Como precificar o trabalho de um artista?

Como precificar o trabalho de um artista?
julho 18 17:02 2016

Ganhar dinheiro com arte, por si só, já é algo bastante complicado. O hábito do consumo de produtos da indústria criativa ainda caminha há passos de formiguinha, mas um outro fator essencial também interfere diretamente na rentabilidade do trabalho com arte e cultura: precificação.

As pessoas mais ligadas às ciências exatas costumam ter duas “caixinhas de recompensa” na cabeça: uma para “recompensas tangíveis”, como dinheiro, e outra para “intangíveis”, como a felicidade, a sensação de dever cumprido e de realização. Já os sonhadores de humanas e das artes, com frequência tem “uma caixinha só na cabeça”. Ou seja, ficamos felizes por fazermos nosso trabalho e “esquecemos” que isso não paga conta, temos dificuldade em estabelecer um valor para o nosso ofício e caímos em ciladas, como tocar em um bar em troca de um chopp, fazer escambo ou favores pra amigos, já que é tão legal produzir o que amamos.

E é nessa lacuna, a do amor, a da “caixinha única”, que o mercado da cultura e do entretenimento faz fortuna com nosso suor, oferecendo contratos absurdos, assumindo a propriedade das nossas músicas, peças, quadros, obras, e colocando a gente como um mero fazedor de coisas. Quando nossos olhos se abrem após a alegria inicial de um pseudo-reconhecimento, deprimimos, nos sentimos usados, prostituídos mesmo.

Aí você me pergunta: mas como faz pra cobrar direito, como faz pra impor minhas condições se já é tão difícil trabalhar mesmo que seja por 50 contos, Mari? Peço mil desculpas, mas ainda estou tentando responder essa questão. Não tenho uma solução pra nós, o que tenho é uma série de sugestões:

1) Nunca assine papéis sem falar com um advogado, mesmo que pareça o negócio da sua vida, que vai possibilitar que você pague as suas contas. Conheço gente que perdeu direito à suas próprias criações por causa de um contrato de 80 páginas que não foi lido em detalhes;

Leia também:  Guitarras Telecaster, Stratocaster e Les Paul: um papo sobre timbres

2) Tenha um contador. Sei que não é barato, mas se você é um empreendedor, a ajuda de um profissional pra lidar com o dinheiro ajuda bastante a entender quando você precisa na vida real, fora de todo sonho que é a arte;

3) Não aceite nenhum tipo de negócio que vá contra o que você acredita, contra a mensagem que você pretende passar. Se tiver uma pulga atrás da orelha, passo pra trás e busque ajuda para avaliar a situação;

4) Não subestime sua tristeza. Se você sentir que não gosta mais da vida, passar dias com muita dificuldade para sair da cama, estiver bebendo ou fumando mais do que o normal ou até comendo compulsivamente, procure ajuda. Isso não é vergonha, é algo essencial para que você entenda seus limites e tenha saúde para exercer sua arte em sua plenitude.

5) Dê passos pra trás, pros lados, pra frente, mas não pare de caminhar. É difícil, é dolorido, tem muita pedra por aí, mas você, como artista, sabe como transformar pedras em castelos.

6) Não cobre muito abaixo do valor praticado corriqueiramente pelo mercado. No afã de pagar a conta, a gente cobra R$ 10 por um serviço que costuma ser R$ 30. Se começamos tão desvalorizados, dificilmente conseguiremos ajustar nossos preços para nos equipararmos ao mercado sem perder muitos clientes.

7) Fortaleça seus contatos com outros artistas. A conexão entre profissionais da classe é essencial para buscarmos melhores condições, fazermos novas parcerias, aprendermos e, acima de tudo, termos mínima sanidade mental para lidar com um mundo que, muitas vezes, acha que sensibilidade é fraqueza, quando na verdade, é uma virtude.

Leia também:  Compressores: para que servem e como funcionam?

Você tem dicas? Compartilhe aqui nos comentários 🙂

Vamos juntos, por nossa arte, pelo humanismo, pela empatia, pela arte como catalizador de boas coisas no mundo.

Comentários
view more articles

About Article Author

Mariana Paes
Mariana Paes

Mariana Paes é jornalista formada pela PUC-SP, com 13 anos de experiência em comunicação e relações públicas para empresas de música, áudio e artes em geral, musicista, compositora e estuda Music Business em Boston.

View More Articles