Educação Musical: Mapeamento inédito traça retrato das iniciativas no Brasil

Educação Musical: Mapeamento inédito traça retrato das iniciativas no Brasil
dezembro 06 08:22 2017

Primeiro levantamento desta natureza realizado no País, o Mapeamento de Projetos de Educação Musical foi desenvolvido pelo programa Brasil de Tuhu em parceria com a JLeiva

O Objetivo é, a partir dos dados coletados, fomentar iniciativas em rede e incentivar políticas públicas que fortaleçam projetos de educação musical no País. Primeiro passo neste sentido será a Bienal de Música e Cidadania, realizada pela Funarte entre os dias 14 e 16 de dezembro em Belo Horizonte. 

Com iniciativas que se espalham de Norte a Sul, os projetos de educação musical oferecidos gratuitamente, sobretudo por organizações do terceiro setor, atendem a milhares de crianças e jovens do País.

Embora a maioria seja de pequeno e médio porte e atue exclusivamente nos municípios onde estão instaladas, estas iniciativas cumprem papel fundamental na disseminação do ensino da música no Brasil.

Muitas iniciativas são a porta de entrada de crianças e jovens ao universo musical (92% dos participantes destes projetos não tinham qualquer conhecimento prévio de música) e mesmo concentradas na região Sudeste (cerca de 52% das iniciativas), praticamente todos os estados brasileiros abrigam programas e ações neste sentido.

Educação Musical

Elas também se mostram uma alternativa para profissionais da área, já que a maioria dos educadores destes projetos tem formação específica em música – 41% são

bacharéis, 37% são licenciados, 19% são mestres 9% são doutores – números relevantes em um setor onde nem sempre os educadores têm formação específica.

O grande gargalo, como era de se esperar, ainda é a captação de recursos, sendo que a quase totalidade das iniciativas depende de doações diretas, editais e leis de incentivo. Entre os projetos de pequeno porte, parcerias com supermercados, padarias, escolas, universidades e igrejas se sobressaem e demonstram que muitas iniciativas se mantêm com recursos escassos.

“Trouxemos um primeiro olhar sobre as organizações que ensinam, de forma independente, música para jovens e crianças no País para entender como funcionam, onde se encontram e quais seus principais desafios”, explica Paula Brandão, idealizadora do Brasil de Tuhu e uma das coordenadoras do mapeamento.

Foram contatados 2.040 projetos, sendo que 240 responderam ao questionário online aplicado entre dezembro de 2016 e março de 2017. Os resultados trazem dados sobre porte das organizações, público atendido, instrumentos e estilos musicais utilizados, formas de financiamento, métodos pedagógicos, capacitação profissional, ações de inclusão de pessoas com deficiência e principais desafios que estas iniciativas enfrentam.

“O mapeamento está em construção permanente, pois sabemos que existem muitos projetos que não foram alcançados e que, a cada ano, novas iniciativas surgem”, esclarece Paula Brandão. “Estaremos na 1ª Bienal de Música e Cidadania da Funarte para apresentar os resultados do mapeamento e, a partir deles, buscar pontos em comum entre os projetos presentes, incentivando trocas e ajudas mútuas”, diz.

Por ser o primeiro levantamento desta natureza realizado no País, o Mapeamento de Projetos de Educação Musical foi utilizado como base para a mobilização de organizações que participarão da Bienal, que será realizada de 14 a 16 de dezembro em Belo Horizonte.

“Tem muita gente fazendo coisas bacanas pelo Brasil afora. Temos que entender porque estas iniciativas não se falam, não se conhecem, não se ajudam. Neste encontro, queremos que gestores e educadores de projetos sociomusicais se conheçam, troquem informações, se juntem e, a partir daí, formem uma rede ativa, que inclusive fortaleça o diálogo com o próprio poder público”, levanta Marcos Souza, diretor do Centro de Música da Funarte.

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Confira a conclusão do estudo

Boa parte dos produtores dedica-se apenas a um projeto em educação musical (ainda que atue também em outras áreas da cultura), de alcance moderado, tanto em número de beneficiados (até 500 pessoas por ano) quanto do ponto de vista geográfico (mais de 80% só atua em seu próprio município).

O conjunto das respostas, portanto, indica a predominância de agentes de pequeno ou médio porte.

Ainda que de pequena dimensão, os projetos parecem ter grande relevância social. A grande maioria oferece atendimento gratuito e mira um grupo social especialmente vulnerável no Brasil: os jovens. A ênfase nesse estrato é reforçada pela informação de que o público-alvo mais alcançado são jovens com pouca ou nenhuma formação musical.

3 A importância do setor para a inclusão é demonstrada também pela atenção a questões deacessibilidade. Seis em cada dez atendem pessoas com deficiência (embora o número de beneficiados poucas vezes passe dos cinco), e praticamente metade tem interesse em trabalhar melhor com o assunto.

Como em outras áreas, ainda falta a preocupação com a inclusão se estender também ao próprio quadro de funcionários e colaboradores.

Não fica clara a relevância das atividades voltadas a professores – que têm papel importante de disseminar conhecimento.

Uma pesquisa mais detalhada poderia indicar o quanto os projetos para esse grupo ajudam a replicar boas práticas.

Sobre a qualidade do trabalho oferecido pelos projetos, a pesquisa traz uma notícia boa e uma ruim.

A BOA
Muitas atividades são coordenadas por pessoas com conhecimento em música – relativamente poucos contam com bacharéis (28%) ou licenciados (12%) oriundos de outras áreas, além de 13% com profissionais sem formação. Como na música é frequente a presença de pessoas sem formação específica, os números deste levantamento parecem bons.

A MÁ
Prevalecem ações que ou não usam metodologia específica ou usam metodologia própria – o que, em alguns casos, pode ser um modo polido de se dizer que não há propriamente um método sistematizado em uso.

6 As entrevistas demonstram que o leque de atividades educativas utilizadas é bem amplo.

O predomínio é de concertos e shows didáticos – que, por si sós, têm potencial limitado. Mas chama a atenção a quantidade de propostas em que a formação continuada parece estar em primeiro plano.

7 Em comunicação, a ênfase nos meios digitais não é surpresa. Trata-se de uma área crescente, que requer pouco investimento.

O fato de uma parcela dos projetos se interessar em fazer capacitação na área, porém, pode indicar que essas ferramentas não estão sendo usadas em todo o seu potencial. O gargalo apontado em elaboração de estratégia de comunicação reforça essa impressão.

8 Os resultados sobre captação de recursos surpreenderam a equipe de pesquisadores.

Como o principal meio de contato foram bancos de dados de editais e leis de incentivo, o esperado era que esses mecanismos aparecessem com grande destaque em relação aos demais. O que sobressai, porém, são as captações sem incentivo — e o fato de nenhuma modalidade atingir grandes percentuais.

9 O peso das doações diretas tem de ser relativizado.

Alguns projetos de alcance comunitário recorrem aos moradores do entorno para arrecadar recursos em campanhas esporádicas – trata-se, assim, de pequenos valores. Entre os projetos que atingem mais pessoas, as leis de incentivo (sobretudo, a Rouanet) aparecem com vulto maior. De qualquer modo, apenas uma pesquisa mais específica, envolvendo perguntas diretas sobre valores, poderá explorar melhor esses pontos

O fato de o grande gargalo apontado pelos entrevistados ser a captação de recursosdeixa claro que as fontes ainda são vistas como insuficientes.

10 A pesquisa mostra, por fim, que há grande carência por capacitação em diversos setores. Nos quatro pontos apresentados no questionário, o interesse por capacitação ultrapassa o patamar de 3,7, acima dos que poderia ser tomado como sinal de interesse mediano (3 pontos).


A lista completa dos projetos que participaram do levantamento e os dados completos do Mapeamento de Projetos de Educação Musical podem ser acessados pelo site: http://brasildetuhu.com.br.

O Mapeamento foi viabilizado com o patrocínio da Wilson Sons e Governo Federal, via Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, e contou com a parceria da J. Leiva Consultoria.

 

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