“Temos de parar de esperar tudo do governo”

“Temos de parar de esperar tudo do governo”
dezembro 17 18:02 2008

“Temos de parar de esperar tudo do governo”
Em entrevista à Música & Mercado, Synésio Batista da Costa fala sobre os rumos do mercado musical e a participação da Abemúsica no fortalecimento do setor

O presidente da Associação Brasileira da Música (Abemúsica), Synésio Batista da Costa, vive o trabalho junto a mais de 30 instituições, 24 horas por dia, sete dias por semana. Além de lutar pelos interesses do mercado musical, esse economista, nascido em Goianésia (GO), preside o Conselho Federal de Economia (Cofecon); a Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq); o Sindicato das Indústrias de Instrumentos Musicais e de Brinquedos do Estado de São Paulo (Simb) e o Instituto da Qualidade do Brinquedo e de Artigos Infantis (IQB). É ainda diretor-secretário do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), gestão 2004/2007, entre as 32 associações que ele gerencia ou nas quais participa como conselheiro.

Fundada em 11 de junho de 1986, Batista define a Abemúsica como uma entidade de classe sem fins econômicos que tem por objetivo defender os interesses da música em todos os seus sete departamentos: Fabricação nacional, Comercialização, Distribuição, Importação, Edições e revistas, Ensino musical e Serviços e iluminação. São mais de 150 sócios que Batista tem o papel de administrar, auxiliado por um conselho administrativo, formado por Alfred Haiat, da Habro Music; Célio Ramos, da EM&T; João Antonio Zanholo, da Staner Eletrônica; José Roberto Mandro, da Hotsound; Marcelo Dantas Fagundes, da Keyboard Editora; Marcelo Tadeu Aziz, da Made in Brazil; Marcio Alves, da Editora HMP; Maurício Ciorra Antunes, da Reference; Mauro Manoel Martins, da Pride Music; Nelson Weingrill, da Weril; Ney T. Nakamura, da Tagima; Octávio Nascimento Brito, da AMI e Pedro Maurano, da Playtech. Confira a seguir a entrevista de Synésio Batista à Música & Mercado.

> Como o senhor avalia o mercado musical hoje?
Synésio Batista da Costa – Efetivamente já há uma mistura muito singular entre o produto nacional e o importado. Essa internacionalização passa pela presença lá fora, passa por acordos internacionais com marcas, acordos de cooperação e fabricação de peças e componentes. É um novo modelo de negócio.

> Que desafios esse novo modelo impõe?
A canibalização da comercialização, na revenda e na fabricação. Vivemos a era do ‘salve-se quem puder’. É equivocado, mas é uma defesa das empresas para sobreviver. Mas esse modelo não é capaz de fazer com que as pessoas ganhem dinheiro permanentemente.

> Por quê?
Porque a canibalização é autofágica. Entra-se em um leilão de quem vende mais barato, para não perder mercado. Mas é um leilão reverso. Para sobreviver é preciso valorizar sua marca, não deixar que os preços se deteriorem.

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> Mas o consumidor estaria disposto a dispensar a questão do preço em função da marca?
De fato, a maioria ainda compra preço. Mas o consumidor que faz o volume de vendas compra marca, beleza e desempenho. Ele sabe o que quer, sabe que se não comprar o que for bom, não produz um resultado na música, não terá uma boa performance.

> O projeto de lei de retomada do ensino musical obrigatório nas escolas pode ajudar nesse aspecto?
Considero esse pensamento equivocado. Não funciona na marra, o governo não vai dar bola para o assunto. Temos um ministro que é músico, que deveria fazer todo o esforço para o retorno da música nas escolas, e ele não tem dado um passo nessa direção, porque as pessoas não acreditam que a música obrigatória nas escolas vá mudar suas vidas. E temos hoje no Brasil perto de quatro milhões de jovens e crianças estudando músicas nas escolas especializadas do País.

> Como atingir esse público?
O primeiro passo é acabar com essa arrogância do brasileiro de bater no peito e dizer que “este é um País muito musical”. Essa é a maior mentira que existe. O adolescente brasileiro gosta de ouvir música, como o francês, o japonês, o americano, o chinês. O negócio do instrumento musical fica na casa dos bilhões de dólares em muitos países europeus e, no Brasil, está em 500 milhões de reais. É infinitamente pequeno em decorrência dos 55 milhões de crianças e jovens até 14 anos que temos no País.

> Como mudar isso?
As grandes marcas têm trabalhado bem seu produto, valorizando-o e fazendo a música chegar aonde precisa. A música é uma das poucas coisas que transita bem em todos os ambientes, do político ao jurídico. Por isso a Abemúsica vai continuar trabalhando nessas questões de visão futura e na ‘descanibalização’ do mercado. Acabar com esse jogo de perde-perde e fazer com que o mercado cresça. Isso acontece quando você fala bem da música em todos os cantos. É como diz o Samuel Klein, dono das Casas Bahia: “Eu fiz o negócio e as pessoas fizeram minha propaganda”. Depois, vêm as atividades específicas, como o estande na Bienal do Livro, por onde passarão milhares de adolescentes. Temos ainda a nossa feira, a Expomusic, que é a maior feira da América Latina. Eu diria, inclusive, que é a quarta maior do mundo.

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> Quais as diferenças do mercado hoje em relação há 22 anos, quando a Abemúsica foi criada?
Quando começamos, éramos uma associação dos fabricantes de instrumentos. Não contávamos com as revendas, importadores, e eu era apenas um funcionário. Tornei-me presidente há dois mandatos. No modelo anterior, todos pensavam que o Brasil precisaria fabricar desde dedeiras a sincronizadores e instrumentos mais sofisticados. O mercado, que é mais poderoso que todos nós, mostrou que esse caminho não dá certo. Mais de 150 empresas fecharam nos últimos 15 anos, e o Brasil teve de se especializar em cordas, sopro, um pouco de teclados e pianos.

> Qual é o panorama da indústria nacional hoje, com o dólar a R$ 1,70?
A indústria está bem posicionada e fortalecida no Brasil. Só que ela vem sendo atacada de maneira implacável pelos efeitos do dólar a R$ 1,70. Porém, esse cenário não é eterno, não existe mal que dure para sempre. Você pode sofrer por algum tempo e é o que está acontecendo com meus associados da indústria nacional. Mas eles têm uma capacidade fantástica de se recriar para continuar crescendo.

> Como é essa capacidade?
Tem a ver com a cabeça das pessoas, de observar, mudar de rumo se um caminho não dá certo. Encontrar sempre um jeito de fazer as coisas funcionarem.

> Sabe-se, por exemplo, que a NAMM (Associação Norte-americana da Música) oferece recursos para a prática da música, incentiva projetos, etc. Sob esse prisma, qual é a meta da Abemúsica em relação ao projeto Sala de Música?
Não há como mensurar porque estamos trabalhando com conceito, em chegar a um arquiteto e sugerir a ele que instale uma sala de música em seu projeto, por exemplo. É uma tendência, como as salas de fitness/ginástica, pistas de corrida, depois as áreas para churrasco, salas de jogos. Até porque o investimento não é meu. A Abemúsica produz material e distribui para as pessoas certas. São Paulo tem 45 mil edifícios já prontos e uma série que é lançada diariamente. Minha expectativa é de que esse projeto tem sua vida e seu tempo, deve levar cinco anos para pegar. Não consigo acelerá-lo, porque não estou colocando dinheiro nele.

> Há um retorno em relação aos condomínios que já aderiram ao projeto?
A mensuração só começará quando as lojas efetivamente venderem instrumentos para os condomínios. Neste momento, a operação é de convencimento e divulgação.

> Voltando ao projeto de lei, qual é o esforço da Abemúsica para apoiar a iniciativa do GAP (Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música)?
Em primeiro lugar, temos de verificar que esse projeto foi feito por um grupo de pessoas que quer algumas isenções para importar produtos. O governo não tem, em seu orçamento anual, nenhuma verba para o mercado de instrumentos musicais ou para o ensino de música. Não há sensibilidade para esse tipo de projeto. Se houvesse, o ministro (Gilberto) Gil já teria demonstrado. Já conversei várias vezes com ele, e não consigo ver espaço para a música. Ainda há pessoas que acreditam que o governo pode salvá-las. Eu não acredito nisso.

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> É possível lutar pela diminuição da carga tributária para o setor?
É nossa obrigação. Mas não vendo fantasia para ninguém. A Abemúsica é integrante da Confederação Nacional das Indústrias, com mais 33 entidades e atua em três frentes: pela redução dos impostos de importação de matérias-primas, pela ampliação do prazo de recolhimento de tributos e pela eliminação de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de alguns produtos chamados básicos para a sociedade, e o instrumento musical está incluso nesse pacote. Só que, com o poder de força que nós temos, as coisas não prosperam na velocidade que se gostaria. Mesmo que se argumente junto ao governo que o setor de instrumentos não representa nada, ele vai nos acusar de sonegação e nessa seara eu não piso. Todos os setores da indústria estão extremamente onerados e o governo não tem escutado ninguém.
Em reunião com o ministro Miguel Jorge (do Desenvolvimento), reclamei dessa questão da tributação igual para instrumentos musicais, e ele respondeu: “Então, me diga o que fazer, porque eu não sei”. Quando chega nesse ponto é porque o País não tem um modelo de defesa do seu mercado. Os Estados Unidos são especialistas em tecnologia, a Argentina tem a carne, os árabes vendem petróleo. E o Brasil? Esse governo está induzindo que quer que o País volte a ser uma grande fazenda da década de 1950.

> Não há saída, então?
Temos de parar de esperar tudo do governo e melhorar os produtos, fazer marketing, encantar as pessoas com a música. Não adianta ficar reclamando, Brasília é surda. O Brasil mudou, e quem não perceber isso vai se dar mal. Além disso, as pessoas têm de trazer as idéias para nós. O que não dá também é sonhar algo e querer que a Abemúsica concretize. Eu e meus conselheiros estamos abertos para ouvir. Quero que a última linha do balanço de cada sócio meu seja azul. Fora disso, não tem conversa.

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