Dando nome sujo aos bois

Dando nome sujo aos bois
outubro 08 08:00 2005

Ao mesmo tempo em que aumenta a taxa de juros, o governo se diz preocupado com o desemprego.


É nesse cenário que presencio uma cena que tem como protagonista um contador desempregado que resolve aceitar um bico de motorista para uma senhora de 77 anos.


Ela combina lhe pagar por hora, pois o uso que fará dos seus serviços não justifica a exclusividade. Tudo acertado entre as partes, é hora de comunicar o fato à seguradora. O “profissional” em questão não tem nenhum ponto na carteira de habilitação, é casado e já passou dos quarenta anos. O perfil ideal para se conseguir o menor preço possível em uma apólice. No entanto, na renovação do seguro ela é informada que o moço tem quatro títulos protestados no cartório e isso lhe custaria 20% a mais. Segundo o corretor, um estudo feito pela seguradora comprova, cientificamente, que esse “perfil” costuma se envolver numa quantidade maior de sinistros…


Como pode um desempregado saldar suas dívidas se ele é impedido de trabalhar? De acordo com o pensamento “científico” das seguradoras: roubando, se candidatando a deputado ou fraudando uma seguradora… E existem muitos empresários por aí que, a revelia do ministério público, também costumam levantar o SERASA dos seus futuros empregados antes de contratá-los. Alguns até circulam de carro importado, com quatro ou cinco prestações atrasadas…


São pessoas que esquecem que os “maus pagadores” podem ter chegado a essa situação por deixar de pagar a fatura do cartão de crédito que usaram para comprar comida num ato de desespero. Da mesma forma como certos “inadimplentes inescrupulosos”, que tentaram solucionar um problema de saúde na família com um cheque sem fundos.

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Minha faxineira não cansa de reclamar das conseqüências que enfrenta por emprestar seu nome aos “amigos” que precisam fazer um carnê nas Casas Bahia.


E eu não me canso de repetir:
 –Não empresta! Se o cara tem o nome sujo é porque não merece crédito!


Da última vez ela me respondeu:
É, “seu” Luiz… mas essa senhora, para quem eu emprestei meu nome dessa vez, estava sem crédito porque sujaram o nome dela…


A mesma pessoa teve seu nome no SERASA porque pagou, antes do vencimento, a fatura de cartão de crédito de uma conhecida loja de confecções. Como os juros ainda não haviam sido computados, esse “resíduo” gerou uma “dívida” de R$ 6,00 que foi para o pau.


Brasileiro é, em geral, pilantra? Pode até ser… Mas a desconfiança tem limites. Muitas vezes deixamos de confiar num cliente que está ali, na sua frente, porque alguém, que você nem conhece, disse que ele não é de confiança. Óbvio que não dá para voltar atrás e ressuscitar   a velha caderneta do “seu” Manoel. Mas eu mesmo (que me considero um bom pagador) já tive problemas em financiar um carro por causa de uma conta da Intelig, que eu nem sabia que existia. Adivinha se eu voltei a usar essa operadora…


Ninguém está livre de ficar inadimplente um dia. E é nessa hora que a sua experiência como lojista conta mais que um monte de “analistas de crédito” que só aprenderam a apertar botões. O Brasil tem mantido seu nome lá fora às custas da miséria da sua população. Os nossos “hermanos” argentinos deram um calote, fizeram um acordo e daqui a pouco estarão melhores que nós no ranking do “risco país”. Pense nisso antes de conceder ou negar crédito a alguém. O artigo mais raro que se pode comprar hoje em dia são alguns gramas de bom senso…

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Fonte: Luiz Tadeu Correia, o Cebola, é jornalista, professor, publicitário e radialista. Apesar de totalmente cético, recebe o espírito de porco do Paulo Francis quando o colesterol sobe. Site: http://www.cebola.com.br

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