Como montar seu home studio – Capítulo II

Como montar seu home studio – Capítulo II
maio 29 08:52 2018

Nesta segunda parte, nos focaremos nos monitores de áudio.

Quando nos referimos a “monitor”, o pessoal mais antigo pode confundir o termo com o monitor de vídeo, vulgarmente chamado de “tela”, enquanto o apelido dos monitores de áudio é “caixas-de-som”, ou mais elegantemente chamado por alguns de sonofletores, ou no inglês, baffles. O que importa é que eles são a forma de se monitorar o som do sistema de áudio, e precisam ser uma referência familiar e de credibilidade.

Se levarmos em consideração que as ondas sonoras têm diversos “tamanhos”, e que os sons mais graves geram por sua característica física ondas maiores, fica fácil de entender que aquelas caixinhas de som mais acessíveis, que geralmente acompanham kits que são oferecidos junto com o computador para entusiasmar os compradores, não são capazes de reproduzir os sons mais graves, como por exemplo o dos contrabaixos.

Tecnicamente falando, e voltando à nossa edição passada, os monitores de áudio são também transdutores, que transformam o sinal de áudio em som, ao contrário dos microfones que transformam o som em sinal de áudio. Estamos tratando então dos dois extremos do sistema que vai fazer um homestudio funcionar: a forma como transformamos o som para ser “congelado” no sinal eletrônico, e depois “descongelado”, pronto para ser ouvido.

Uso sempre esta metáfora para me referir às formas como o som podia, pode e poderá ser transmitido entre os seres humanos. No século 11, Guido d’Arezzo congelou as notas musicais em papiro, com a invenção da escrita musical, inaugurando o uso do “congelamento”. Depois apareceram formas mais científicas, como o velho piano-roll “em hardware”, que usava perfurações em materiais diversos para armazenar músicas.

Séculos mais tarde começou a era dos congelamentos sofisticados, em meios magnéticos, goma- laca, vinil, e chegamos ao laser com os CDs e DVDs que hoje rivalizam com o áudio digital distribuído pela internet. Em todas essas formas de armazenamento do som, usamos os transdutores como entrada e saída da “geladeira”. Mas ainda há seres humanos que usam a tradição oral para transmitir músicas, de boca e de ouvido.

Um pouco de Física Acústica

Dentro do monitor encontraremos sempre o chamado alto-falante, uma membrana acionada por uma bobina, interagindo com um campo magnético. Encontraremos quase sempre também elementos cerâmicos – ou de fita – que se modificam ao receber uma tensão elétrica. Aqueles cuidam dos sons médios e graves, os alto-falantes, e estes dos sons mais agudos, os tweeters. Haviam também os alto-falantes eletrostáticos, semelhantes aos microfones condensadores.

Logo, os alto-falantes comuns funcionam como os microfones dinâmicos, assim como os tweeters. Tudo isto dentro de uma caixa, que serve para evitar que a pressão sonora de “marcha-a-ré” que sai por trás dos alto-falantes, cancele a pressão feita pela frente do cone do artefato. O alto- falante foi inventado pela dupla Rice & Kellog há um século, e voltando à metáfora do congelamento, não se tratava de arroz & sucrilhos entrando e saindo do freezer…

O ouvido humano percebe os sons pela sua unidade que mede as frequências das ondas sonoras, o Hertz, em uma faixa que vai de 20 a 20 mil Hertz, ou usando as abreviações, de 20 Hz a 20 kHz. Mas mesmo com os monitores de sub-graves mais acessíveis nos dias de hoje, é muito difícil reproduzir os sons entre 20 e 30 Hz sem abrir mão de duas condições: o tamanho do monitor, e/ou a potência necessária para reproduzi-los.

Mas reproduzir o quê? Os sons dos instrumentos musicais na sua região média e aguda não encontram muitas dificuldades para serem ouvidos por monitores que vão de 70 Hz para cima. Já o bumbo da bateria produz frequências de 65 Hz, e a nota mais grave do contrabaixo – o “mizão”, produz 41 Hz. Então, monitores mais acessíveis, que costumam ser capazes de reproduzir a partir de uma faixa entre 70 e 100 Hz não servirão para monitorar instrumentos mais graves.

Aqui entra a polêmica entre as especificações técnicas de potência e frequência, que o leigo tem dificuldade em entender, e que os maus vendedores usam para enganá-lo. A primeira é a potência, feita pelo valor real, ou eficaz, ou pelo momento mais feliz de um sinal elétrico em um período de tempo. Claro que o melhor resultado em um momento do período de tempo não representa o valor calculado durante um período inteiro. Nem na nossa vida real.

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O valor real é expresso em watts RMS, cuja sigla se traduz por Room Mean Square, que representa a medição pela raiz quadrada da média dos quadrados de todas as ondas, de todas as frequências. Mas muitas vezes é usado um valor chamado de “pico”, ou PMPO (Peak Maximum Power Out), que pode chegar ao dobro da medição RMS. Logo, um monitor com potência de 100 watts PMPO só tem na verdade cerca de 50 watts RMS, a grosso modo.

Então, para equipar o seu homestudio, você vai precisar de monitores de áudio que reproduzam sons a partir de 35 ou 40 Hertz (Hz) e com uma potência em watts RMS que dependerá do tamanho e outros parâmetros da sala onde serão instalados. Este cálculo escapa do tamanho de nosso espaço aqui na seção Tecnologia, mas prometo que vou abordá-lo em uma outra edição. Podemos, no entanto, ter uma rápida noção:

Se seu equipamento vai ser usado em um quarto pequeno, entre 2 x 3 e 3 x 4 metros, monitores com 50 watts RMS (o par) de potência serão suficientes. Mas se nesse mesmo espaço você vai ensaiar/gravar com sua banda, pode pensar no dobro desta potência. Espaços maiores podem precisar de monitores de 100 watts RMS o par (50 + 50). Tenha em mente que o ideal é trabalhar com até 70% do máximo de volume, e o melhor seria de 50%.

Entra também no cálculo a quantidade de móveis estofados, cortinas e até pessoas presentes no ambiente, que vão absorver o som, demandando mais potência. Um tratamento com placas acústicas, o uso de um equalizador e outros parâmetros podem otimizar a sonorização, mas nada poderá suprir uma falta de potência, como usar monitores de 10 / 20 watts RMS o par, em uma sala grande, com uma banda de 5 membros cabeludos, 2 gatos e um labrador.

Os tipos de monitor

Mais recentemente os monitores de áudio passaram a incorporar seus próprios amplificadores, ou seja, não precisam de mais este item no setup do homestudio. Isto resolveu um problema sério, que era o de usar amplificador com menor ou maior potência do que os monitores suportam, ocasionando até a perda total de alto-falantes por mau uso. Hoje predominam os monitores “ativos”, com amplificação embutida, em detrimento dos “passivos”, sem amplificação própria.

Em outra classificação, os monitores podem ser nearfield (de uso próximo do ouvinte), mais conhecidos como as famosas “caixinhas” de computador, com alto-falantes pequenos, menores do que 4 polegadas de diâmetro, ou de outra natureza, para serem ouvidos a maior distância. Monitores nearfield propriamente ditos são os que têm alto-falantes entre 4 e 8 polegadas, reproduzindo frequências graves a partir de 35 Hz, e nos de menor qualidade a partir de 50 Hz.

Há vantagens práticas e desvantagens de qualidade com monitores ativos. Basta ligá-los à corrente elétrica – hoje quase todos são bivolt (110/220 Volts) – e conectá-los à saída ou do computador com placa de áudio interna, ou à interface, que é uma placa de áudio externa. Dentro do monitor ativo o dispositivo que separa os sons graves dos médios e agudos já está configurado, bem como a potência dirigida a cada alto-falante, seja um tweeter ou sub-grave.

Falando nos sub-graves, trata-se de um caso de gênero. Não que o sub-grave seja masculino e os de outras frequências femininas… O gênero pode ser o pop, rock, MPB e outros que não

precisem de graves muito profundos, ou pode ser a música eletrônica, rap, reggae ou outros que usam os sons graves como característica de estilo. Isso demanda um terceiro monitor, o dos sub- graves, com alto-falantes com diâmetros de 15 ou 18 polegadas.

Estamos então falando de um sistema de monitoração de áudio chamado de 2×1 (2 caixas “normais” e uma de sub-graves), contra o tradicional estéreo, o 2×0. Existem ainda os sistemas de surround, sendo os mais comuns os de 5×1 (4 caixas para os canais direito/esquerdo frontais e de trás, mais o sub-grave) e o 7×1, (6 caixas direito/esquerdo e a de sub-grave). Outros sistemas podem ser criados e customizados, mas para um homestudio inicial, o 2×0 ou 2×1 dá pro gasto.

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Usando amplificadores diversos e monitores passivos, abre-se a possibilidade de usar tipos diferentes de amplificadores, para várias especialidades e estilos musicais, e além disso usar diferentes crossovers – divisores de frequências que vêm já configurados nos monitores ativos – que podem também, por sua vez, serem crossovers ativos e passivos. Os crossovers têm avós que eram chamados divisores de frequência.

Um crossover passivo fica entre a saída do amplificador e os alto-falantes, quase sempre dentro do monitor. Separa as frequências e as envia para seus respectivos alto-falantes. Em monitores de 2 vias, divide as frequências entre graves e médio-graves e agudos e médio-agudos. Em monitores de 3 vias, as divide entre os graves, os médios e os agudos. Precisam de um canal do amplificador para cada monitor, logo, “gastam” mais canais no sistema.

Crossovers ativos são dispositivos por onde o sinal de áudio passa ANTES dos amplificadores. Filtram o sinal que entra e gera saídas com as diversas frequências. Cada uma dessas saídas vai então para seu respectivo canal do amplificador, e podem ter potências variadas, então sua “desvantagem” é precisar de mais canais de amplificação. O que é compensado com a qualidade e fidelidade da reprodução, mas recomendo, de início, se usá-los, que sejam crossovers passivos.

O temido estouro dos alto-falantes

Um alto-falante pode ser destruído por excesso de movimento ou de aquecimento. Por se movimentar demais, os alto-falantes de médios e graves fazem com que sua bobina e núcleo comecem a bater na estrutura que os abriga, e se deformam, precisando de reparos. Já quando o amplificador “clipa”, isto é, ficam saturados, escapam da deformação, mas o excesso de potência RMS é muito forte, fazendo a bobina, em vez de se deformar, derreter ou mesmo pegar fogo.

Em monitores com crossover passivo, ocorre um fenômeno mais complexo: uma onda sonora grave, clipada, prroduz distorção harmônica que gera sinais de agudos. O crossover passivo acha que está recebendo sinal de agudos e os envia – como é o seu trabalho – para o tweeter. Este então se superaquece e vai pro saco, e nem por culpa das frequências agudas, e sim das graves, que com a distorção geram harmônicos agudos que enganam o crossover passivo.

Onde coloco minhas caixas de som?

Um sistema 2.0 deve ter suas duas caixas posicionadas formando um triângulo de lados iguais com 30 graus à direita e esquerda do ouvinte. Este e as duas caixas ficam cada um em um vértice do triângulo. Devem ainda ficar à altura dos ouvidos do ouvinte, no máximo um pouco acima. Considerando que uma pessoa sentada fica com os ouvidos entre 1,20m e 1,30m, os monitores devem ficar entre 1,20m e 1,50m de altura.

Mas há muitos homestudios em salas pequenas, onde falta espaço, e se recorre a suportes na parede para fixar os monitores. Nesse caso eles deverão ser inclinados para baixo, na direção do ouvinte. Isso reduz o ângulo ideal para se ouvir, e no caso de existirem outros ouvintes além de quem está operando o sistema, e fiquem um pouco – ou muito – atrás do operador, não conseguirão ouvir a separação dos canais da melhor posição.

Se você for trabalhar com graves abaixo de 40 Hz, vai precisar de um monitor para estas frequências específicas. Há que se tomar cuidado para não usar os sub-graves em todos os gêneros. Aliás, sua sala não é o lugar onde todo mundo vai ouvir o que você mixou. Lembre-se que os monitores têm como “sobrenome” o “de referência”, ou seja, a referência para você, com seu espaço, seus monitores e equipamentos, e não os do resto do mundo lá fora.

Em alguns estúdios, é muito comum se testar as mixagens em monitores nearfield, que reproduzem graves a partir de 50, 60 Hz. Da mesma forma, é bom ter cuidado com as frequências agudas, e enfim, todas as frequências. A mixagem é um “arranjo de frequências”, e alguns fenômenos podem surpreendê-lo, como o do cancelamento, quando a fase de microfones ou outras etapas do trabalho técnico anularem o som de um instrumento em detrimento de outro.

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O que há no mercado brasileiro

Nos dias atuais, temos uma grande variedade de monitores, ativos e passivos, marcas e modelos. O que vai orientar a sua escolha pode ser o preço – que não afeta tanto quanto no caso dos microfones, onde é crucial – o tamanho ou o tipo de uso, gênero, estilo ou função a que se destina. Ainda não falamos das interfaces de áudio, imprescindíveis, que serão assunto da próxima edição, mas é delas que sairá o sinal para seus monitores ou amplificadores.

Algumas interfaces têm múltiplas saídas, o que pode ser útil ao usar mais de um par de monitores, alternando entre eles conforme necessário. Mas a maioria tem uma saída principal – main out – que deve ser à qual serão plugados os monitores ou amplificadores. Aconselho a quem está começando a usar monitores ativos, que, para estes iniciantes, eliminarão pequenas dores de cabeça, ou mesmo grandes prejuízos.

Vamos então às especificações de 7 pares de monitores – logo, em um sistema 2.0 – o que recomendo como a monitoração básica para todos os gêneros. Com a sua evolução, você certamente vai querer outros pares, kits, marcas e especificações de monitores, mas, de novo comparando aos microfones, não será um investimento inútil adquirir monitores mais baratos, que depois poderão ser úteis em outras configurações de seu homestudio.

Edifier R1000T4
Alto-falante de médio-graves de 4 polegadas / 24 watts RMS (o par) / alcance de frequências de 75Hz a 18 kHz / preço médio de R$ 550,00 o par.

Edifier R1800TIII
Alto-falante de médio-graves de 4 polegadas / 75 watts RMS (o par) / alcance de frequências de 30Hz a 20 kHz / preço médio de R$ 1.100,00 o par.

Yamaha HS7
Alto-falante de médio-graves de 6,5 polegadas / 60 watts RMS / alcance de frequências de 45Hz a 30 kHz / preço médio de R$ 1.500,00 o par.

Yamaha HS8
Alto-falante de médio-graves de 8 polegadas / 120 watts RMS / alcance de frequências de 38Hz a 30 kHz / preço médio de R$ 2.000,00 o par.

Alesis Elevate 6
Alto-falante de médio-graves de 6 polegadas / 75 watts RMS / alcance de frequências de 55Hz a 30 kHz / preço médio de R$ 1.900,00 o par.

Mackie CR5
Alto-falante de médio-graves de 4 polegadas / 56 watts RMS / alcance de frequências de 60Hz a 20 kHz / preço médio de R$ 2.500 o par.

Mackie XR624
Alto-falante de médio-graves de 6,5 polegadas / 160 watts RMS / alcance de frequências de 45Hz a 22 kHz / preço médio de R$ 3.500,00 o par.

 

Outras alternativas econômicas

A fabricante Edifier tem em sua loja virtual uma seção de usados, recondicionados na própria representante no Brasil, com garantia de 3 meses. Uma vez adquiri um par de monitores que teve um pequeno problema técnico, entrei em contato com a marca, que me repôs um par novo e arcou com todas as despesas de logística pelos Correios, em curto espaço de tempo. Em termos de custo-benefício, é a melhor opção para quem está começando seu homestudio.

O site da empresa Quanta tem também sua loja online – a Quanta Store – onde existe uma seção chamada “Mostruário”, disponibilizando produtos semi-usados, que foram utilizados em exposições, feiras e eventos nos stands da própria Quanta, e são opções confiáveis para os iniciantes. Mas nem sempre comprar usados – de desconhecidos – é uma boa ideia. Em caso de danos nos alto-falantes, nem sempre a reposição é rápida, pois depende de importação.

E, finalmente, se você está financeiramente comprometido, sem verba no caixa ou no bolso, há sempre a opção de ligar sua interface ou saída de áudio do computador em um aparelho “3 em 1”, ou qualquer sistema de amplificação estéreo que tenha uma entrada auxiliar. Os resultados não serão muito bons, mas decerto melhores do que as terríveis “caixinhas” vendidas como “brinde” na compra de um computador. Vale o ditado: “Não existe almoço grátis”.

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Saulo van der Ley
Saulo van der Ley

Começou construindo caixas acústicas, estudando violão erudito, que depois recebeu cordas de aço, captador e alavanca. Montou um grupo de rock, fez um show no colégio em BH e se mudou para São Paulo/SP, onde em 75 fez trilhas para teatro e dança, com prêmio APCA. Membro fundador do Núcleo Música Nova com o mestre Conrado Silva, cursou Composição na UNICAMP, V Prêmio Sérgio Motta de Arte & Tecnologia com o grupo oTaoDoMinf, membro da AES, Troféu Clave OMB-SP, ex-redator e editor de revistas de áudio, Apple Developer e a 27 anos dirigindo a Pauta Arte & Comunicação, mesclando ensino e jornalismo musical.

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