobrindo o mercado profissional de áudio há 10 anos, moderou o painel, que teve como tema a cena local da produção musical no Rio Grande do Sul. Participaram o professor Charles di Pinto do curso de Produção Fonográfica da UNISINOS, Marcos Abreu, engenheiro acústico (fez o projeto acústico do Campus) e masterizador, Tiago Becker do estúdio Soma e Rafael Hauck, do estúdio Audio Porto, além do Ricardo Vidal e outros presentes na platéia.

Flávio Bonanome: Onde fica a questão da cena local nisso? Como é a mixagem gaúcha, a masterização gaúcha, a gravação gaúcha, existe isso ainda? Os clientes procuram isso em vocês? Existe uma cena local ainda ou não? Ou o trabalho de áudio é fazer áudio?

Marcos Abreu: Essa cena começa lá pelos anos 60, quando apareceram os primeiros estúdios, as primeiras gravações aqui. Os Mirins gravaram o primeiro compacto de música gaúcha em 1961. Os Serranos tiveram o primeiro compacto gravado em 1967 pelo selo Sabiá. Bertucci e Conjunto Farroupilha gravaram em São Paulo. A cena de estúdios locais começa com a Fundação ISAEC, com uma mesinha Senheiser, depois importaram duas mesas Audio Designs, dois gravadores Studer. Tinha também o Pedro Amaro com um estúdio na Rua da Praia.

Alguma coisa o Egon fabricava. Tinha uma história clássica na qual ela pegou dois gravadores TEAC, dois 808 de 8 canais, e montou uma máquina de 16 canais de fita de uma polegada, com os logotipos da marca, uma pena que tenha sido desmanchada, eu gravei nessa máquina. Vinha o pessoal de fora gravar e perguntava que modelo era esse. Eu mesmo construí vários compressores, equalizadores. Essa cena era em torno da ISAEC e da TEC Audio e todo o pessoal da música gaúcha gravava ou em um ou em outro, não tinha como fugir disso.

No interior tinha outros estúdios menores em Santa Maria, Erechim, Passo Fundo, Santa Rosa e Caxias. Isso veio até quase 1990, quando muda um pouco o mercado com a chegada do áudio digital. A TEC Audio e eu fomos pioneiros em comprar equipamento digital, algumas produtoras de jingles como a Ginga, Plug, tinham gravadores PCM, mixavam já em digital mas a produção continuava sendo em rolo, Fostex ou Tascam 16 ou 24 canais, uma ou meia polegada e aí passa tudo para digital com os primeiros Session 8 com HD de 500 Mb. Os primeiros CD não cabiam em um HD Scuse só, eu usava dois pra colocar um disco inteiro.

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Tiago Becker: Eu trabalhava na TEC Audio cuja grande conquista foi eles conseguiram comprar um HD maior, de 740 Mb para gravar no Sound Forge e depois passar para um DAT.

Marcos Abreu: Tinha uma placa da Audio Media e aí se passava tudo isso pra um DAT, e veio a evolução toda de equipamento digital e a redução do custo. Com essa redução começaram a pipocar pelo estado todo muitos estúdios pequenos e muita gente se auto produzindo, absorvendo até alguns técnicos, tipo Ganso, Agnaldo, os técnicos antigos. Dessa história toda tudo se resume em que muitos têm uma produção pequena, a TEC Audio continua, a ACIT se transferiu para Caxias e acabou fechando lá, surgem coisas novas como o Rafael com um estúdio grande, forte, pra movimentar o mercado, e uma cena abaixo que rola em estúdios semi profissionais.

Não é um mercado, digamos doméstico, é um mercado semi pro, a essa altura em um nível pro, equipamento pro, um lote de microfones, tipo eu tenho 50 e poucos microfones, tudo bem, mas estou fora da curva, tu tem lá um monte de microfones, tá fora da curva, eu masterizo um monte de discos, tá fora da curva, tem muita gente que tá fora do padrão, mas tem muita gente se auto produzindo, e isso faz com que o mercado se movimente de uma outra forma. O pessoal grava, mixa e masteriza por conta própria e coloca isso online direto, não produz nem CD muitas vezes. Essa quantidade de CDs produzidos se reduz ano a ano e aumenta a quantidade de EPs.

O Airton tinha a chave da porta do estúdio da Continental em São Paulo e mandava o pessoal gravar lá. As bandas gravavam e masterizam lá, e vinha com uma sonoridade que eles não gostavam. Tem um lance de sonoridade local.

Tiago Becker: Acho que isso vai até o começo dos anos 2000 talvez, quando se cobriu esse gap assim, e a outra música regional do Brasil entrou no RS também, a música sertaneja entrou forte, as duas vertentes se misturaram, um mix da sonoridade. Tem muita música regional mais recente que tem essa sonoridade mais universal, brasileira e aí tem gente que vai pra fora, grava um pouco mais fora. A música tradicional a que o Marcos está se referindo é muito específica daqui, desse mercado principalmente da ACIT.

Charles Di Pinto

Charles Di Pinto

Charles di Pinto: O que afeta muito essa cena local, nacional, mundial, também é o que a gravadora fazia que teve que passar para o artista independente e que nós agora estamos fazendo: o marketing e a distribuição. Caminhãozinho da Sony indo pro interior, lançamento simultâneo no mundo inteiro do novo disco da Madona, aparecendo em lojas aqui e na Ásia ao mesmo tempo, lançamento mundial. Acontece hoje no Spotify, não precisa mais das majors. Distribuição caiu pro artista e marketing também.

Tem um aspecto técnico, que aliado à mudança no mercado ou que causa uma mudança no mercado, e faz com que a cena local, pequena, mude. E agora vire uma cena nacional ou internacional. É só ir nessas feiras grandes e ver, que há uma cena internacional sim. Especialmente o MIDEM. Lá tem gente do mundo inteiro vendendo sua música e tentando ampliar o mercado numa forma que não acontecia antes, e é fácil agora que a tecnologia consegue sustentar essa ampliação, essa distribuição.

Marcos Abreu: A gravadora tinha uma função muito importante no mercado que é a de capitalizar, bancava o negócio. A gente fazia loucuras com o dinheiro da gravadora, que é um dinheiro que sumiu. Se fazia horrores com o dinheiro da gravadora, desde encher piscina com champagne, suruba… se fazia tudo com o dinheiro da gravadora, e a gravadora deixava. Tem a história do André Midani, que está contada no livro dele, e depois ele até me contou: a partir de hoje Warner não paga mais jabá, acabou!

Aí no dia seguinte chegam os divulgadores pra ele: Seu André, é o seguinte, a gente não tá rodando em rádio nenhuma. Como assim (perguntava o André). Se a gente não pagar la’o cara não vai rodar. O outro lá quer uma passagem pra Nova Iorque, o fulaninho quer umas cinco diárias de hotel lá em Foz do Iguaçu… E o André pensa um pouquinho: Tudo muda. A partir de hoje nós pagamos jabá de novo. E no dia seguinte voltou a Warner a rodar. Se não pagar, até hoje dificilmente as rádios rodam.

Flávio Bonanome: Falando de marketing, no Audio Porto vocês têm um trabalho pra além da música. Quando eu estive lá em junho eu vi que vocês têm uma infraestrutura de vídeo, vocês fazem videoclipe, vocês dão oportunidade pro artista trabalhar outras coisas. Queria que você contasse um pouco desse projeto e como tem sido o resultado disso. Tem havido procura no Audio Porto por conta desses serviços extras para além da música.

Audio Porto mesa Euphonix

Audio Porto – mesa Euphonix

Rafael Hauck: Com certeza, eu acho que esse posicionamento da gente como uma ferramenta de referência sempre teve uma visão não só da questão do vídeo estar incluído hoje em dia, mas também do centro de convivência. Essas coisas todas foram abrindo os olhos pra essa questão de olhar pra música não no modo tradicional da gravadora. É óbvio que muita gente está nos procurando, a gente está precisando manter um certo apoio a projetos que não conseguem se viabilizar e entrando como sociedade nessa parte editorial.

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A questão do desmonte, o Vidal já estava falando disso antes, o Charles falou, antes de existir uma gravadora que de certa forma também trazia o planejamento de estratégia, de marketing, o cara estava lá também gastando a grana da gravadora porque ela sabia muito bem em qual negócio estava se metendo. Obviamente gira muito dinheiro, lavagem de dinheiro também fazia parte, nos flops, não nas coisas de grande sucesso. Isso tudo não existe mais. O Audio Porto é um fruto dessa análise de como o mercado vai se posicionar daqui pra frente e quer muito mais ser um centro de convivência dessa música, desse cenário.

Eu valorizo super esse empoderamento das produções dentro dos espaços individuais, desde que eles entendam até que ponto tu consegue levar um projeto assim e para que isso serve num ponto de vista mais global, de posicionamento num momento onde de novo o músico agora precisa entender de novo marketing, de negócio, de sincronização. Tem que entender porque o Audio Porto vê vantagem em trabalhar com um mercado assim desde que seja música autoral.

Flávio Bonanome: Vocês acham que a questão da sonoridade em cenas locais tinha também a ver um pouco com o trabalho de curadoria e distribuição das gravadoras, uma questão de distribuição local, e pelo fato agora da internet descentralizar a distribuição e o cara que está em Porto Alegre conseguir ouvir um rapper palestino e trazer uma sonoridade que ele jamais teria acesso em uma época de gravadora e loja de CDs, isso também muda também, ou não?

Marcos Abreu: As gravadoras tinham produtores aqui locais, regionais. O Edson Campanha da ACIT tinha o som dele, o Alex da USA tinha o som dele que ele gostava, o Sadi Soares que produzia pra Warner e ficou muitos anos aqui tinha o som dele também, já sabia qual era a sonoridade que ele queria. Tinham vários produtores aí, o Amaro Peres que produzia em Canoas, vários caras que já tinham um padrão de sonoridade deles estabelecido de como é que um cliente deles deveria soar, então, como isso monopolizava um mercado, todos tinham a mesma sonoridade.

Rafael Hauck: Pegando esses exemplos antigos eu tenho ouvido de alguns músicos que participaram desses trabalhos, que essa questão autoral e editorial era bem complicada naquela época. Eu ouvi alguns dados muito interessantes recentemente. Nessa onda da tecnologia, a música latino americana correspondia na época das vendas físicas a menos de 6% do mercado global, e hoje em dia representa 20% do mercado da internet. Pelo menos 70% dos independentes não recebem o que lhes é devido por má gestão dos fonogramas.

O rock gaúcho nos anos 2000 teve um ressurgimento, muita coisa legal feita que não teve continuidade. Mas eu queria só chamar atenção para a questão da tecnologia que está do nosso lado. Do nada, por mais que não seja uma indústria tão rentável quanto aqueles 6%, a gente hoje representa 1/5 da importância da música mundial. Quanto mais a gente enxergar como as gravadoras grandes estão enxergando agora também que o mercado não é só latino-americano, é Portugal e Espanha e todos os países que falam português e espanhol no mundo inteiro.

Ricardo Vidal: Se a gente lembrar que Renato Borghetti é disco de ouro, mais de 200 mil discos, numa época que não tinha se tinha internet, se tinha um movimento cultural e musical e o Renato não veio inventar nada, simplesmente registrou o que tinha sido feito, e a população toda comprou essa troca. Às vezes eu penso que nós músicos e produtores estamos esperando as coisas acontecerem. Pergunto: quantos de nós músicos temos feito o trabalho de dar um cartãozinho de visitas: toma e escuta o meu som.

Será que não está na hora de repensar a maneira de divulgar nosso som? Não temos dinheiro? Não temos dinheiro. Vamos parar?

Flavio Bonanome

Flávio Bonanome

Quantas vezes chegamos na nossa casa e temos aquele ímã de geladeira por baixo da porta, disque gás, disque água? Por quê esses caras tão colocando aquilo debaixo da porta? Será que a gente não tá com a bunda sentada demais no sofá esperando as coisas acontecerem? Será que não tá na hora da gente começar a mudar? Esperando que a rádio rode?

Saulo van der Ley: Então, só pegando o gancho da novidade como fator de sucesso. Eu tenho alunos de produção, que chegam com os plug-ins milagrosos, não estudam nada de harmonia, nada de música. Em 2014 eu participei de um painel na AES em São Paulo com o José Augusto Mannis e várias personalidades da entidade comentando qual seria o currículo ideal para um curso de áudio profissional. Foi feita uma pesquisa em faculdades do mundo inteiro e chegou-se a uma conclusão inicial de que seria 1/3 de matérias de música, 1/3 de matérias técnicas e 1/3 de prática.

Este painel aconteceu em 2014, depois não teve mais continuidade. Estamos tentando dar continuidade. Um rapper pode pegar alguma coisa de música atonal e inserir ali dentro. Pode pegar um timbre da Spitfire Audio e inserir no beat dele, e vai conseguir maior audiência. Mas aí vem a outra parte: o professor Charles está aí pra constatar que é a de fazer a cabeça do pessoal do curso de produção fonográfica no sentido de ouvir música. Outro ilustre gaúcho, Arthur de Faria, tinha um programa na extinta rádio Pop Rock FM, da Ulbra, que tocava os 95% da música que não tocava no rádio. Só 5%, até hoje, é tocada nas rádios.

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Saulo van der Ley
Saulo van der Ley

Começou construindo caixas acústicas, estudando violão erudito, que depois recebeu cordas de aço, captador e alavanca. Montou um grupo de rock, fez um show no colégio em BH e se mudou para São Paulo/SP, onde em 75 fez trilhas para teatro e dança, com prêmio APCA. Membro fundador do Núcleo Música Nova com o mestre Conrado Silva, cursou Composição na UNICAMP, V Prêmio Sérgio Motta de Arte & Tecnologia com o grupo oTaoDoMinf, membro da AES, Troféu Clave OMB-SP, ex-redator e editor de revistas de áudio, Apple Developer e a 27 anos dirigindo a Pauta Arte & Comunicação, mesclando ensino e jornalismo musical.

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