Da música ao mercado

Da música ao mercado
outubro 11 08:00 2005

Existem certos paradigmas em torno de algumas artes, como a pintura, a dança, o teatro, a literatura e a música que sempre giram em torno do termo “inspiração”, que está diretamente ligado à criatividade. Para a maioria das pessoas, todo artista é aquele que deve surpreender a platéia ou o público e ele acaba sendo visto quase como um “ET”, alguém que é dotado de um poder sobrenatural privilegiado, do qual poucos mortais têm acesso. Sem dúvida alguma, são eles quem criam e desenvolvem potenciais para contribuir com o crescimento cultural do mundo, mas será que, sozinhos, poderiam fazer alguma coisa? O que um grande compositor e músico conhecido internacionalmente poderia fazer numa ilha deserta após um naufrágio? Provavelmente, além de não exercer mais seu talento, pois seu público ficaria restrito aos animais habitantes do local, também teria sua criatividade e inspiração tolhidas devido a uma situação depressiva em que os incentivos deixariam de existir. Com base nesse raciocínio, muitos estudiosos do comportamento humano diriam: “mas a criatividade é um dom nato, assim como a inteligência”.


Sim, é verdade. Mas talvez ele tivesse que canalizar sua criatividade para bolar um jeito de fazer fogo e se aquecer, ou de colher galhos de árvores para fazer uma cabana e assim por diante. O que quero dizer com essa comparação é que não é somente quem escolhe ser músico o grande responsável pela criação e desenvolvimento artístico para colocar no mercado bons produtos e ganhar dinheiro com isso. Ao invés de pássaros e peixes como platéia, ele precisa de público e crítica. Ao invés de areia e árvores, ele precisa de palco. Ao invés da solidão e da falta de incentivo, ele precisa de empresas, órgãos governamentais e instituições que defendam sua causa, patrocinem seus shows, permitam o ensino sério, para melhor desenvolvimento profissional e, acima de tudo, de um mercado que não o veja como uma exceção ou alguém que, ao invés de trabalhar, optou pela “vida fácil de ser músico”.

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O músico é um profissional como qualquer outro, que precisa de estudo, reciclagens constantes, vagas no mercado de trabalho, incentivos para iniciar uma carreira e gente competente lutando pela sua categoria junto ao Congresso Nacional. Por que o mercado da música – e isso inclui todos aqueles que fornecem produtos e serviços para que a música seja ouvida – não pára de olhar só para aqueles que precisam de um hobby ou curtem um estilo musical e buscam na música um passatempo e não passa a olhar com mais seriedade para as atividades e atitudes que possam promover novos talentos e enriquecer a nossa cultura? Por que não ser criativo, assim como os músicos? Criatividade não é o mesmo que aptidão ou dom. Ela precisa ser desenvolvida e só pode fluir quando tentamos fazer alguma coisa com nossas próprias mãos.


Será que grandes publicitários seriam sempre criativos para bolar campanhas se soubessem que ficariam sem receber nada depois? O mercado de música precisa desenvolver sua criatividade, colocando em prática tudo o que acredita que pode contribuir para o músico continuar tendo inspiração para criar. E não são tarefas complicadas que vão ajudar a música no país. Muito pelo contrário. São atitudes simples, óbvias, como a participação em festivais, a criação de oportunidades para uma banda poder se dedicar na criação de um novo trabalho, a força de vontade para ajudar a criar leis que diminuam a carga tributária e fiscal das casas de shows que desejam ter música ao vivo e, principalmente, os incentivos através de investimentos na promoção de eventos e publicidade.


É uma pena não terminar este texto de uma forma otimista, mas se o mercado da música não entender que a criatividade não depende só do músico e está diretamente ligada às ações e atitudes para incentivos da música, daqui a alguns anos teremos um reduto, tipo um zoológico, com raros músicos em extinção apenas para serem apreciados de vez em quando.

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Fonte: Célio Ramos é publicitário e diretor Marketing e Planejamento do EM&T

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