Capitais da música

Capitais da música
setembro 29 15:48 2008

A atual estabilidade econômica brasileira, com o aumento da renda e do emprego, impulsiona o consumo da população e eleva o acesso a bens de lazer e entretenimento. Com isso, o segmento de áudio, iluminação e instrumentos musicais é beneficiado diretamente. Em paralelo, a queda do dólar faz as importações aumentarem, barateia os preços e incrementa ainda mais as vendas — apesar de gerar uma reviravolta entre as fabricantes.
Apesar de o cenário acima ser o mesmo em todo o País, cada estado tem sua particularidade e características locais. Para analisar e comparar essas diferenças, a Música & Mercado inicia nesta edição uma seqüência de reportagens sobre a indústria musical de cada capital brasileira, que serão publicadas individualmente em cada número da revista. Por causa de seu importante papel na economia nacional, a cidade de São Paulo abre a série.
SP na mão da concorrência

Conhecida como cidade do preço baixo, São Paulo está refém das pequenas margens. Detentor de 40% das fabricantes e de 15% das lojas do setor musical no País, município tem vantagens logísticas e maior acesso às novidades 
Com quase 11 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 263 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008 e 2005, respectivamente, São Paulo é a cidade mais populosa e mais rica do Brasil. Considerada a capital financeira do País, é comum que se torne referência e o centro de diversos setores do mercado em âmbito nacional, o que não é diferente nos ramos de áudio, iluminação e instrumentos musicais. 
São aproximadamente 250 lojas de música na cidade, o equivalente a 15% do total do País (cerca de 1.700), segundo base de dados da Música & Mercado. Em relação às empresas (importadoras e fabricantes), o número gira em torno de 120, o que representa 40% das quase 300 empresas do setor em todo o País. Cadastro da Central de Apoio às Escolas de Música (Caem) revela que a cidade conta com 765 escolas de educação musical. Tudo isso faz com que São Paulo seja um dos maiores centros musicais da América Latina.

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Demanda para todo esse mercado há. Além da grande diversidade cultural existente no município, consumidores de todo o Brasil se dirigem ao comércio de São Paulo em busca de melhores preços, diversidade e novidades. Aliás, a explicação para o rápido acesso a lançamentos e oferta de produtos mais baratos por parte das lojas se dá por questões de localização e concorrência. Próximo de muitos fornecedores, o comércio da cidade se beneficia por fretes reduzidos e curtos prazos de entrega. Já a grande quantidade de lojas obriga comerciantes a reduzirem muito suas margens para competir, atraindo cada vez mais compradores.

Além de benefícios em relação à distribuição, o alto poder de compra também colabora para que as varejistas da região barganhem melhores condições comerciais, de acordo com as práticas de cada distribuidor, como explica a diretora de marketing da Izzo Simone Storino: “Os melhores preços são dos maiores compradores”.
Os próprios fornecedores revelam que, apesar de possuírem importantes compradores fora, a concentração maior deles está em São Paulo. “As lojas da cidade certamente compram mais e com maior freqüência”, diz o diretor de marketing da Studio R, Samuel Monteiro.

Para os fabricantes, estar no mercado da Capital também é vantajoso, como explica o diretor da Contemporânea, Roberto Guariglia. “Estar em São Paulo é estar ligado ao mundo. Temos acesso às novidades tecnológicas, informações de mercado, mão-de-obra qualificada, transporte, desenvolvimento de produtos e matéria-prima.”

DIVERSIDADE
Tanta oferta faz com que empresários e comerciantes procurem cada vez mais a especialização ou diversidade dos serviços prestados. Um exemplo é a loja Brass Center, na Teodoro Sampaio, direcionada a baixos e acessórios. Além das vendas, lá é feito de tudo: trocas, compra de usados, consignação, customização, pintura, entre outros. “Só estando em São Paulo para fazer isso. Não tenho conhecimento de nenhuma outra loja somente de contra-baixo no Brasil e na América Latina. Não sei se em outras localidades haveria demanda”, comenta o proprietário, Marcello Martins, que abriu o comércio há três anos.

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Por ser baixista, ele sentia a necessidade de atendimento especializado sobre o assunto e viu a oportunidade de abrir o ponto. O principal diferencial está no atendimento e na prestação de serviços. “É claro que foi uma maneira de eu me destacar e não brigar com as grandes. Em seis meses, eu já tinha melhor loja de baixo da cidade.” 
Outro caso é o Grupo Intermezzo, que surgiu como escola de música há 50 anos e, em 1980, diante da demanda de clientes, percebeu a oportunidade de abrir uma loja. Aos poucos, outros tipos de serviços foram criados pela empresa, como locação de instrumentos musicais, transporte de pianos, reformas de instrumentos e músicos para eventos.

“Quanto você está trabalhando dentro de um segmento, tem de responder à demanda com serviços que complementem sua atividade. Não se pode pensar apenas na venda, mas também na manutenção e fidelização do cliente”, opina o gerente da loja José Carlos Spina Finotti. Ele acrescenta que a internet possibilita a comparação de preços com muita facilidade. “Se você não achar uma maneira de se diferenciar, acaba caindo no esquecimento.”

REFERÊNCIA
Os dois principais pólos do setor encontram-se na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, zona oeste, e na Rua do Seminário, somada à região da Santa Ifigênia, centro da cidade. “Esses chamados ‘centros musicais’ atraem público de todo o País”, afirma Leonardo Tadashi, supervisor comercial da SKP Pro Áudio, marca da Someco.
Guariglia, da Contemporânea, acrescenta que na cidade acontecem os maiores shows nacionais e internacionais, o que faz com que vários músicos circulem pelas lojas atrás de novos instrumentos ou acessórios para conserto. “Pontos como a Rua Teodoro Sampaio e, no passado, a Santa Ifigênia, que atualmente está sendo substituída pela Rua do Seminário e arredores, são os alvos dos profissionais”, diz.

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A formação das duas ruas tradicionais do segmento aconteceu por uma movimentação natural do comércio, como revela o vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Roberto Mateus Ordine. Segundo ele, a região da Santa Ifigênia tornou-se um pólo de comércio por estar localizada no centro da cidade. Já as lojas da Teodoro Sampaio migraram para a região após a criação do Shopping Iguatemi, no começo da década de 1960. “Ele foi o primeiro grande shopping da cidade e puxou as lojas a se fixarem em seu entorno.”  

CONCORRÊNCIA
Apesar de tantos atrativos, quem está no mercado sabe que atuar em São Paulo não é tão fácil quanto parece. Segundo Vladimir João Teixeira, proprietário das lojas Hendrix Word Music, com três lojas do setor na Rua Teodoro Sampaio, com as margens menores, os lojistas cada vez trabalham mais para ganhar menos.

“Quando a concorrência é acirrada, mas sadia, ela se torna positiva porque fortalece o mercado. Dessa forma, somos obrigados a competir com o atendimento e simpatia para com o cliente”, ressalta Marcelo Maurano, gerente de marketing da Playtech, que conta com quatro lojas na cidade (Rua dos Andradas, Rua Teodoro Sampaio, Rua Santa Ifigênia e Av. Eng George Corbisier) e duas no interior do estado (Ribeirão Preto e Campinas). Segundo ele, o problema acontece quando há um número exagerado de lojas num pólo e muitas vezes a concorrência passa a ser predatória e, aí sim, negativa.
Para as fabricantes localizadas na cidade, fatores como maiores custos com instalações físicas, maior custo com mão-de-obra e transporte urbano são fatores que acabam por encarecer o preço final dos produtos, como afirma Monteiro, da Studio R.

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